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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Depois falou muito de Paris; contou-lhe a moderna crônica amorosa, anedotas, paixões chiques. Tudo se passava com duquesas, princesas, de um modo dramático e sensibilizador, às vezes jovial, sempre cheio de delícias. E, de todas as mulheres de que falava, dizia recostando-se: era uma mulher distintíssima; tinha naturalmente o seu amante...

O adultério aparecia assim um dever aristocrático. De resto a virtude parecia ser, pelo que ele contava, o defeito de um espírito pequeno, ou a ocupação reles de um temperamento burguês...

E quando saiu, disse, como recordando-se:

- Sabes que estou com minhas idéias de partir?...

Ela perguntou, um pouco descorada:

- Por quê?

Basílio disse, muito indiferente:

- Que diabo faço eu aqui?... Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro, e comodominando-se:

- Adeus, meu amor...

E saiu.

Quando nessa tarde Luísa entrou na sala de jantar, levava os olhos vermelhos.

Foi ela no dia seguinte que falou do campo. Queixou-se do continuo calor, da seca de Lisboa. Como devia estar lindo em Sintra!

- És tu que não queres - acudiu ele. - Podíamos fazer um passeio adorável.

Mas tinha medo, podiam ver...

- O quê! Num cupê fechado? Com os estores descidos?

Mas então era pior que estar numa sala; era abafar numa boceta! Mas não! Iam a uma quinta. Podiam ir às Alegrias, à quinta de um amigo que estava em Londres. Só viviam lá os caseiros; era ao pé dos Olivais; era lindo! Belas ruas de loureiros, sombras adoráveis. Podiam levar gelo, champanhe...

- Vem! - disse bruscamente, tomando-lhe as mãos.

Ela corou. - Talvez. No domingo veria.

Basílio conservava-lhe as mãos presas. Os seus olhos encontraram-se, umedeceram-se. Ela sentiu-se muito perturbada: desprendeu as mãos; foi abrir as vidraças ambas, dar à sala uma claridade larga como uma publicidade; sentou-se numa cadeira ao pé do piano, receando a penumbra, o sofá, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse alguma coisa, porque já temia as palavras, tanto como os silêncios! Basílio cantou a Medjé, a melodia de Gounod, tão sensual e perturbadora. Aquelas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos de uma noite elétrica. E quando Basílio saiu, ficou sentada, quebrada, como depois de um excesso.

Sebastião tinha estado nos últimos três dias em Almada, na Quinta do onde trazia obras.

Voltara na segunda-feira cedo, e, pelas dez horas, sentado no poial da janela de jantar que abria para o terraçozinho, esperava o seu almoço, brincando com o Rolim - o seu gato, amigo e confidente da ilustre Vicência, nédio como um prelado, ingrato como um tirano.

A manhã começava a aquecer; o quintal estava já cheio de sol; na água do tanque, sob a parreira, claridades espelhadas e trêmulas faiscavam. Nas duas gaiolas os canários cantavam estridentemente.

A tia Joana, que andava a arranjar a mesa do almoço muito calada, pôs-se então a dizer com a sua vozinha arrastada e minhota:

- Ora, esteve aí ontem a Gertrudes, a do doutor, com uns palratórios, com umas tontices!...

- A respeito de quê, tia Joana? - perguntou Sebastião.

- A respeito de um rapaz, que diz que vai agora todos os dias à casa da Luisinha.

Sebastião ergueu-se logo:

- Que disse ela, tia Joana?

A velha assentava a toalha devagar com a sua mão gorducha espalmada:

- Esteve ai a palrar. Quem seria, quem não seria? Diz que é um perfeito rapaz. Vem todos osdias. Vem de trem, vai de trem... No sábado, que estivera até quase à noitinha. E cantou-se na sala, diz que uma voz que nem no teatro...

Sebastião interrompeu-a, impaciente:

- É o primo, tia Joana. Então quem havia de ser? É o primo que chegou do Brasil.

A tia Joana teve um bom sorriso.

- Eu logo vi que era coisa de parente. Pois diz que é um perfeito rapaz! E todo janota!

E saindo para a cozinha, devagar:

- Eu logo vi que era parente, logo disse!...

Sebastião almoçou inquieto. Positivamente a vizinhança já se punha a mexericar, a comentar! Estava-se a armar um escândalo! - E, assustado, decidiu-se logo a ir consultar Julião.

Descia a Rua de São Roque para casa dele, quando o viu, que subia devagar pela sombra, com um rolo de papel debaixo do braço, uma calça branca enxovalhada, o ar suado.

- Ia a tua casa, homem! - disse Sebastião logo.

Julião estranhou a excitação desusada da sua voz.

Havia alguma novidade? Que era?

- Uma do diabo! - exclamou, baixo, Sebastião.

(continua...)

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