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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Por vezes, porém, o menino queria que Cristóvão viesse assistir ao seu jantar: - e então dois pajens abriam mais largos os grandes reposteiros de tapeçaria para que Cristóvão penetrasse na vasta sala, onde o teto era pintado de azul, e salpicado de flores que brilhavam como recortadas em ouro. Imóvel a um canto, ele contemplava o menino, que se sentava ao lado da avó, numa cadeira de alto espaldar como a dela. Por trás, o seu aio tomava os pratos da mão do escudeiro. Sobre a mesa, coberta de linho fino, retiniam os copos de prata. Os bufetes vergavam ao peso das baixelas. Uma grande fogueira bailava na chaminé, onde estava representado o cerco de Antioquia: - e sobre os poleiros de ferro polido, os falcões afiavam o bico.

Mas, por vezes, o menino queria Cristóvão mais perto. Então a mãe, resignada, fazia um gesto seco: - e Cristóvão, muito humilde, assustado dos esplendores senhoriais, vinha, vergando os ombros, com o seu barrete na mão. O menino queria-o de joelhos, com as mãos no chão, e batia-lhe nas costas, estendia-lhe pedaços de carne, que ele comia com ruído para o divertir mais,

Outras vezes, à noite, um pajem vinha buscar Cristóvão às cozinhas, e entrava na grande sala, onde ardia uma fogueira na chaminé. Sentada na sua cadeira, a avó tinha um livro de horas aberto nos joelhos, com o menino ao lado. Defronte a mãe fazia tapeçaria. E um trovador, ao pé, sentado num escabelo, contava um longo romance de cavalaria e de amor. Era sempre um paladino de armas negras, uma dama encerrada nalguma alta torre, um gigante guardando a porta de um castelo encantado. O menino exclamava:

— Também tenho um gigante!

E fazia então erguer Cristóvão, que parecia monstruoso, com os grossos joelhos vivamente alumiados pela chama dos trocos ardendo, a cabeça quase perdida na sombra das altas vigas. O frade erguia as pálpebras dormentes; a dama ficava com a longa agulha suspensa sobre a tapeçaria; e todos, olhando Cristóvão, sentiam mais real e viva a longa história de fadas e cavaleiros. Depois os escudeiros serviam bolos secos, e as grandes canecas do hipocraz.

Assim os dias tranqüilos passavam no castelo tranqüilo. O vigia, invariavelmente, ao anunciar, com um longo toque de buzina, o nascer do Sol, içava no mastro da torre de menagem a grande bandeira de seda com as armas do Senhor. As janelas do castelo abriam-se; o sacristão varria a capela; o servo dos currais chegava, ajoujado com os seus cântaros de leite; e os pajens, cantando como pássaros que acordam, desciam correndo para o jogo de bola, ou para a liça coberta, onde o mestre de armas já experimentava as espadas, vergando as lâminas, ou examinava os ferros das lanças.

Se o tempo era claro, as damas e os meninos davam um passeio pelos altos terraços. O menino, por vezes, debruçando-se, gritava por Cristóvão, enquanto as damas respiravam o ar fresco, ou seguiam o vôo dos falcões novos, que os falcoeiros adestravam.

Ao meio dia dois trombeteiros anunciavam o jantar dos Senhores; ao portão do castelo iam-se juntando os pobres das terras senhoriais, pare receberem depois no salões estendidos o resto dos pães, ou a carcaça das aves.

Às vezes, pela tarde, um repique de pandeiretas, de guizos, anunciava a chegada de uma companhia de menestréis e jograis: um deles, com o barrete na mão, pedia permissão para dar uma representação no pátio. As damas vinham ao balcão; todos os pajens corriam, o arquivista deitava a cabeça fora da janela da torre, os cozinheiros espreitavam de entre as reixas de feno: - e no pátio os jograis, atirando bolas, dançando na corda, erguendo pesos, ou representando farsas, levantavam grandes ah!, ah! lentos e maravilhados. Quando saíam, sempre algum deles chamava Cristóvão com um gesto discreto – e fora da ponte levadiça, persuadiam-no a vir com eles, na vida livre e alegre, a percorrer castelos, visitar as feiras, entrar nas cidades, ganhar dinheiro para a velhice. Ele recusava, com um mover lento da cabeça. E eles seguiam voltando-se ainda para o ver, calculando os ganhos que teriam com a exibição daquele gigante.

Outras vezes era uma comitiva de fidalgos que chegava em visita. O pátio estava todo sonoro com o relinchar dos corcéis.Os pajens corriam azafamados. Nas janelas batiam-se as alcatifas: - e nas cozinhas, o mestre, mais afogueado e vermelho que um pimentão, preparava grandes empadões, de onde sairiam pombas vivas. Nesses dias o menino tinha orgulho em mostrar o seu gigante: e diante dos cavaleiros pasmados, Cristóvão corria em torno com o menino a cavalo no ombro. E o capelão dos hóspedes tomava sempre as medidas de Cristóvão, para relatar nas histórias.

(continua...)

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