Por Eça de Queirós (1901)
Atirou a mão ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que abre os Destinos – e no corredor gritou pelo Grilo, com uma larga e açodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a dum Chefe ordenando, na alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste marche, com pendões e bagagens...
Logo nessa manhã (com uma atividade em que eu reconheci a pressa enjoada de quem bebe óleo de rícino) escreveu ao Silvério mandando caiar, assoalhar, envidraçar o casarão. E depois do almoço apareceu na Biblioteca, chamado violentamente pelo telefone, para combinar a remessa de mobílias e confortos, o diretor da Companhia Universal de Transportes.
Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado num jaquetão de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas brancas, uma multicor resumindo as suas condecorações exóticas de Madagáscar, de Nicarágua, da Pérsia, outras ainda, que provavam a universalidade dos seus serviços. Apenas Jacinto mencionou “Tormes, no Douro...” – ele logo, através dum sorriso superior, estendeu o braço, detendo outros esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regiões.
-Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!
Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota – enquanto eu considerava, assombrado, a vastidão do seu saber Corográfico, assim familiar com os recantos duma serra de Portugal e com todos os seus velhos solares. Já ele atirara a carteira para o bolso... E “nós, seus caros senhores, não tínhamos senão a encaixotar as roupas, as mobílias, as preciosidades! Ele mandaria as suas carroças buscar os caixotes, a que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereço..."
-Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Espanha-Medina-Salamanca... Perfeitamente! Tormes... Muito pitoresco! E antigo, histórico! Perfeitamente, perfeitamente!
Desengonçou a cabeça numa vênia profundíssima – e saiu da Biblioteca, com passos que devoravam léguas, anunciavam a presteza dos seus Transportes.
-Vê tu – murmurou Jacinto muito sério. – Que prontidão, que facilidade!... em Portugal era uma tragédia. Não há senão Paris!
Começou então no 202 o colossal encaixotamento de todos os confortos necessários ao meu Príncipe para um mês de serra áspera – camas de pena, banheiras de níquel, lâmpadas Carcel, divãs profundos, cortinas para vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os sótãos, onde se arrecadavam os pesados trastes do avô Galião, foram esvaziados – porque o casarão medieval de 1410 comportava os tremós românticos de 1830. De todos os armazéns de Paris chegavam cada manhã fardos, caixas, temerosos embrulhos que os embaladores desfaziam, atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os nossos passos açodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido, organizava a remessa de fornalhas, geleiras, bocais de trufas, latas de conservas, bojudas garrafas de águas minerais. Jacinto, lembrando as trovoadas da serra, comprou um imenso pára-raios. Desde o amanhecer, nos pátios, no jardim, se martelava, se pregava, com vasto fragor, como na construção duma cidade. E o desfilar das bagagens, através do portão, lembrava uma página de Heródoto contando a marcha dos Persas.
Das janelas, Jacinto, com o braço estendido, saboreava aquela atividade e aquela disciplina:
-Vê tu, Zé Fernandes, que facilidade!... Saímos do 202, chegamos à serra, encontramos o 202. Não há senão Paris!
Recomeçara a amar a Cidade, o meu Príncipe, enquanto preparava o seu êxodo. Depois de Ter, toda a manhã, apressado os encaixotadores, descortinado confortos novos para o abandonado solar, telefonado gordas listas de encomendas a cada loja de Paris – era com delícia que se vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vitória ou saltava para a almofada do fáeton, e corria ao bosque, e saudava a barba talmúdica do Efraim, e os bandós furiosamente negros de Vergame, e o Psicólogo de fiacre, e a condessa de Trèves na sua nova caleche de oito molas fornecida pelas operações conjuntas da Bolsa e da alcova. Depois arrebanhava amigos para jantares de surpresa no Voisin ou no Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciência duma fome alegre, vigiando fervorosamente que os Bordpeus estivessem bem aquecidos e os Champanhes bem granitados. E no teatro das Nouveautés, no Palais Royal, nos Buffos, ria batendo na coxa, com encanecidas facécias de encanecidas farsas, antiquíssimos atores, com que já rira na sua infância, antes da guerra, sob o segundo Napoleão.
De novo, em duas semanas, se abarrotaram as páginas da sua Agenda. A magnificência do seu traje, como imperador Frederico II de Suábia, deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde também fui, de “moço de forcado”). E na Associação para o Desenvolvimento das Religiões Esotéricas discursou e batalhou bravamente pela construção dum Templo Budista de Montmartre!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.