Por Eça de Queirós (1900)
As duas manas Lousadas! Secas, escuras e gariulas como cigarras, desde longos anos, em Oliveira, eram elas as esquadrinhadoras de todas as vidas, as espalhadoras de todas as maledicências, as tecedeiras de todas as intrigas. E na desditosa Cidade não existia nódoa, pecha, bule rachado, coração dorido, algibeira arrasada, janela entreaberta, poeira a um canto, vulto a uma esquina, chapéu estreado na missa, bolo encomendado nas Matildes, que os seus quatro olhinhos furantes de azeviche sujo não descortinassem - e que a sua solta língua, entre os dentes ralos, não comentasse com malícia estridente! Delas surdiam todas as cartas anônimas que infestavam o Distrito; as pessoas devotas consideravam como penitências essas visitas em que elas durante horas galravam, abanando os braços escanifrados; e sempre por onde elas passassem ficava latejando um sulco de desconfiança e receio. Mas quem ousaria rechaçar as duas manas Lousadas? Eram filhas do decrépito e venerando general Lousada; eram parentas do Bispo; eram poderosas na poderosa confraria do Senhor dos Passos da Penha. E depois duma castidade tão rígida, tão antiga e tão ressequida, e por elas tão espaventosamente alardeada - que o Marcolino dO INDEPENDENTE as alcunhara de Duas Mil Virgens.
- Não vêm para cá! - trovejou o Titó, com imenso alívio.
Com efeito no meio do largo, rente à grade que circunda o antigo relógio de sol, as duas manas paradas erguiam o bico escuro, farejando e espiando a Igrejinha de S. Mateus onde o sino lançara um repique de batizado.
- Oh, com os diabos, que é para cá!
As Lousadas, decididas, investiam contra o portão dos Cunhais! Então foi um pânico! As gordas pernas do Barrolo, fugindo, abalaram, quase derrubaram sobre os contadores os potes bojudos da Índia. Gonçalo bradava que se escondessem no pomar. Desconcertado, o Gouveia rebuscava com desespero o seu chapéu-coco. Só o Titó, que as abominava e a quem elas chamavam o Polifemo, retirou com serenidade, abrigando o Padre Soeiro sob o seu braço forte. E já o bando espavorido se arremessara sobre o reposteiro - quando Gracinha apareceu, com um fresco vestido de sedinha cor de morango, sorrindo, pasmada, para o tropel que rolava:
- Que foi? Que foi?...
Um clamor abafado envolveu a doce senhora ameaçada:
- As Lousadas!
- Oh!
Fugidiamente o Titó e João Gouveia apertaram a mão que ela lhes abandonou, esmorecida. A sineta do portão tilintara, temerosa! E a fila acavalada, onde Padre Soeiro rebolava a reboque, enfiou para a Livraria que o Barrolo aferrolhou, gritando ainda a Gracinha, com uma inspiração:
- Esconde as sangrias!
Pobre Gracinha! Atarantada, sem tempo de chamar o escudeiro, carregou ela para uma banqueta do corredor, num esforço desesperado, a pesada salva - com que as Lousadas, se a descortinassem, edificariam por sobre a cidade, e mais alta que a Torre de S. Mateus, uma história pavorosa de "vinhaça e bebedeira". Depois, ofegando, relanceou no espelho o penteado. E direita como numa arena, com a temeridade simples e risonha dos antigos Ramires, esperou a arremetida das manas terríveis.
No outro domingo, depois do almoço, Gonçalo acompanhou a irmã à casa da tia Arminda Vilegas, que na véspera, ao tomar (como costumava todos os sábados) o seu banho aos pés, se escaldara e recolhera à cama, apavorada, reclamando uma junta dos cinco cirurgiões de Oliveira. Depois acabou o charuto sob as acácias do Terreiro da Louça, pensando na sua Novela abandonada na Torre durante essas semanas, e no lance famoso do Capítulo II que o tentava e que o assustava-o encontro de Lourenço Ramires com Lopo de Baião, o Bastardo, no vale fatal de Canta-Pedra. E recolhia aos Cunhais (porque prometera ao Barrolo uma trotada a cavalo, até o Pinhal de Estevinha, para aproveitar a doçura do domingo enevoado) quando, na rua das Velas, avistou o Tabelião Guedes, que saia da confeitaria das Matildes com um grosso embrulho de pastéis. Ligeiramente, o Fidalgo atravessou logo a rua - enquanto o Guedes, da borda do passeio, pesado e barrigudo, na ponta dos botins miudinhos gaspeados de verniz, descobria, numa cortesia imensa, a calva, emplumada ao meio pelo famoso tufo de cabelo grisalho que lhe valera a alcunha de "Guedes Popa":
- Por quem é, meu caro Guedes, ponha o chapéu! Como está? Sempre fero e moço. Aindabem!... Falou com o meu Padre Soeiro? O Pereira da Riosa, por fim, só vem à cidade na quartafeira...
Sim! Sim! O Sr. Padre Soeiro passara pelo cartório, para avisar e ele apresentava os parabéns a S. Exa. pelo seu novo rendeiro...
- Homem muito competente, o Pereira! Já há vinte anos que o conheço... E olhe V. Exa. apropriedade do Conde de Monte-Agra! Ainda me lembro dela, um chavascal; hoje que primor! Só a vinha que ele tem plantado! Homem muito competente... E V. Exa. com demora?
- Dois ou três dias... Não se atura este calor de Oliveira. Hoje, felizmente, refrescou. E que há denovo? Como vai a política? O amigo Guedes sempre bom Regenerador, leal e ardente, bem?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.