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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Há um marido que a veste, que a calça, que a alimenta, que a engoma, que a vela se estádoente; que a atura se ela está nervosa; que tem todos os encargos, todos os tédios, todos os filhos, todos, todos os que vierem, sabes a lei... Por conseqüência o primo não tem mais que chegar, bater ao ferrolho, encontra-a asseada, fresca, apetitosa à custa do marido, e...

Teve um risinho, recostou-se com uma grande satisfação, enrolando deliciosamente o cigarro, regozijando-se no escândalo.

- É ótimo! - acrescentou. - Todos os primos raciocinam assim. Basílio é primo, logo... Sabes osilogismo, Sebastião! Sabes o silogismo, menino! - gritou, dando-lhe uma palmada na perna.

- É o diabo - murmurou Sebastião cabisbaixo.

Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando:

- Mas tu supões que uma rapariga de bem...

- Eu não suponho nada! - acudiu Julião.

- Fala baixo, homem!

- Eu não suponho nada - repetiu Julião baixinho. - Eu afirmo o que ele faz. Agora ela...

E acrescentou com secura:

- Como é uma rapariga honesta...

- Se é! - exclamou Sebastião, batendo uma punhada na pedra da mesa.

- Pronto! - cantou arrastadamente o moço.

O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o criado se recolhia ao balcão bocejando, e que os dois continuavam a remexer a sua carapinhada, encostou os cotovelos à mesa, salivou para longe, e puxando o jornal deixou-lhe cair em cima um olhar desolado.

Sebastião disse, então, com tristeza:

- A questão não é por ela. A questão é pela vizinhança.

Ficaram um momento calados. A altercação de vozes no bilhar crescia.

- Mas - disse Julião, como saindo de uma reflexão - a vizinhança?

- Sim, homem! Vêem entrar para lá o rapaz. Vem de tipóia; faz um escândalo na rua. Já se fala.

Já vieram com mexericos à tia Joana. Há dias encontrei o Neto que reparou. O Cunha também. O homem dos trastes, embaixo, não se faz nada que ele não dê fé; são umas línguas de tremer. Há dias ia eu a passar quando o primo se apeou da carruagem para entrar, e foram logo conciliábulos na rua, olhadelas para a janela, o diabo! Vai lá todos os dias. Sabem que o Jorge está no Alentejo... Está duas e três horas. É muito sério, é muito sério!

- Mas ela então é tola!

- Não vê o mal...

Julião encolheu os ombros, duvidando.

Mas a porta de baeta do bilhar abriu-se; um homem hercúleo, de bigode negro, muito escarlate, saiu bruscamente, e parando, segurando a porta aberta, gritou para dentro:

- E fique sabendo que havia de encontrar homem!

Uma voz grossa, do bilhar, respondeu-lhe uma obscenidade.

O sujeito hercúleo atirou a porta, furioso; atravessou o café resfolegando, apoplético; um rapaz chupado, de jaquetão de inverno e calça branca, seguia-o, com um ar gingado.

- O que eu devia fazer - exclamava o agigantado, brandindo o punho - era quebrar a cara àquele pulha!

O rapaz chupado dizia, com doçura e servilismo, bamboleando-se:

- Questões não servem para nada, Sô Correia!

- É que sou muito prudente - berrou o hercúleo. - É que me lembro tenho mulher e filhos! Se nãobebia-lhe o sangue!

E saindo, a sua voz roncante perdeu-se no rumor da rua.

O criado muito pálido, tremia dentro do balcão; e o sujeito calvo, que erguera a cabeça, teve um sorriso de tédio, e retomou tristemente o jornal.

Sebastião, então, disse refletindo:

- Não te parece que seria bom avisá-la?

Julião encolheu os ombros, soltou uma baforada de fumo.

- Dize alguma coisa! - implorou Sebastião. - Tu não ias falar-lhe, hem?

- Eu? - exclamou Julião com um aspecto que repelia a idéia. - Eu! Estás doido!

- Mas que te parece, enfim?

E a voz de Sebastião tinha quase uma aflição.

Julião hesitou:

- Vai, se queres. Diz-lhe que se tem reparado... Enfim, eu não sei, meu amigo!

E pôs-se a chupar o seu cigarro.

Aquele mutismo afetou Sebastião. Disse com desconsolação:

- Homem, vim-te pedir um conselho...

- Mas que diabo queres tu? - E a voz de Julião irritava-se. - A culpa é dela. É dela! - insistiu,vendo o olhar de Sebastião. - É uma mulher de vinte e cinco anos, casada há quatro, deve saber que se não recebe todos os dias um peralvilho, numa rua pequena, com a vizinhança a postos! Se o faz, é porque lhe agrada.

- Ó Julião! - disse muito severamente Sebastião.

E dominando-se, com a voz comovida:

- Não tens razão, não tens razão!

Calou-se muito magoado.

Julião levantou-se.

- Amigo Sebastião, eu digo o que penso; tu fazes o que entendes.

Chamou o criado.

- Deixa - disse Sebastião precipitadamente, pagando.

Iam sair. Mas então o sujeito calvo, atirando o jornal, arremessou-se para a porta, abriu-a, curvou-se, e estendeu a Sebastião um papel enxovalhado.

Sebastião, surpreendido, leu alto, maquinalmente:

- "O abaixo-assinado, antigo empregado da nação, reduzido a miséria..."

- Fui íntimo amigo do nobre Duque de Saldanha! - gemeu chorosamente, com uma rouquidão, osujeito calvo.

Sebastião corou, cumprimentou, meteu-lhe na mão duas placas de cinco tostões, discretamente.

O sujeito dobrou profundamente o espinhaço e declamou com uma voz cava:

- Mil agradecimentos a Vossa Excelência, senhor conde!

CAPÍTULO V

(continua...)

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