Por Camilo Castelo Branco (1862)
Tadeu batia à porta do mosteiro com irrisório enfurecimento pancadas, umas após outras, com grande medo da porteira e outras madres, espantadas do insólito despropósito.
— Que é isso, primo? — disse a prelada, com severidade.
— Quero cá fora Teresa.
— Como fora? Quem há de lançá-la fora?!
— A senhora, que não pode aqui reter uma filha contra a vontade de seu pai.
— Isso assim é; mas tenha prudência, primo.
— Não há prudência nem meia prudência. Quero minha filha cá fora.
— Pois ela não quer ir?
— Não, senhora.
— Então espere que por bons modos a convençamos a sair, porque não havemos trazer-lha a rastos.
— Eu vou buscá-la, sendo preciso — redargüiu em crescente fúria. — Abram-me estas portas, que eu a trarei!
— Estas portas não se abrem assim, meu primo, sem licença superior. A regra do mosteiro não pode ser quebrantada para servir uma paixão desordenada, Tranqüilize-se, senhor! Vá descansar desse frenesi, e venha noutra hora combinar comigo o que for digno de todos nós.
— Tenho entendido! — exclamou o velho, gesticulando contra o ralo do locutório. — Conspiram todas contra mim! Ora descansem, que eu lhes darei uma boa lição, Fique a senhora abadessa sabendo que eu não quero que minha filha receba mais cartas do matador, percebeu?
— Eu creio que Teresa nunca recebeu cartas de matadores, nem suponho que as receba d'ora em diante.
— Nã0 sei se sabe, nem se não. Eu vigiarei o convento. A criada, que está com ela, ponham-na fora, percebeu?
— Por quê? — redargüiu a prelada com enfado.
— Porque a encarreguei de me avisar de tudo, e ela nada me tem contado. — Se não tinha que lhe dizer, senhor!
— Nã0 me conte histórias, prima! A criada quero vê-la sair do convento e já!
— Eu não lhe posso fazer a vontade, porque não faço injustiças. Se vossa senhoria quiser que a sua filha tenha outra criada, mande-lha: mas a que ela tem, logo que deixe de a servir, há muitas senhoras nesta casa que a desejam, e ela mesma deseja aqui ficar.
— Tenho entendido — bradou ele — querem-me matar! Pois não matam; primeiro há de o diabo dar um estouro!
Tadeu de Albuquerque saiu em corcovos do átrio do mosteiro. Era hedionda aquela raiva que lhe contraia as faces encorreadas, revendo suor e sangue aos olhos acovados.
Apresentou-se ao intendente da polícia, pedindo providências para que se lhe entregasse sua filha. O intendente respondeu que ele não solicitava competentemente tais providências. Instou para que o carcereiro da cadeia não deixasse sair alguma carta de um assassino vindo da comarca de Viseu, por nome Simão Botelho. O intendente disse que não podia, sem motivos concernentes a devassas, obstar a que o preso escrevesse a quem quer que fosse.
Reduplicada a fúria, foi dali ao corregedor do Porto, com os mesmos requerimentos, em tom arrogante. O corregedor, particular amigo de Domingos Botelho, despediu com enfado o importuno, dizendo-lhe que a velhice sem juízo era coisa tão de riso como de lástima. Esteve então a pique de perder-se a cabeça de Tadeu de Albuquerque. Andava e desandava as ruas do Porto, sem atinar com uma saída digna da sua prosápia e vingança. No dia seguinte, bateu à porta de alguns desembargadores, e achava-os mais inclinados à demência que à justiça a respeito de Simão Botelho. Um deles, amigo de infância de D. Rita Preciosa, e implorado por ela, falou assim ao sanhudo fidalgo:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.