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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Esse era um homem! Coitado, lá está no cemitério de S. Miguel... E agora, Sr. GonçaloRamires, o despotismo campeia, desenfreado!

Bufava, arfava, esfalfado daquele fogoso desabafo. Dobraram calados a esquina das Brocas para a bela rua, novamente calçada, da Princesa D. Amélia. E logo na segunda porta, parando, tirando da algibeira o trinco, o Guedes, que ainda resfolegava, ofereceu a S. Exa. para descansar.

- Não, não, obrigado, meu caro amigo. Tive imenso, imenso prazer, em o encontrar... Essahistória do Noronha é tremenda!... Mas nada me espanta do Sr. Governador Civil. Só me espanta que o não tenham corrido de Oliveira, como ele merece, com pancada e assuada... Enfim, nem toda a gente boa jaz no cemitério de S. Miguel... Até amanhã, meu Guedes. E obrigado!

Da rua da Princesa D. Amélia até o largo de El-Rei, Gonçalo correu com o deslumbramento de quem descobrisse um tesouro e o levasse debaixo da capa! E aí levava com efeito "o escândalo, o rico escândalo", que tanto farejara, por que tanto almejara, para desmantelar o Sr. Governador Civil na sua fiel cidade de Oliveira, que lhe levantava arcos de buxo! E, por uma mercê de Deus, "o rico escândalo" demoliria também o homem no coração de Gracinha, onde, apesar do antigo ultraje, ele permanecia como um bicho num fruto, esfuracando e estragando... E não duvidava da eficácia do escândalo! Toda a cidade se revoltaria contra a Autoridade femeeira, que oprime, desterra um funcionário admirável - porque a irmã do pobre senhor se recusou à baba dos seus beijos. E Gracinha?... Como resistiria Gracinha àquele desengano - o seu antigo André abrasado pela menina Noronha e por ela repelido com nojo e com mofa? Oh! o escândalo era soberbo! Só restava que estalasse, bem ruidoso, sobre os telhados de Oliveira e sobre o peito de Gracinha como trovão benéfico que limpa ares corrompidos. E desse trovão, rolando por todo o Norte, se encarregava ele com delícia. Libertava a cidade dum Governador detestável, Gracinha dum sonho errado. E assim, com uma certeira penada, trabalhava pro patria et pro domo!

Nos Cunhais correu ao quarto do Barrolo, que se vestia trauteando o Fado dos Ramires, e gritou através da porta com uma decisão flamejante:

- Não te posso acompanhar à Estevinha. Tenho que escrever urgentemente. E não subas, nãome perturbes. Necessito sossego!

Nem atendeu aos protestos desolados com que o Barrolo acudira ao corredor, em ceroulas. Galgou a escada. No seu quarto, depois de despir rapidamente o casaco, de excitar a testa com um borrifo d'água-de-colônia, abancou à mesa - onde Gracinha colocava sempre entre flores, para ele trabalhar, o monumental tinteiro de prata que pertencera ao tio Melchior. E sem emperrar, sem rascunhar, num desses soltos fluxos de Prosa que brotam da paixão, improvisou uma Correspondência rancorosa para a Gazeta do Porto contra o Sr. Governador Civil. Logo o título fulminava - Monstruoso atentado! Sem desvendar o nome da família Noronha, contava miudamente, como um ato certo e por ele testemunhado, "a tentativa viloa e baixa da primeira Autoridade do Distrito contra a pudicícia, a paz de coração, a honra de uma doce rapariga de dezesseis primaveras!" Depois era a resistência desdenhosa - "que a nobre criança opusera ao Don Juan administrativo, cujos belos bigodes são o espanto dos povos!" Por fim vinha - "a desforra torpe e sem nome que S. Exa. tomara sobre o zeloso empregado (que é também um talentoso artista), obtendo deste nefasto Governo que fosse transferido, ou antes arrojado, cruelmente exilado, com a família de três delicadas senhoras, para os confins do Reino, para a mais árida e escassa das nossas Províncias, por o não poder empacotar para a África no porão sórdido duma fragata!" Lançava ainda alguns rugidos sobre "a agonia política de Portugal". Com pavor triste, recordava os piores tempos do Absolutismo, a inocência soterrada nas masmorras, o prazer desordenado do Príncipe sendo a expressão única da Lei! E terminava perguntando ao Governo se cobriria este seu agente - "este grotesco Nero que, como outrora o outro, o grande, em Roma, tentava levar a sedução ao seio das famílias melhores, e cometia esses abusos de poder, motivados por lascívias de temperamento, que foram sempre, em todos os séculos e todas as civilizações, a execração do justo!" - E assinava Juvenal.

Eram quase seis horas quando desceu à sala, ligeiro e resplandecente. Gracinha martelava o piano, estudando o Fado dos Ramires. E Barrolo (que não se arriscara a um passeio solitário) folheava, estendido no canapé, uma famosa História dos Crimes da Inquisição que começara ainda em solteiro.

- Estou a trabalhar desde as duas horas! - exclamou logo Gonçalo, escancarando a janela. Fiquei derreado. Mas, louvado seja Deus, fiz obra de Justiça... Desta vez o Sr. André Cavaleiro vai abaixo do seu cavalo!

Barrolo fechou imediatamente o livro, com o cotovelo nas almofadas, inquieto:

- Houve alguma coisa?

(continua...)

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