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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Subitamente o Tabelião, com o seu embrulho de doces conchegado ao colete de seda preta, agitou o braço gordo e curto, numa indignação que lhe esbraseou de sangue o pescoço, as orelhas cabeludas, a face rapada, toda a testa até as abas do chapéu branco orlado de fumo negro:

- E quem o não há de ser, Sr. Gonçalo Mendes Ramires? Quem o não há de ser?... Pois esteúltimo escândalo!

Os risonhos olhos de Gonçalo logo se alargaram, sérios:

- Que escândalo?

O Tabelião recuou. Pois S. Exa. não sabia da última prepotência do Governador Civil, do Sr. André Cavaleiro?

- O quê, caro amigo?...

O Guedes cresceu todo sobre o bico dos botins pequeninos, e bojou, e inchou, para exclamar:

- A transferência do Noronha!... A transferência do desgraçado Noronha!

Mas uma senhora, também obesa, de buço carregado, toda a estalar em ricas e rugidoras sedas de missa, arrastando severamente pela mão um menino que rabujava, parou, fitou o Guedes porque o digno homem com o seu ventre, o seu embrulho, a sua indignação, atravancava a entrada das Matildes. Apressadamente, o Fidalgo levantou, para ela entrar, o fecho da porta envidraçada. Depois, num alvoroço:

- O amigo Guedes naturalmente vai para casa. É o meu caminho. Andamos e conversamos...Ora essa! Mas o Noronha... Que Noronha?

- O Ricardo Noronha... V. Exa. conhece. O pagador das Obras Públicas!

- Ah! sim, sim... Então transferido? Transferido arbitrariamente?

Na rua das Brocas por onde desciam, no silêncio, e solidão das lojas cerradas, a cólera do Guedes ressoou, mais solta:

- Infamemente, Sr. Gonçalo Mendes Ramires, infamissimamente! E para Almodôvar, para osconfins do Alentejo!... Para uma terra sem recursos, sem distrações, sem famílias!...

Parara, com os doces contra o coração, os olhinhos esbugalhados para o Fidalgo, coriscando. O Noronha! Um empregado trabalhador, honradíssimo! E sem Política, absolutamente sem Política. Nem dos Históricos, nem dos Regeneradores. Só da família, das três irmãs que sustentava, três flores... E homem estimadíssimo na cidade, cheio de prendas! Um talento imenso para a música!... Ah! o Sr. Gonçalo Ramires não sabia? Pois compunha ao piano coisas lindas! Depois precioso para reuniões, para anos. Era ele quem organizava sempre em Oliveira as representações de curiosos...

- Porque, como ensaiador, creia V. Exa. que não há outro, mesmo na capital... Não há outro! E,zás, de repente, para Almodôvar, para o Inferno, com as irmãs, com os tarecos! Só o piano!...

Veja V. Exa. só o transporte do piano!

Gonçalo resplandecia:

- É um belo escândalo. Ora, que felicidade esta de o ter encontrado, meu caro Guedes!... E nãose sabe o motivo?

De novo caminhavam demoradamente pelo passeio estreito. E o Tabelião encolhia os ombros, com amargura. O motivo! Publicamente, como sempre nestas prepotências, o motivo era a conveniência do serviço...

- Mas todos os amigos do Noronha, por toda a cidade, conhecem o verdadeiro motivo... Oíntimo, o secreto, o medonho!

- Então?

Guedes relanceou a rua, com prudência. Uma velha atravessava, coxeando, segurando uma bilha. E o Tabelião segredou cavamente, junto à face deslumbrada do Fidalgo.

- É que o Sr. André Cavaleiro, esse infame, se encantara com a mais velha das irmãs Noronhas,a D. Adelina, formosíssima rapariga, alta e morena, uma estátua!... E repelido (porque a menina, cheia de juízo, uma pérola, percebera a intenção vilíssima), em quem se vinga, por despeito, o Sr. Governador Civil? No pagador! Para Almodôvar com as meninas, com os tarecos!... Era o pagador quem pagava!

- É uma bela maroteira! - murmurou Gonçalo, banhado de gosto e riso.

- E note V. Exa.! - exclamava o Guedes, com a mão gorda a tremer por cima do chapéu. - NoteV. Exa. que o pobre Noronha, na sua inocência, tão bom homem, gostando sempre de agradar aos seus chefes, ainda há semanas dedicara ao Cavaleiro uma valsa linda!... A Mariposa, uma valsa linda!

Gonçalo não se conteve, esfregou as mãos num triunfo:

- Mas que preciosa maroteira!... E não se tem falado? Esse jornal de oposição, o Clarim de Oliveira, nem uma denúncia, nem uma alusão?...

O Guedes pendeu a cabeça, descorçoado. O senhor Gonçalo Ramires conhecia bem essa gente do Clarim... Estilo - e estilo brincado, opulento... Mas para assoalhar, assim num caso gravíssimo como o do Noronha, a verdade bem nua - pouco nervo, nenhuma valentia. E depois o Biscainho, o redator principal, andava a passar sorrateiramente para os Históricos. Ah! O Sr. Gonçalo Mendes Ramires não se inteirara? Pois esse torpíssimo Biscainho bolinava. Decerto o Cavaleiro lhe acenara com posta... Além disso, como provar a infâmia? Coisas íntimas, coisas de família. Não se podia apresentar a declaração da D. Adelina, menina virtuosíssima - e com uns olhos!... Ah! se fosse no tempo do Manuel Justino e da Aurora de Oliveira!... Esse era homem para estampar logo na primeira página, em letra graúda: "Alerta! Que a Autoridade superior do Distrito tentou levar a desonra ao seio da família Noronha!..."

(continua...)

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