Por Eça de Queirós (1878)
Estavam parados ao pé da confeitaria. Na vidraça, por trás deles, emprateleirava-se uma exposição de garrafas de malvasia com os seus letreiros muito coloridos, transparências avermelhadas de gelatinas, amarelidões enjoativas de doces de ovos, e queques de um castanho-escuro tendo espetados cravos tristes de papel branco ou cor-de-rosa. Velhas natas lívidas amolentavam-se no oco dos folhados; ladrilhos grossos de marmelada esbeiçavam-se ao calor; as empadinhas de marisco aglomeravam as suas crostas ressequidas. E no centro, muito proeminente numa travessa, enroscava-se uma lampreia de ovos medonha e bojuda, com o ventre de um amarelo ascoroso, o dorso malhado de arabescos de açúcar, a boca escancarada; na sua cabeça grossa esbugalhavam-se dois horríveis olhos de chocolates; os seus dentes de amêndoa ferravam-se numa tangerina de chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaçavam.
- Vamos ali para o café - disse Julião. - Aqui na rua arde-se!
- Tenho estado apoquentado - ia dizendo Sebastião. - Muito apoquentado! Quero falar-te.
No café o papel azul-ferrete e as meias portas fechadas abatiam a áspera intensidade da luz, davam uma frescura calada.
Foram-se sentar ao fundo. Do outro lado da rua as fachadas muito caiadas brilhavam com uma radiação faiscante. Por trás do balcão, onde reluziam garrafas de cristal, um criado de jaquetão, estremunhado e esguedelhado, cabeceava de sono. Um pássaro chilreava dentro; sentia-se o bater espaçado das bolas do bilhar através de uma porta de baeta verde; às vezes o pregão de um cangalheiro na rua sobressaia, e - todos estes sons, por momentos se perdiam no ruído forte do descer de um trem travado.
Defronte deles um sujeito de ar debochado lia um jornal; as suas melenas grisalhas colavam-se a um crânio amarelado; o bigode tinha tons queimados do cigarro; e das noitadas ficara-lhe uma vermelhidão inflamada nas pálpebras. De vez em quando erguia preguiçosamente a cabeça, atirava para o chão areado um jato escuro de saliva, dava uma sacudidela triste ao jornal e tornava a fitá-lo com ar infeliz. Quando os dois entraram e pediram carapinhadas, abaixou-lhes gravemente a cabeça.
Mas o que é então? - perguntou logo Julião. Sebastião chegou-se mais para ele:
- É por causa lá da nossa gente. Por causa do primo - disse baixo.
E acrescentou:
- Tu viste-lo, hem?
A lembrança repentina da sua humilhação na sala de Luísa trouxe um rubor de Juílão. Mas muito orgulhoso, disse secamente:
- Vi
- E então?
- Pareceu-me um asno! - exclamou, não se contendo.
- É um extravagante - disse com terror Sebastião. - Não te pareceu, hem?
- Pareceu-me um asno - repetiu. - Umas maneiras, uma afetação, um alambicado, a olhar muitopara as meias, umas meias ridículas de mulher...
E com um certo sorriso azedado:
- Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas - disse, apontando para os botins mal engraxados -, tenho muita honra nelas; são de quem trabalha...
Porque publicamente costumava gloriar-se de uma pobreza, que intimamente não o cessava de o humilhar.
E remexendo devagar a sua carapinhada:
- Uma besta! - resumiu.
- Ti sabes que ele foi namoro da Luísa? - disse Sebastião, baixo, como assustado da gravidadeda confidência.
E respondendo logo ao olhar surpreendido de Julião:
- Sim. Ninguém o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o há pouco, há meses. Foi. Estiveram a casar.Depois o pai faliu, ele foi para o Brasil, e de lá escreveu a romper o casamento.
Julião sorriu, e encostando a cabeça à parede:
- Mas isso é o enredo da Eugênia Grandet, Sebastião! Estás-me a contar o romance de Balzac! Isso é a Eugênia Grandet!
Sebastião fitou-o espantado.
- Ora! Não se pode falar sério contigo. Dou-te a minha palavra de honra! - acrescentouvivamente.
- Vá, Sebastião, vá, dize.
Houve um silêncio. O sujeito calvo, agora, contemplava o estuque do teto sujo de fumo dos cigarros e do pousar das moscas; e, com a mão sapuda, de tom pegajoso, cofiava amorosamente as repas. No bilhar vozes altercavam.
Sebastião então, como tomado de uma resolução, disse bruscamente:
- E agora vai lá todos os dias, não sai de lá!
Julião afastou-se na banqueta e encarou-o:
- Tu queres-me dar a entender alguma coisa, Sebastião?
E com uma vivacidade quase jovial:
- O primo atira-se?
Aquela palavra escandalizou Sebastião.
- Ó Julião! - E severamente: - Com essas coisas não se brinca!
Julião encolheu os ombros.
- Mas está claro que se atira! - exclamou. - És de bom tempo ainda! Está claro que sim! Namorou-a solteira, agora quere-a casada!
- Fala baixo - acudiu Sebastião.
Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha recaído na sua leitura fúnebre.
Julião baixou a voz:
- Mas é sempre assim, Sebastião. O primo Basílio tem razão; quer o prazer sem a responsabilidade!
E quase ao ouvido dele:
- É de graça, amigo Sebastião! É de graça! Tu não imaginas que influência isto tem nosentimento!
Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilhérias vinham-lhe com abundância:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.