Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Desde que não tenho casa – respondeu a hóspeda, sorrindo. – Desde que precisei da caridade da minha amiga de infância, e da sua beneficência, Sr. Costa.
Ocorreu Vitorina a dar uns tons de festa à chegada de Francisco, pasmando-se nele, nas grandes barbas, e na espantosa mudança que fizera, e no medo que ela tivera de que fosse um salteador, quando o viu romper por ali dentro.
Entraram para a saleta do trabalho, onde estavam armados dois bastidores.
― Aqui tens a nossa oficina – apontou a ridentíssima Joana. – Temos feito progressos e lucros admiráveis:
bordamos a ouro. A Sr.ª D. Ângela, em dez meses, ganhou quarenta e duas moedas.
― Está vossa excelência aqui há dez meses? – perguntou Costa à hóspeda.
― Penso que sim – confirmou Ângela.
Francisco, confrontando as datas, concluiu que tendo chegado ao Rio Hermenegildo oito meses antes, Ângela se acolhera a sua irmã logo que saiu de casa. Exultou, luzia-lhe nos olhos o muito sol que se lhe abrira na alma.
E a ponto vem dizer-se que o confidente último do brasileiro, desde que ao longe premeditou a redenção de Ângela, conjecturara que teria de procurá-la na ladeira onde vulgarmente pobreza e formosura impelem a mulher, nascida sem auréola santificante: - auréola de que já hoje ninguém vê resplendor, nem os romancistas propriamente se exercitam nesse gênero de inventiva, temerosos do descrédito de fantásticos e inverossímeis.
Do muito martelar nesta hipótese péssima, bem que trivialmente realizada no máximo número de lances análogos, causou-se que o lapso da desamparada senhora para os braços doutro homem, amado ou aborrecido, era a esperança infernal que preocupava o autor dos SONHOS, aquele olímpico vidente agora demudado em pessimista, com as asas da sua poesia mortas, e o espírito prostrado nas baixezas vulgares deste mundo. Figurou-se-lhe, por desventura, que uma mulher, que aspirara o ambiente de Hermenegildo Fialho, devia de ter empeçonhado o coração, apagada a flama celestial do espírito, e desbotadas as cores prismáticas por onde via o bom, o belo o santo da criação, antes de tocar a hediondez de tal marido. Duas angústias, pois, a um tempo o navalhavam: se a encontraria amante doutrem, e para si perdida; se vítima da necessidade na vulgar degradação de escrava, e perdida também para ele.
O encontrá-la, portanto, em companhia de sua irmã causara aquele entorpecimento de espírito e palavra que parecia irmanar-se com a indiferença, e até com a surpresa desagradável. Depois, porém, que se afez ao ar da felicidade, e os seus olhos puderam suportar a luz inesperada, Francisco transfigurou-se, as lágrimas venceram a represa, os dezoito anos refloriram; e, de súbito, Ângela, que não entendia o frio silêncio dele, sentiu-se-lhe apertada nos braços, e beijada nas faces que ardiam dos beiços, das lágrimas e do pudor.
― Eu vinha procurar-te, Ângela! – balbuciou Francisco – mas Deus não quis que eu imaginasse a possibilidade de te encontrar ao lado da minha santa irmã. Eu tinha sofrido muito e a recompensa devia ser esta...
Ângela abaixou o rosto, e pensou confusamente na estranheza deste transe.
Costa, voltando em si, compenetrou-se do pejo de Ângela, e disse:
― Eu beijei a tua face, Ângela, porque não há consideração que te obrigue a corar. Teu marido morreu.
― Morreu?! – conclamaram as duas senhoras, e em ambas o ar da fisionomia não revelava sentimento que pedisse luto imediato. Os olhos de Ângela não tinham sombras de funéreos; o sorriso de Joana iriava as cores azuis e escarlates dum vestido de gala. E, se neste conflito pairasse idéia triste, bastaria um destempero de Vitorina para destruir o efeito lúgubre da notícia. Quando Francisco proferiu teu marido morreu, a criada, que estava na cozinha, correu à saleta, exclamando:
― Ainda bem! Ainda bem!
E chorava de alegria, como nunca ninguém chorou por um defunto, exceto os herdeiros, parentes em quarto grau.
Cumpria relatar o caso infando. Costa, omitindo os fatos essenciais, contou que conversara com Hermenegildo nos primeiros dias da doença, sobre coisas particulares da sua vida; mas, como outros doentes fora do Rio o desviassem do enfermo, não sabia dizer da morte senão o principal: isto é, que morrera.
Instado a referir o diálogo que tivera, contou que o brasileiro apenas se queixava e dava como prova da deslealdade de Ângela a venda duns brilhantes, e a pertinácia em não declarar o destino dado a 1.650$000 réis.
― Foi... – clamou Joana, e suspendeu-se, quando encontrou os olhos de Ângela, que pareciam recriminá-la com profundíssima dor.
― Foi... o quê? – perguntou Francisco José da Costa, fingindo-se embaraçado pelos olhares mútuos das duas, ― Nada... – dissimulou Joana. – Queria eu dizer que foi uma falsidade.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.