Por Eça de Queirós (1940)
Da guerra não há senão notícias mais ou menos incertas: assim não creio que se deva dar muito crédito ao espantoso boato de que Suleiman Paxá apareceu inesperadamente em Constantinopla à testa de dez mil homens, para fazer uma revolução, derrubar o Governo, exonerar o sultão e criar uma ditadura militar sob o nome do ex-sultão Murad, destinada a continuar a guerra até à última extremidade. Suleiman Paxá, é certo, pertence ao partido fanático, é uma espécie de general softa, inimigo das reformas europeias, ciumento das velhas tradições otomanas, hostil ao estrangeiro e à sua influencia: mas, por isso mesmo, creio, bastante patriota para não querer complicar a guerra estrangeira com uma revolta interior, e pôr à testa do Governo homens de quem a Europa desconfia, neste momento em que o seu país mais precisa a benevolência e a confiança da Europa.
E o mais crível é que a ele fosse a Constantinopla organizar um exército que defenda o caminho para a capital no caso que Andrinopla fosse tomada ou torneada.
Tudo isto indica que a paz ainda vem longe: a Rússia, exaltada com as suas últimas vitórias, sentindo-se fortemente apoiada pela Alemanha e tendo todas as razões para se julgar apoiada pela Áustria, alarga as suas pretensões, e quase não oculta que planeia a desmembração do Império Otomano; a Turquia, pelo seu lado, exasperada pela humilhação das derrotas, tendo adquirido com as primeiras vitórias uma extrema confiança em si mesma, animada pela atitude activa da Inglaterra, pressentindo a proximidade de uma intervenção em seu favor, objecta, mais que nunca, a meter a espada na bainha: e os sofrimentos na Bulgária e na Ásia, agora que as inclemências se vêm juntar aos desastres da guerra, ameaçam protrair-se indefinidamente. E, para haver mais uma acha na fogueira, a Sérvia acaba de lançar o seu exército de aventura sobre a Turquia meio vencida. O procedimento do príncipe Milan e do Governo sérvio é aqui julgado (mesmo pelos inimigos da Turquia) com uma severidade em que há mais desprezo que indignação. Alguns jornais mesmo afectam não tocar no assunto, como muito vil para uma pena honesta. Com efeito, a Sérvia tem-se comportado pulhamente: batida pela Turquia, quase sem esforço, tratada de covarde pelo imperador da Rússia no célebre discurso de Moscovo, aceita com reconhecimento uma paz que as nações mendigaram para ela, e obriga-se por um tratado a conservar-se neutral, forem quais forem as ocorrências: a Rússia declara a guerra, e no primeiro momento parece levar de vencida os exércitos otomanos; a Sérvia logo, com a cobardia de quem é forte para com homem derrubado, tira metade da espada fora da bainha; mas as coisas mudam, e é a Turquia que sobre toda a linha ganha vitórias decisivas; imediatamente a Sérvia esconde a espada e dá parabéns cortesãos ao sultão. Os Turcos são de novo batidos na Arménia e no Danúbio, e eis a Sérvia a menear-se num repentino impulso guerreiro; Plevna cai, e a Sérvia une-se ao imperador, que a tratou publicamente de covarde, e contra todas as leis da honra e todos os deveres da coragem vai dar na Turquia o coice do asno! Não me espanto de que o Daily Telegraph trate o príncipe Milan de biltrezito!
Estamos em férias do Natal; é esta a época das festas de família, do plum-pudding e de uma praga de versos, de publicações, de baladas, de contos alegóricos, de cromos-litografias, celebrando o velho ano, o bom Christmas, o ano novo e as doçuras do lar! O Natal dá lugar a uma singular espécie de literatura, que é para as letras o que o plum-pudding é para a confeitaria – um produto pesado e indigesto que todo o mundo gosta de ver sobre a mesa, em que ninguém toca e que a gente grande estima pela alegria que dá às crianças. E sobretudo para as crianças que são escritas estas poesias piegas e estas histórias de fantasmas, desenhadas estas vistas convencionais da neve e estas figuras grotescas da caridade. Os jornais ou revistas, todas as publicações, põem de parte o bom senso, a ciência ou a arte e dedicam um número a estas criancices, que se chama o «número de Natal», e que, pela venda prodigiosa que tem, constitui um dos rendimentos das publicações inglesas. Os teatros fazem o mesmo: e todos, sem excepção, representam nesta época a pantomima, espécie de mágica desordenada, cheia de transformação, de bailados e de glórias, onde aparecem simultaneamente actores, palhaços, cães sábios, virtuosos ilustres, feras, dançarmos célebres, habitantes de países exóticos (lapónios ou patagónios), macacos, esquadrões de cavalaria e cascatas naturais! Estas representações duram três meses, e toda a família verdadeiramente inglesa e que respeita as tradições vai ver a pantomima pelo menos três vezes, com todas as crianças e todos os criados: é uma solenidade doméstica.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.