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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

Bem sabes, meu filho, que eu, nem mesmo ao remeter-te num ano o rendimento de quatro, afora o produto da quinta vendida. nada te disse respeito à causa dos teus desperdícios, prometedora de tua inevitável pobreza.

Conheci que eu, em tua vida, já nem sequer valia para amiga. muito menos devia esperar respeito e amor à minha autoridade de mãe. Disse comigo que era irremediável a tua desgraça, e esmoreci de todo em todo.

Mandou o Senhor para o meu lado tua virtuosa prima. Chorámos ambas; mas o anjinho, mesmo em prantos, consolava a pobre que lhe via a alma em grandíssimas mortificações.

Agora, meu filho sempre querido, é tempo de te abençoar, de te perdoar as dores que me deste, e rogar-te que me vejas aos pés do Altíssimo, se a Sua misericórdia me descontar as agonias nas muitas culpas de minha vida. Não te mortifique o pesar de me haver deixado morrer sem que a tua vida se lavasse, pelo arrependimento, do desonroso crime que a disforma. A todo o tempo, se sentires o voluntário brado da consciência, escuta-o, remedeia-te e foge de ti mesmo para te encontrares na justiça benigna de perdoador de crimes iguais. Eu serei então em espírito contigo para te ajudar a reformar o teu ânimo e alentar em teus desfalecimentos.

Dos desbarates e perdimento dos teus haveres, faz muito por salvar ao menos esta casa onde nasceste e a quinta que te dará abundante pão na velhice, se Deus- ta der, como tempo de merecer o Céu. Aqui nasceu teu pai, e muitas gerações de santas e honradas pessoas. Salva esta casa, que tens nela a sepultura de teus pais e avós.

Se alguma vez voltares aqui, e tua prima for viva, estima-a, em paga dos-carinhos que lhe fico devendo, e do beijo de filha que ela me há-de dar quando eu expirar em seu seio. Aqui te lança sua derradeira bênção a tua boa mãe, Eulália.

XVII

Encerrou-se Afonso por espaço de oito dias, inconsolável aos afagos de Palmira.

Os amigos, seus sécios de vida viciosa e soberba de sua culpa, e contubernais logrativos das suas dissipações, enfureciam-lhe o tormento do remorso. Furtava-se à vista deles, fechando-se, quando vinham, com o semblante composto de falso compadecimento, lembrar ao amigo, em luto de oito dias, que um homem de razão clara tinha obrigação de ser superior a sofrimentos-comuns e naturalíssimos, tais como a morte de uma mãe.

Palmira ia ao salão receber os pêsames e combinava-se com os cavalheiros admirados da pusilanimidade de Afonso. "Eu sofro muito", dizia ela a D. José de Noronha, alquebrando o rosto em desconfortada pena, "ao ver que a minha solicitude consoladora nada pode com. Afonso. O coração da mulher que renunciou à satisfação do dever e se imolou aos caprichos transitários de um homem deve também renunciar ao poderio de desviar de uma sepultura os olhos dele. Assim se é castigada, quando se é culpada como eu." A tais razões proferidas com os olhos no tecto, respondia D. José de Noronha: "Eu hei-de acreditar que Afonso deixou de amar apaixonadamente V. Exª quando ele se confessar um monstro e a honra for banida neste mundo. Eu só compreendo o esquecimento da honra quando é preciso sacrificá-la a uma senhora como V. Exª. Ainda bem que há uma só, para se não adjurarem os seus deveres sociais." Ora o estilo de Afonso - digamo-lo de corrida - era muito mais lhano e correntio.

O filho de Eulália, passado o primeiro mês de luto, disse com suaves maneiras a Palmira que o seu ânimo estava passando por estranho reviramento, no tocante a prazeres falsos do mundo; que resolvia diminuir as suas relações e as suas superfluidades; que tencionava ocupar algumas horas na leitura, em que felizmente Palmira o acompanharia, revivendo a sua esquecida afeição aos livros; que aceitava como inspiração de sua santa mãe o desapegar-se de regalos vãos, deleites de mera vaidade, que perdem seu sabor ainda antes de se acabarem; finalmente concluiu Afonso:

"Vivamos como amantes que dispensam serem admirados para serem venturosos." Palmira sorriu e disse:

- Bem sei... bem sei, Afonso.

- Que sabes tu? - perguntou brandamente o moço. - Diz o que sabes, minha amiga.

- Compreendo a mola oculta do teu novo programa de vida... É o cansaço..- Já me chamas tua amiga. A mulher que ama, quando lhe dão tal nome, sabe que é coisa de pouca monta para quem lho dá. Fala-me claro; sentes o entojo de impressões novas? As cartas de tua prima é que levantaram em teu espírito essas poeiras de tardia virtude? Nada de refolhos, Afonso. A minha opinião é que nenhum de nós se constranja. As peias, impostas mesmo pelo dever, são um infortúnio muito bem conhecido. Fazes-me pena, se o experimentas. Amas tua prima, Afonso?

(continua...)

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