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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

-É do Silvério. “... as obras da capela nova. Os venerandos restos dos excelsos avós de V. Exª, senhores de todo o meu respeito, podem pois ser em breve trasladados da igreja de S José, onde têm estado depositados pôr bondade do nosso Abade, que muito se recomenda a V.Exª... Submisso aguardo as prestantes ordens de V.Exª a respeito desta majestosa e aflitiva cerimônia...” Atirei os braços, compreendendo:

-Ah! bem! Queres ir assistir à trasladação....

Jacinto sumiu a carta no bolso.

-Pois não te parece, Zé Fernandes? Não é pôr causa dos outros avós, que são vagos, e que eu não conheci. É pôr causa do avô Galião... Também não o conheci. Mas este 202 está cheio dele; tu estás deitado na cama dele; eu ainda uso o relógio dele. Não posso abandonar ao Silvério e aos caseiros o cuidado de o instalarem no seu jazigo novo. Há aqui um escrúpulo de decência, de elegância moral... Enfim, decidi. Apertei os punhos na cabeça, e gritei – vou a Tormes! E vou!... E tu vens!

Eu enfiara as chinelas, apertava os cordões do roupão:

-Mas tu sabes, meu bom Jacinto, que a casa de Tormes está inabitável...

Ele cravou em mim os olhos aterrados.

-Medonha, hem?

-Medonha, medonha, não... É uma bela casa, de bela pedra. Mas os caseiros, que lá vivem há trinta anos, dormem em catres, comem o caldo à lareira, e usam as salas para secar o milho. Creio que os únicos móveis de Tormes, se bem recordo, são um armário e uma espineta de charão, coxa, já sem teclas.

O meu pobre Príncipe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava ao Destino:

-Acabou!... alea jacta est! E como só partimos para Abril, há tempo de pintar, de assoalhar, de envidraçar... Mando aqui de Paris tapetes e camas... Um estofador de Lisboa vai depois forrar e disfarçar algum buraco... Levamos livros, uma máquina para fabricar gelo... E é mesmo uma ocasião de pôr enfim numa das minhas casas de Portugal alguma decência e ordem. Pois não achas? E então essa! Uma casa que data de 1410... Ainda existia o Império Bizantino!

Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabão. O meu Príncipe acendeu muito pensativamente um cigarro; e não se arredou do toucador, considerando o meu preparo com uma atenção triste que me incomodava. Pôr fim, como se remoesse uma sentença minha, para lhe reter bem a moral e o suco:

-Então, definitivamente, Zé Fernandes, entendes que é um dever, um absoluto dever, ir eu a Tormes?

Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar divertido espanto o meu Príncipe:

-Ó Jacinto! foi ti, só em ti que nasceu a idéia desse dever! E honra te seja, menino... Não cedas a ninguém essa honra!

Ele atirou o cigarro – e, com as mãos enterradas nas algibeiras das pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os postes torneados do velho leito de D.Galião, num balanço vago, com barco já desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada, pôr gradações de sentimentos, desde o daguerreótipo do papá até a fotografia do Corocho perdigueiro, a galeria da minha Família.

E nunca o meu Príncipe (que eu contemplava esticando os suspensórios) me pareceu tão corcovado, tão minguado, como gasto pôr uma lima que desde muito andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em Civilização, naquele super-requintado magricela sem músculo e sem energia, a raça fortíssima dos Jacintos! Esses guedelhudos Jacintões, que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o mouro no Salado ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para lavar as suas cãs e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a lança e com a enxada, ambas tão rudes e rijas! E agora ali estava aquele último Jacinto, um Jacintículo, com a macia pele embebida em aromas, a curta alma enrodilhada em Filosofias, travado e suspirando baixinho na miúda indecisão de viver.

-Ó Zé Fernandes, quem é essa lavadeirona tão rechonchuda?

Estendi o pescoço para a fotografia que ele erguera de entre a minha galeria, no seu honroso caixilho de pelúcia escarlate:

-Mais respeito, Sr. D. Jacinto... Um pouco mais de respeito, cavalheiro!... É minha prima Joaninha, de Sandofim, da Casa da Flor da Malva.

-Flor da Malva – murmurou o meu Príncipe. – É a Casa do Condestável, de Nun’Álvares.

-Flor da Rosa, homem! A Casa do Condestável era na Flor da Rosa, no Alentejo... Essa tua ignorância trapalhona das coisas de Portugal!

O meu Príncipe deixou escorregar molemente a fotografia da minha prima de entre os dedos moles – que levou à face, no seu gesto horrendo de palpar através da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo esforço, em que se endireitou e cresceu:

-Bem! Alea jacta est! Partamos pois para as serras!...E agora nem reflexão, nem descanso!... Á obra! E a caminho!

(continua...)

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