Por Camilo Castelo Branco (1862)
— Se eu não tenho já forças!... Todos dizem que eu morro, e o médico já nem me receita!... Então melhor me fora ter acabado antes desta hora! Morrer com esperanças, ó Mãe de Deus!
E ajoelhou ante o retábulo devoto que trouxera do seu quarto de Viseu, ao qual sua mãe e avó já tinham orado, e em cujo rosto compassivo os olhos das duas senhoras moribundas tinham apagado os seus últimos raios de luz.
CAPÍTULO XIV
Anunciara-se Tadeu de Albuquerque na portaria de Monchique, ao dia seguinte dos anteriores sucessos.
Sua prima, primeira senhora que lhe saiu ao locutório, vinha enxugando as lágrimas de alegria.
— Não cuide que eu choro de aflita, meu primo — disse ela. — O nosso anjo, se Deus quiser, pode salvar-se. Logo de manhã a vi passear por seu pé nos dormitórios. Que diferença de semblante ela tem hoje! Isto, meu primo, é milagre de duas santas que temos inteiras na claustura, e com as quais algumas perfeitas criaturas desta casa se apegaram. Se as melhoras continuarem assim, temos a Teresa; o céu consente que esteja entre nós aquele anjo mais alguns anos...
— Muito folgo com o que me diz, minha boa prima — atalhou o fidalgo. — A minha resolução é levá-la já para Viseu, e lá se restabelecerá com os ares pátrios, que são muito mais sadios que os do Porto.
— É ainda cedo para tão longa e custosa jornada, meu primo. Não vá o senhor cuidar que ela está capaz de se meter ao caminho. Lembre-se que ainda ontem pensamos em encontrá-la hoje morta. Deixe-a estar mais alguns meses; e depois não digo que não leve; mas, por enquanto, não consinto semelhante imprudência.
— Maior imprudência — replicou o velho — é conservá-la no Porto, onde, as estas horas, deve estar o malvado matador de meu sobrinho. Talvez não saiba a prima?... Pois é verdade: o patife do corregedor saiu a campo em defesa dele, e conseguiu que o tribunal da Relação lhe aceitasse a apelação da sentença, passado o prazo da lei; e, não contente com isto, fez que o filho fosse removido para as cadeias do Porto. Eu agora trabalho para que a sentença seja confirmada, e espero consegui-lo; mas, enquanto o assassino aqui estiver, não quero que minha filha esteja no Porto.
— O primo é pai, e eu sou apenas uma parenta — disse a abadessa — cumpra-se a sua vontade. Quer ver a menina, não é assim?
— Quero, se é possível.
— Pois bem, enquanto eu vou chamá-la, queira entrar na primeira grade à sua mão direita, que Teresa lá vai ter.
Avisada Teresa de que seu pai a esperava, instantaneamente a cor sadia que alegrava as senhoras religiosas se demudou na lividez costumada. Quis a tia, vendo-a assim, que ela não saísse do seu quarto, e encarregava-se de espaçar a visita do pai.
— Tem de ser — disse Teresa. — Eu vou, minha tia.
O pai, ao vê-la, estremeceu e enfiou. Esperava mudança, mas não tamanha. Pensou que a não conheceria sem o prevenirem de que ia ver sua filha.
— Como eu te encontro, Teresa! — exclamou ele, comovido. — Por que me não disseste há mais tempo o teu estado?
Teresa sorriu-se, e disse:
— Eu não estou tão mal como as minhas amigas imaginam.
— Terás tu forças para ir comigo para Viseu?
— Não, meu pai; não tenho mesmo forças para lhe dizer em poucas palavras que não torno ao Viseu.
— Porque não, se a tua saúde depender disso?!...
— A minha saúde depende do contrário. Aqui viverei ou morrerei.
— Não é tanto assim, Teresa — replicou Tadeu com dissimulada brandura. — se eu entender que estes ares são nocivos à tua saúde, hás de ir, porque é obrigação minha conduzir e corrigir a tua má sina.
— Está corrigida, meu pai. A morte emenda todos os erros da vida.
— Bem sei; mas eu quero-te viva, e, portanto, recobra forças para o caminho, Logo que tiveres meio dia de jornada, verás como a saúde volta como por milagre.
— Não vou, meu pai.
— Não vais?! — exclamou, irritado, o velho, lançando às grades as mãos trementes de ira.
— Separam-nos esses ferros a que meu pai se encosta, e para sempre nos separam.
— E as leis? Cuidas tu que eu não tenho direitos legítimos para te obrigar a sair do convento? Não sabes que tens apenas dezoito anos?
— Sei que tenho dezoito anos; as leis não sei quais são, nem me incomoda a minha ignorância. Se pode ser que mão violenta venha arrancar-me daqui, convença-se, meu pai, de que essa mão há de encontrar um cadáver. Depois... o que quiserem de mim. Enquanto, porém, eu puder dizer que não vou, juro-lhe que não vou, meu pai.
— Sei o que é! — bramiu o velho. — já sabes que o assassino está no Porto?
— Sei, sim, senhor.
— Ainda o dizes sem vergonha, nem horror de ti mesma! Ainda...
— Meu pai — interrompeu Teresa — não posso continuar a ouvi-lo, porque me sinto mal. Dê-me licença... e vingue-se como puder. A minha glória neste longo martírio seria uma forca levantada ao lado da do assassino.
Teresa saiu da grade, deu alguns passos na direção da sua cela, e encostou-se esvaída à parede. Correram a ampará-la sua tia e a criada, mas ela, afastando-as suavemente de si, murmurou:
— Não é preciso... Estou boa... Esses golpes dão vida, minha tia.
E caminhou sozinha a passos vacilantes.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.