Por Eça de Queirós (1925)
Ao entrar em casa, ainda vibrante das emoções da Câmara, esperava-o outra alegria, mais grave, mais íntima: era pai! Era pai desde as três horas da tarde! Foi sua sogra que lho veio anunciar ao alto da escada, num grito:
– E o senhor até a estas horas por fora! Está tudo acabado! E um menino! E com a maior felicidade! ... É um menino! O seu vivo retrato!
Não descreverei a cena tocante e doce que se passou no quarto da parturiente, porque a ela não assisti. Não quero, como esses biógrafos de antigos reis e estadistas, que descrevem os gestos e as palavras de cenas passadas em outros séculos, introduzir o elemento imaginativo, o romance, neste trabalho histórico. Mas todos nós podemos conceber a emoção desse pai, saído apenas de um triunfo social para vir gozar inesperadamente um triunfo doméstico, no mesmo dia orador consagrado e pai venturoso.
Dizem-me que Alípio Abranhos, acabrunhado de uma felicidade muito forte, se deixou cair numa poltrona com os olhos banhados de lágrimas, o filho nos braços, envolto nas suas faixas brancas, e murmurou:
– Isto é um dia histórico... isto é um dia histórico!
Passou-se então dos dois lados da cama onde D. Virgínia, branca como as rendas da fronha, sorria de um vago sorriso exausto – uma tocante troca de impressões exaltadas. Alípio contava o seu discurso e D. Laura o parto.
– A Câmara ergueu-se como um só homem, e eram bravos, eram berros!
– As primeiras dores foram terríveis, não é verdade, filha? Estava agarrada ao meu braço, que até tenho a certeza que me deixou uma nódoa negra.
– Coitadinha! Mas o melhor foi quando eu desci; os apertos de mão, os abraços...
– Abraços merece ela, que se portou com muita coragem! E a criança, que saiu como por uma porta aberta...
Ao canto do quarto, o novo ser, tenra vergôntea da casa dos Noronhas, indo dos braços da parteira para os braços da ama, chorava baixinho, com um som de boneca a que se aperta o estômago, nas suas primeiras contrariedades humanas.
Nesse mesmo dia, «em atenção à coincidência do seu nascimento e do triunfo do.papá», como disse o padre Augusto, foi decidido que o menino se chamasse Carlos Benvindo.
Durante o período legislativo desse ano, Alípio Abranhos fez ainda dois discursos, um, sobre política colonial, outro, sobre o projecto do Caminho de Ferro de Leste. Este último é sobremodo eloquente: poder-se-ia chamar a Ode ao Caminho de Ferro.
Nunca o utilitário modo de comunicação foi descrito com tal colorido, com tal vigor de imaginação: «Vede-lo – exclama o orador – esse monstro de ferro, soltando das narinas turbilhões de fumo, semelhante ao Leviatã da fábula! (bravo! bravo!) Vede-lo, atravessando como um relâmpago os mais áridos terrenos: e que maravilhoso espectáculo se nos oferece então: ao contrário do cavalo de Atua, cuja pata fazia secar a erva dos prados, por onde passa este novo cavalo de fogo (bravo! bravo!) brotam as searas, cobrem-se as colinas de vinha, (muito bem! muito bem!) penduram-se os rebanhos nas encostas verdejantes dos montes, murmuram os ribeiros nas azinhagas, ondulam as searas (muito bem!) e o jovial lavrador lá vai, satisfeito e alegre, cantando as deliciosas canções do campo, junto à esposa fiel, coroada das mimosas flores dos prados! (Bravo! Bravo! Sensação!).
Encerradas as sessões, Alípio Abranhos, sua esposa e o tenro Benvindo partiram para Campolide, onde iam passar o Verão.
Foram três meses de concentração, de íntima felicidade. Tinham passado ali, havia um ano, a sua lua de mel, e a sombra de cada árvore, cada moita de flores, possuíam para eles o valor de uma recordação deliciosa: a quinta tornara-se-lhes como uma vasta confidente simpática; era com orgulho que lhe levavam o tenro Bibi, rabujando nos braços da ama, como o fruto vivo do amor que ela protegera.
Mas nem por isso Alípio Abranhos ficou inactivo. Trabalhou muito e ali escreveu trechos, imagens, perorações de futuros discursos. Foi ali também que ele tomou, passeando à tarde na bela alameda de loureiros, como costumava, devagar, com as mãos atrás das costas, a resolução importante que devia ter na sua carreira uma influência tão grave.
O ministério Cardoso Torres, ao fim da última sessão parlamentar, estava gasto. Esta expressão a que eu chamaria, se me não contivesse o respeito, a «gíria constitucional», refere-se a um fenómeno venerável e repetido, que eu nunca com-preendi bem, apesar das explicações benévolas que me foram dadas por conservadores, republicanos e cépticos.
Há ministérios que se gastam. E todavia, esses ministérios, como os outros, administram o tesouro com honestidade, fazem o expediente das secretarias com suficiente regularidade, mantêm no país uma ordem benéfica, não oprimem nem a imprensa nem a consciência, são respeitosos para com o Chefe de Estado, acompanham com dignidade, ao Alto de S. João, todos os defuntos ilustres, falam nas Câmaras com honrosa correcção, são na vida privada cidadãos estimáveis, e no entanto – ao fim de alguns meses desta rotina honesta, pacata e higiénica – gastam-se.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.