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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Dentro das muralhas, tudo era magnífico. Os lajedos dos pátios, polidos como os de uma igreja, eram cercados de uma bordadura de terra onde cresciam roseiras. O poço era encimado por um pombal que terminava por uma imagem de S. Marcos, onde as pombas vinham pousar, beijando-se sobre o seu grande livro aberto. Por trás da negra torre isolada, que servia de tesouro e de arquivo, havia um jardim em flor: e aos lados a um coberto para o jogo da bola, uma aléia para o jogo da lança.

E na tranqüilidade daquele solar de damas, alheias a coisas de guerra, respeitadas nas longas léguas dos arredores, as sentinelas, sobre as ameias, jogavam os dados, ou dormiam como frades repletos.

Cristóvão pasmava destas maravilhas, quando um pajem o chamou à presença de um intendente. Numa sala abobadada, sentado numa vasta cadeira de carvalho lavrado, diante de uma mesa coberta de rolos de pergaminhos, de in-fólios com armas estampadas, o intendente marcou a Cristóvão as suas obrigações, que consistiriam em acompanhar o Senhor sempre que ele saísse, a pé, ao lado do seu ginete, e armado de um clava. Depois um homem, um corcunda entrou, e trepando vivamente a uma cadeira mediu Cristóvão com um côvado de madeira, desde a cabeça aos pés, e saiu, recuando e saudando, com um molho de tesouras e de agulheiros tinindo à cinta.

Quando o fato que ele assim medira ficou pronto, Cristóvão recebeu ordem para talhar uma maça um tronco de árvore, e, vestido, acompanhar o Senhor, que ia visitar a suas florestas: e enquanto o esperava, na clara manhã de Agosto, Cristóvão não cessava de se mirar na água clara da cisterna, pasmado das bragas de pano às listas azuis e vermelhas, que lhe cobriam as pernas, e do gibão vermelho e azul, que lhe cobria o peito, tendo bordadas as armas da senhoria.

Bem depressa o Senhor apareceu montado num potro branco, com plumas brancas na gorra, sob a qual caíam os seus cabelos louros. Um aio, ao seu lado, levava o falcão no punho. E dois cavaleiros seguiam, de lança alta. Vendo Cristóvão, o menino gritou de alegria: e três vezes fez correr o potro, que se espantava, em torno de Cristóvão imóvel, com a sua maça no ombro. Depois, atravessando a ponte levadiça, correu pelo caminho largo, voltando-se na sela, airoso e vivo, para ver Cristóvão, que trotava com as suas vastas passadas, a longa guedelha ao vento. Pelas portas dos casebres, os vilões do castelo ajoelhavam à passagem do Senhor, que lhes atirava moedas de cobre, da sua escarcela; depois, em grupo, com os braços estendidos, ficavam a olhar o gigante que corria atrás.

Ao fim do passeio, tendo parado numa clareira onde se erguia uma torre, o

menino não quis montar no potro, mas voltar ao castelo, cavalgando Cristóvão. Debalde o aio, com um joelho em terra, o potro pelas rédeas, lhe pediu para montar. Com o olhar vivo, ele disse só: “Mas quero!” E, suspirando, o velho aio ajudou-o a trepar até ao pescoço de Cristóvão, onde ele montou, com as suas esporas fixadas no peito de couro.

Então a sua alegria foi extrema. Era como se estivesse no alto de uma torre que caminhasse. Ora o fazia parar para apanhar as mais altas flores dos medronheiros, que atirava ao chão; ora queria espreitar os ninhos; ora, espicaçando o peito de Cristóvão, corria agarrado aos seus cabelos, como as rédeas de um ginete. E assim voltou ao castelo, onde a mãe e a avó, na grande varanda de pedra, apertavam as mãos, entre inquietas e agradadas, ao ver assim o menino cavalgar o gigante, como nos contos dos menestréis.

E desde esse dia a melhor alegria do menino foi cavalgar Cristóvão. Eram então grandes correrias em torno às muralhas, ou em volta dos fossos, por vezes mais longe, até a floresta, Cristóvão sempre trotando, o menino sempre rindo. E assim pouco a pouco o menino se afeiçoara a Cristóvão, como um cavalo que o compreendia, o fazia rir, com corcovos violentos, ou passos largos e ondulados, como os de um vasto dromedário. Cristóvão também, pouco a pouco, se dera de todo o coração à criança. Quando o sentia sobre os ombros, toda a sua face se alumiava. Por mais fortemente que lhes puxasse os cabelos, só sentia a carícia das suas mãos. Para o fazer rir, relinchava como um corcel de guerra; ou fingia medo, não queria avançar, e as esporas do menino rasgavam o couro do seu tabardo. Nos dias em que chovia e o menino não saía do castelo, todo o dia Cristóvão rondava tristemente pelos pátios, com a melancolia da sua ociosidade: e de noite não recolhia à sua estrebaria, com os olhos na janela onde luzia a luz que alumiava o menino.

(continua...)

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