Por Camilo Castelo Branco (1882)
A tia Maria era muito rezadeira, erguia-se de noite para não pender a sua missinha no Verão ao romper do dia, e garganteava com uma melopeia fanhosa a via-sacra na Quaresma, à volta da igreja; presenteava os santos dos altares com os mimos da sua lavoura, que se leiloavam ao domingo no adro, dava cama e mesa untuosa aos missionários, confessava-se todos os meses, e sentia pelas suas vizinhas menos beatas o inefável prazer de afirmar que haviam de cair vestidas e calçadas no Inferno. O filho penetrou-se de uma ideia trivial a respeito de sua mãe: – Que os sentimentos religiosos a Levariam a dar o consentimento, se Marta cometesse um desses pecados que se remedeiam com o matrimónio. O padre Osório dizia-lhe que a intenção era honesta, mas o expediente mau. Não lhe citou teólogos nem preceitos de origem divina. Argumentoulhe com a hipótese da pertinaz resistência da mãe. Que não esperava nada da sua religião um hábito de trejeitos de mãos e de beiços, o automatismo idólatra dos selvagens da América, que davam guinchos mecânicos, prostrando-se por terra, quando ouviram a primeira missa; que a religião das aldeias, sobre a dos indianos da catequese dos jesuítas, as vantagens que tinha era a hipocrisia em uns, e o fanatismo em outros, quando não se jantavam ambas as coisas nos mesmos fiéis, O padre Osório paroquiava e conhecia o seu rebanho, joeirando-o pelos crivos do confessionário. Não conhecia menos a tia Maria de Vilalva. Afirmava que a fragilidade de Marta seria para a velha mais um motivo de ódio e desprezo; porque, na sua cartilha e nos ditames dos seus directores espirituais, não se lia nem ouvia que a mãe devia encobrir a desonra de unia rapariga casando-a com o seu filho, sedutor dela.
As reflexões do vigário de Caldelas eram óptimas, mas extemporâneas.
Um oficial de pedreiro de Prazins, que trabalhava com o mestre Zeferino, contoulhe que uma noite se enganara com o luar, e, cuidando que era dia nado, se levantara para ir para a obra; mas que ao passar por diante da casa do Simeão ouvira duas horas no relógio, e vira luz pelas frestas de uma janela. Que se pusera à coca debaixo de um carvalho, a desconfiar que a luz àquela hora não era coisa boa, e estivera, vai não vai, à pernas para que te quero, lembrando-se se seria bruxedo ou alma penada, porque se dizia que a Genoveva do Simeão, a que se deitara ao rio, não podia entrar no Purgatório, e morrera com o Diabo no corpo, salvo seja. Estava nisto quando a luz se sumiu, e se coou pelas frestas de outra janela, e logo depois noutra mais baixa, onde um homem podia chegar com o
cabo de um machado. Nisto apagou-se a luz e abriu-se a janela de portadas sem vidros. Dava-lhe a chapada do luar; era como se fosse dia. O pedreiro, muito no escuro da ramaria do carvalho, viu apontar uma cabeça e depois meio corpo de homem, que se pôs às cavaleiras do peitoril da janela, quedou-se a olhar e a escutar a um Lado e outro; depois desmontou-se muito devagarinho, sem tugir nem mugir, pendurou-se no peitoril e deixou-se cair, ficando em pé. A janela fechou-se, e o José Dias, que o operário conheceu como se o visse ao meio-dia, meteu-se ao caminho de Vilalva, por sinal que levava sapatos de borracha que brilhavam ao luar como um espelho.
O oratoriano Manuel Bernardes, como é notório, escreveu um livro edificante, muito piedoso, chamado Armas da Castidade. O místico filho de S. Filipe Néri, com duas palavras sãs, de um realismo seráfico, cabalmente explicou a situação de outro José Dias a respeito de outra Marta, conhecia-lhe o leito, dizia ele. É o mais que se pode dizer sem escandalizar ninguém. Conhecia-lhe o leito.
Mas o Zeferino é que sentiu em cheio no peito amante a facada do escândalo. O oficial viu-o sentar-se sobre uma padieira que estava esquadriando, e, com o rosto entre as mãos, desfazer-se em pranto. Ele tinha amado aquela rapariga desde que a vira aos treze anos. Trabalhara e roubara como galego para a poder comprar ao pai por um conto e quinhentos e pico. Meteu-se na política; fez-se sargento-mor a ver se se levantava a uma altura em que a Marta o achasse digno dela e superior ao estudante. Desabadas as esperanças com a prisão do patife de Calvos, cismava ainda em voltar de novo ao campo quando viesse o D. Miguel autêntico, porque o tenente-coronel de Quadros lhe dizia que el-rei chegava a Portugal na Primavera do ano seguinte – afirmava-lho o padre Rocha, para o consolar juntamente com as bebedeiras quotidianas. Tudo acabado, perdido, como se Lhe morresse a Eva do seu paraíso! E por isso o pedreiro chorava como os grandes poetas traídos, como Camões, como Tasso, como Alfredo de Musset. As lágrimas na cara tostada daquele operário tinham o travo das que a poesia cristalizou no panteão dos mártires do amor.
Depois, levantou-se, limpou as faces à manga da camisa, pegou da esquadria e continuou a trabalhar, assobiando a música triste de uma cantiga desse tempo:
Ó mar, se queres, Tem dó de mim.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.