Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

De resto o tempo tem estado esplêndido, em toda a Inglaterra; neve e sol: de noite a neve cai para dar a sua beleza especial aos campos e às cidades; de dia o sol vem para iluminar a neve e fazer o ar alegre. Já se patina, porque toda a água parada está gelada. Temos tido oito a dez graus abaixo de zero (centígrados).

Depois do Natal começa a emigração da gente rica para o Sul. O lugar favorito é a formosa ilha de Wight, onde há bosques de camélias e erra no ar de Inverno uma perpétua reminiscência da Primavera. A propósito da ilha de Wight, um amigo meu que de lá veio contame uma deliciosa anedota sobre o ilustre Tennyson, o maior poeta de Inglaterra e do seu tempo, talvez.

Tennyson vive na ilha de Wight, no seu delicioso retiro cheio de flores e de pássaros: está velho agora, e a sua qualidade característica, que foi sempre a modéstia, tem tomado sempre com os anos uma intensidade exagerada: não há nada que o sublime poeta de Locksley Hall, de Mand e dos Idílios de El-Rei deteste mais do que ver um curioso contemplá-lo. Tennyson é pessoalmente uma figura poética, e os seus longos cabelos brancos, em anéis, a sua comprida barba nevada e a extraordinária doçura dos seus olhos exercem um encanto e provocam um respeito enternecedor em quem pela primeira vez o encontra. E portanto, natural que a sua celebridade, o fanatismo que os Ingleses, e sobretudo as inglesas, têm por ele, a beleza da sua pessoa, o exponham a ser muitas vezes objecto da curiosidade e de uma admiração impertinente. O que faz, pois, Tennyson quando passeia nos deliciosos caminhos da ilha de Wight? Que imaginam que faz? Traz um grande lenço na mão e, apenas sente passos, atira-o para cima do chapéu e cobre cuidadosamente o rosto!

Um inglês é sempre excêntrico, mesmo quando é sublime.

XI

Londres, 10 de Janeiro [de 1878]

Onde estão os tempos saudosos, em que cada telegrama nos trazia uma vitória turca? Onde estão esses dias em que os correspondentes nos pintavam as cargas irresistíveis da infantaria otomana, atroando os céus com o grito de «Alá! Alá!» e pulverizando divisões russas? Onde estão os Vitoriosos e os ghazis? Onde estão as lágrimas do imperador da Rússia choradas nas noites da derrota? Onde estão as horas alegres em que um coração liberal se regozijava, pensando que o czar e o seu Governo autoritário, despótico, teocrático, semibárbaro, humilhado pelas derrotas na Bulgária, seria na Rússia feito em pedaços por uma revolução niilista? Ai, tudo nos passou! Hoje o que se nos diz cada dia é que mais uma fortaleza turca foi tomada, mais um regimento aprisionado, mais um passe dos Balcãs atravessado, mais uma enxada cavada na sepultura da Turquia. O czar não só não é destronado, mas é recebido em Sampetersburgo com um fanatismo tão alucinado que pessoas deixam-se atropelar para se poderem prostrar, beijar-lhes as botas, tocar com a ponta dos dedos na bainha da sua espada santa! E são os ministros do sultão que dizem ao novo parlamento em Constantinopla: «Estamos perdidos, rendamo-nos!»

É doloroso ver que esta guerra injusta tem como resultado fortificar, enfatuar, perpetuar um governo inimigo de toda a liberdade, defensor de todo o despotismo, cuja justiça se chama Sibéria, cuja administração se chama Polónia, que tempera a liberdade dos jornais pelo assassinato dos jornalistas, que liberta os servos para melhor os poder explorar pelos impostos, que condena um romancista ou um poeta a prisão perpétua se o seu poema ou a sua novela desagradam à polícia, que expulsa o estrangeiro suspeito de liberalismo como se enxota um cão, que tem como sistema de governo a delação e a espionagem, que chicoteia as mulheres cujos maridos não convêm, que exila os maridos cujas mulheres convêm e que civiliza as raças de civilização inferior – destruindo-as. Eu não tenho certamente nenhuma simpatia pelo sultão: uma tão rica porção de território europeu, como a Turquia, nas mãos de uma raça preguiçosa e asiaticamente passiva é certamente uma perda para a civilização, é uma esterilização de força produtiva; mas se o golpe ao Urso Branco, ao campeão da tirania, pudesse vir da Turquia, hurra pela Turquia!, hurra pelo china ou pelo mongol!, hurra por qualquer povo negro ou nu que pudesse libertar a Rússia, a Europa, a liberdade e o pensamento desta tenebrosa entidade, o Governo do czar!

Infelizmente não nos é dada essa doce consolação. E, todavia, é neste momento ou nunca que a Rússia corre um perigo. O armistício com a Turquia está assinado, parece. O czar deve agora apresentar, necessariamente, as suas condições de paz e revelar a extensão das pretensões: se elas forem tais que prejudiquem os interesses britânicos, o Governo de Lord Beaconsfield está ligado, pelas suas declarações e pela sua honra, a fazer a guerra. E este o momento crítico. A Inglaterra há meses que diz: «Esperemos, até ver o que a Rússia quer.» A Rússia tem nestas semanas últimas de dizer o que quer. E a Inglaterra de dizer o que faz.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4041424344...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →