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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

- Desarmado: as pistolas estavam no meu quarto. Mas a Pantasileia virgiliana, como tu apropriadamente a denominas, repeliu-me com uni braço e mostrou na extremidade do outro uma pistola abocada ao peito do marido.

- Novidade terceira! - acudi eu, quase suspeitoso da logração do conto. - Tu não estás inventando, Afonso?

- É inepta a pergunta; mas perdoável. Não invento, meu amigo. Conto verdades que me entristecem. Recordar-me agora do gesto consternado do marido dela punge-me deveras. Tremia-lhe o ferro na mão ameaçadora, e já o rosto se lhe estava banhando em lágrimas. Desceu o braço quebrantado por agonia mais lacerante que a ira e fitou em mim os olhos chamejantes. De mim, relanceou-os à mulher; e, desafogando a custo as palavras, disse: "Castigada te veja eu, e Deus me vingue!"

- Não esperava eu que ele dissesse isso. Há concisão e angústia suprema nesse apelar a Deus - reflecti eu condoído, não obstante tê-lo visto, como fica escrito, no arraial de S. Brás de Landim, anos antes, em jeito de muita felicidade, e grande frescura de Animo e coração. E continuei no meu impertinente interrogatório, tendo em vista que o leitor fosse bem informado: - Eleutério, depois, saiu, ou que fez?

- Chorou, embebeu as lágrimas no lenço, e disse: "Eu não te obriguei a ser minha mulher. Se casaste, foi porque quiseste. Se tinhas outra inclinação, não dissesses a meu pai que me querias."

- Que impressão fizeram em ti essas palavras tão simples e sinceras? - perguntei..

- Má impressão! - respondeu Afonso de Teive. - Péssima impressão! Desviei involuntariamente os olhos dela: a razão saiu por momentos do seu chiqueiro, e teve dó da alienação da minha pobre alma. Eleutério, por último, rematou assim: "Não tenho mulher. Vou para minha casa, e vai tu para a tua." E saiu. Teodora voltou-se para mim, atirando a pistola sobre a mesa, e disse: "Estou livre. Aqui me tens, Afonso. Aqui está a tua Palmira, com o virgem coração que lhe conheceste, mais valioso do que era, mais depurado dos instintos maus, graças aos trabalhos que me angustiaram a vida. Queresme assim, Afonso?..."

- Abraçaste-a fervorosamente, convulsamente - interrompi eu.

- Não: disse-lhe com uma falsa graça no rosto: "quero-te assim; partiremos hoje mesmo para Lisboa." "E os meus fatos, as minhas jóias?", perguntou ela. "Tenho brilhantes que eram de minha mãe." "Deixa-os. Terás brilhantes, se eles forem precisos à tua felicidade!" "A minha felicidade!", exclamou Teodora, ajoelhando-se-me de mãos postas, "a minha felicidade é uma choça contigo, no ermo, no isolamento de todos os prazeres da sociedade." Ergui-a com amor. Tocou-me o contraste daquela humildade com a arrogância da resistência ao marido.

"A esta procela de comoções violentas seguiu-se um intervalo de silêncio morno, concentração porventura dolorosa em que os nossos olhares mutuamente se interrogavam. Eu via minha santa mãe e a puríssima imagem de minha prima. Teodora não sei o que via: pode ser que estivesse lendo a página negra do seu destino, voltada pela mão do Senhor. Eu de mim esforçava o contentamento no rosto: os olhos viam-na embelezados; o ambiente escaldante que ela aquecia com o seu hálito coava-me lume até às medulas dos ossos; mas o formidável grito da moral repercutia-se no senso. intimo da minha queda. Desgraçadas e atrozes ligações as que principiam assim! É que a sentença da justiça divina foi já lavrada.

"Teodora abriu a janela da sala e aspirou com força; encostou-se ao peitoril com os olhos cravados nos cabeços da serra da Tranqueira". "Em que meditas, Palmira?", perguntei-lhe eu. ""Em minha mãe, que era virtuosa como a tua", respondeu ela. "Esta dor nobre, tão singelamente revelada, fez-me bem ao coração. Comoveu-me aquele dizer de mulher, no tom da maviosa feminilidade que soa tão brando e compadecedor nas almas de rija têmpera, como era a minha. Falámos de nossas mães, e com tantas carícias de expressão saudosa, que terminámos, beijando um do outro os olhos cheios de lágrimas. "No mesmo dia, por volta da tarde, saímos caminho de Lisboa."

XVI

Volvido um mês sobre os sucessos descritos, Afonso de Teive e Palmira – que nunca mais se chamou Teodora - viviam num palacete ao Campo Grande, por ser entrada a sazão estiva.

O interior esplêndido da casa sobreexcedia o exterior majestoso. Nas cavalariças escarvavam, arrifavam e relinchavam os cavalos de trem e de passeio. No pátio, os lacaios limpavam e bruniam os arreios e as equipagens. Sentia-se o respirar da felicidade, como escondida das invejas do mundo, naquele magnífico aposento. O dono dela gozava-se da fama de opulento fidalgo do Minho; porém, o tesouro que a pública admiração mais lhe encarecia era Palmira.

(continua...)

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