Por Camilo Castelo Branco (1869)
A doença entrou no décimo quarto dia, com mortais sintomas. Aquela massa reagia com frenesi ao esfacelar da morte. O gemer dum doente vulgar era em Hermenegildo um rugir ferocíssimo. Rosa Catraia ganhou-lhe medo, e fugia da beira do leito receosa de que o legado do moribundo fosse algum daqueles murros que fendiam o espaldar do leito. Recolhida em sua dor, a choruda alvéola da ribeiras de Barrosas começou a cobrir com as asas os brilhantes e notas que se lhe depararam na sua irrequieta angústia. Nestes transes foi-lhe grande auxiliar um criado da casa, parente em quarto grau do patrão, rapazola de espáduas anchas, que prometia reabilitar os créditos de Rosa por meio dum decente matrimônio, logo que seu patrão e primo “desse a casca”, frase lírica e pitoresca da Catraia.
Assim, pois, que o último assistente declarou perdidas as esperanças de cura, o primo de Atanásio começou de arrebanhar os livros e papéis do moribundo – cuidado que lhe tinha sido sobremodo recomendado do Porto, logo que Hermenegildo adoecesse gravemente. Notou o arrecadador dos livros comerciais que os haveres do moribundo, superiores a duas centenas de contos, estavam em poder de Pantaleão, de Joaquim Antônio, e de seu primo Atanásio José, repartidos em avultadas somas, das quais Fialho tinha cobrado as declarações encontradas, e lavradas com suficientes solenidades legais. Este quarto ladrão que descobria os três do Porto considerou-se o melhor colherdeiro da herança, porque desde logo computou a percentagem a auferir.
Um conhecido do agonizante levado de escrúpulos, entrou-lhe ao quarto com o prior da freguesia, homem de respeitáveis cãs, e, na serenidade límpida do rosto, um como mensageiro e núncio da misericórdia divina.
Hermenegildo encarou nele com assombro, e regougou a trancos de voz cavernosa:
― Vá-se embora, que eu não morro desta vez.
― Assim o permitirá Deus – respondeu o sacerdote com grave compostura – mas os benefícios dos sacramentos não utilizam somente aos que vão à presença do Senhor.
― Não me conte histórias – tartamudeou o brasileiro, rolando-se de modo que lhe virou as costas.
― Meu irmão – tornou o sacerdote de Jesus – veja se tem na sua alma ofensas a perdoar, ou ódios de que peça perdão. Quando Deus for servido chamá-lo a contas, a sua alma não poderá voltar as costas à face do supremo juiz.
― Não me matem! – rugiu Hermenegildo, barafustando.
O padre quedou-se a contemplar de braços cruzados e o coração em Deus aquele espetáculo, suplicando graça para rebeldia tão estranha na suprema hora.
A graça divina esquivou-se. Contra a benigna teologia de boníssimos casuístas, vivo persuadido que Lúcifer estimaria que certas almas, à última hora, limpas pela contrição, se guindassem à glória, a fim de lhe não sujarem o inferno.
O sacerdote retirou-se, quando viu que a sua presença sobreafligia o doente.
Era meia-noite.
Desta hora até às cinco da manhã Hermenegildo pediu água já nos demorados paroxismos, e ninguém se abeirou do seu leito.
Cinco horas vasquejou sozinho, e, aos primeiros assomos do dia, rendeu... a alma.
Rosa, acordada pelo futuro marido, perguntou se o patrão tinha acabado.
― Acho que sim, que já não ouço nada – disse o criado, e foi chamar o primo de Atanásio para tomar conta de algumas arrobas de carne em putrefação, onde estivera uma alma “criada à imagem e semelhança de Deus”. A tolerância divina permite semelhantes blasfêmias.
XXII FELICIDADE SUPREMA
Em abril de 1850, Ângela e Joana, sentadas no quintalinho de sua casa, debaixo duma amendoeira florida, ao entardecer, descansavam do trabalho do bastidor de que tiravam bons lucros em bordados de ouro.
Joana, embelezada na formosura de sua amiga, dizia-lhe:
― Como vossa excelência, nesta pobreza, ganhou o que tinha perdido na opulência da sua casa! É bem certo que a felicidade está em mui pouco! Eu a temer que a Sr.ª D. Ângela envelhecesse nestas estreitezas da nossa casa, e não se habituasse a isto; e quis Deus que, em dez meses, eu a não visse triste senão quando veio a primeira carta do meu Francisco...
― Pois olhe, minha amiga, eu estava agora triste...
― Por quê?! Vi-a calada; mas cuidei que não era tristeza...
― Era...
― E é segredo?
― Não, minha amiga... Segredos quando eu não posso distinguir as nossas almas uma da outra... Eu lhe conto... Estava a dizer comigo: o meu futuro qual será? Tenho vinte e nove anos. Se me recordo do que passei, imagino que a vida já é longa e deveria estar por pouco; mas, diante de mim, vejo os anos demorados daqui até à velhice, até aos sessenta anos da nossa Vitorina, que espera ainda viver até os oitenta. Muito se vive quando se sofre!... E o que mais espanta é que nem a desesperação infunda um sincero desejo de morrer... Aqui estou eu a lastimar-me, a perguntar o que há de ser de mim, a ver a precisão de se acabar esta sossegada vida que tenho; e, apesar do escuro das minhas nenhumas esperanças, desejo viver... para quê?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.