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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Por esse tempo, uma manhã, houve um grande rumor no castelo. O menino estava doente. Bem depressa dois pajens partiram galopando – e não tardou a chegar, montado na sua mula, o Físico, com a sua caixa de drogas. Foram então dias de inquietação. A capela estava todo o dia acesa, e as aias rezando. De um convento vizinho vieram as relíquias de S. Teódulo. Os pajens, sem jogar, sem lutar, cochichavam com medo pelos cantos: - e outros iam procurar pelos caminhos peregrinos, ou mercadores ambulantes, que trouxessem de longe alguma receita nova e ignorada. Cristóvão não dormia. Toda a noite. os seus olhos estavam cravados na janela dos aposentos do menino. Interrogava, tremendo, as camareiras Ia pelos casais de colmo, dos servos, perguntando por ervas. Foi muito longe consultar um pastor feiticeiro. E para que nenhum rumor inquietasse o menino, ia de noite, com uma grande vara, bater a água dos fossos, para fazer calar as rãs.

Um dia, porém, o menino apareceu no terraço do castelo, apoiado às duas

senhoras, pálido ainda, sorrindo ao sol de Inverno. Todos os criados, os servos, correram, saudando-o de longe com os barretes. A sineta da capela repicava alegremente. E Cristóvão, com as mãos postas, esperava ansiosamente que os olhos do menino se pousassem nele. O menino acercou-se da beira do terraço – e os seus olhos, ainda vagos e tristes, pareceram nem reparar no seu gigante. Cristóvão foi recolher à sua torre, com duas grossas lágrimas rolando-lhe por entre as barbas.

XIV

O castelo perdeu então para ele todo o seu encanto: - e como que sufocado entre os seus altos muros, voltava os seus pensamentos para os campos e para as moradas dos servos, entre quem nascera. Como a paz era tão grande, nenhum dos serviços de guarda era feito com exatidão: as sentinelas dormiam nos torreões, como frades no locutório; os porteiros deixavam os molhos de chaves pendentes das argolas de ferro; e a torre dos arquivos não precisava ser guardada. Logo pois que a varria, Cristóvão, tomando o bordão, ia pelas terras do feudo, pelos casebres dos colonos e servos.

Todos o conheciam. Havia sempre para ele um pichel de vinho:- e Cristóvão brincava com as crianças ou ajudava a tosquiar os anhos. Pouco a pouco, tornou-se o serviçal de todos, e, como outrora na sua aldeia, era ele que acarretava os fardos, rachava a lenha, compunha os telhados, lavrava os chãos mais duros. Mesmo por vezes ia pastorear os rebanhos, ou guardava os moinhos. À noite ficava entre aquela pobre gente, sem pena do bom calor das cozinhas do castelo, do pão fresco, e da sua larga porção de carne salgada. Reunidos à lareira, num dos casebres, eles passavam o fim da tarde já escuro, olhando o lume, onde as raparigas assavam castanhas na cinza. E Cristóvão, no meio deles, escutava o seu falar lento e grave. Os mais velhos contavam histórias do velho conde, homem cruel, que nos campos impelia o seu corcel contra os lavradores, ou talava os vergéis. Diz-se que tinha pacto com o Demônio:- e muitos o tinham visto caçar de noite, à luz de tochas, guiado por um caçador todo escarlate , que tocava uma trompa de onde saíam chispas de lume. Outros tempos mais doces tinham vindo com o outro conde, o que morrera nas guerras, e com as damas, tão clementes, que as forcas patibulares estavam apodrecendo. Mas quanto lhes pesava ainda aquele alto castelo, de brasões e de flâmulas! Que dura era ainda a vida, sempre sujeita, toda de duro trabalho! E cada um contava a sua miséria, o labutar incessante, o pão escasso, os filhos rotos pelos grandes frios, a fome por vezes vindo com os seus dentes de loba... As vozes iam-se tornando mais tristes. O vento entrava pelas frestas dos casais. As mães, com um suspiro, embalavam os berços, onde dormiam inocentes, votados à mesma servidão e à mesma miséria. Cristóvão sentiu o seu coração doer, com uma compaixão infinita.

(continua...)

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