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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

É evidente que uma coisa é o Governo de Inglaterra e outra coisa é a Inglaterra: que a rainha e Lord Beaconsfield desejam a guerra, pelas suas inclinações pessoais, é certo; mas estes bons desejos dos elementos decorativos da constituição não bastam; é necessário que a grande massa, o contribuinte, o eleitor se queiram bater – e é neste elemento dominante que eu vejo uma antipatia muito decidida por qualquer acção militar. O Partido Conservador, em Inglaterra, vive num estado de irritabilidade acerca de política estrangeira; é, de natureza, bélico e fanfarrão: conserva o antigo ideal da canção: «Britânia governando as ondas e árbitra das nações.» Que em qualquer ponto da Europa haja um tiro, e os conservadores ingleses querem logo mandar lá a frota, a vasta frota! Foram eles que fizeram a Guerra da Crimeia: foram eles que gritaram que a Inglaterra devia intervir, pelo Sul, na guerra da América. Fora eles que declararam que a nação estava para sempre desonrada por não ter tirado a espada em favor da França. Se a nação os tivesse escutado, tê-la-iam lançado nas aventuras mais desastrosas.

Desde o começo desta complicação do Oriente têm estado constantemente a levar a mão aos copos da espada, de testa franzida para a Rússia: e foram em parte estes actos de arreganho que provocaram a guerra; e se o Governo não tivesse recusado aceitar o memorando de Berlim, a Turquia não se teria mostrado tão resistente nas conferências de Constantinopla; se o Governo não tivesse mandado a esquadra à baia de Besika, a Turquia, que se julgou logo apoiada, não teria sido tão intratável. E agora, que a guerra está finda, põe outra vez a mão na espada a propósito das condições de paz. Resta saber se o país lhe não tirará a espada da mão. Até aqui parece muito resolvido a isso; pelo menos, a julgar pelas petições, protestos, meetings. representações, a maioria liberal da nação quer trabalhar e não guerrear; e firmemente declaram – que nenhuma condição de paz, «nenhuma exigência russa põe em perigo os interesses da Inglaterra, nem mesmo a posse de Constantinopla». E aqui está o argumento: os que querem a guerra dizem que se a Rússia for a Constantinopla, primeiro, põe em perigo a supremacia da marinha inglesa no Mediterrâneo; segundo, abala o prestígio inglês na Índia; terceiro, tornando-se uma forte potência, pode arrancar à Inglaterra o uso do canal de Suez e do seu caminho para a Índia. E, dizem os partidários da paz, nós respondemos a isto: primeiro, que a marinha inglesa é mais forte que todas as marinhas do mundo juntas, e que os Russos não têm nem dinheiro, nem os construtores para criar uma frota que tenha a décima quinta parte da força da nossa, nem num século; segundo, que os hindus não nos amam nem nos desamam pela maior ou menor protecção que nós damos aos seus correligionários maometanos na Europa; e a prova é que, meses depois de nós nos termos batido pelos maometanos da Europa, na Crimeia, os maometanos da Índia mostraram-nos a sua indelével gratidão, fazendo contra nós a mais formidável insurreição dos tempos modernos!; terceiro, que a Rússia, em Constantinopla, tornar-se-ia a mais fraca das potências ocidentais: cercada do ódio da Áustria, da rivalidade da Alemanha e da nossa contínua vigilância, a sua posição seria de um perigo permanente, obrigando-a a armamentos ruinosos, a um estado de incerteza fatal ao seu comércio. E bastaria uma frota nas alturas de Creta para a manter num estado de inacção impotente.

Há muita verdade nesta argumentação do partido da paz, e é esta a argumentação em que se baseiam as representações dos meetings. Mas são estes meetings a expressão exacta do pensamento do país?

Eu tive ocasião de assistir ao grande meeting de Newcastle. Ë verdade que era em favor da guerra. Mas não é das suas resoluções que eu quero contar, é da sua atitude. Havia todas as condições de seriedade: estavam três a quatro mil pessoas; era na sala monstro dos Paços do Concelho; falava o deputado Hammond, homem estimado. E aqui está o que se passou.

(continua...)

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