Por Eça de Queirós (1878)
Ao ruído do trem o Paula postou-se logo à porta, de boné carregado, as mãos enterradas no bolso, com olhares de revés; a carvoeira defronte, imunda, disforme de obesidade e de prenhez, veio embasbacar com um pasmo lorpa na face oleosa; a criada do doutor abriu precipitadamente a vidraça. Então o Paula atravessou rapidamente a rua faiscante de sol, entrou no estanque; daí a um momento apareceu à porta, com a estanqueira, de carão viúvo; e cochichavam, cravavam olhares pérfidos nas varandas de Luísa, no cupê! O Paula, dali, arrastando as chinelas de tapete, foi segredar com a carvoeira; provocou-lhe uma risada que lhe sacudia a massa do seio; e foi enfim estacar à sua porta entre um retrato de D. João VI e duas velhas cadeiras de couro, assobiando com júbilo. No silêncio da rua ouvia-se num piano, a compasso de estudo, a Oração de uma virgem.
Sebastião ao passar olhou maquinalmente para as janelas de Luísa.
- Rico calor, Sr. Sebastião! - observou o Paula curvando-se. - E um regalo estar à fresca!
Luísa e Basílio estavam muito tranqüilos, muito felizes na sala, com as portadas meio cerradas, numa penumbra doce. Luísa tinha aparecido de roupão branco, muito fresca, com um bom cheiro de água de alfazema.
- Eu venho assim mesmo - disse ela. - Não faço cerimônias.
Mas assim é que ela estava linda! Assim é que a queria sempre! - exclamou Basílio muito contente, como se aquele roupão de manhã fosse já uma promessa da sua nudez.
Vinha muito tranqüilo, afetava um tom de parente. Não a inquietou com palavras veementes, nem com gestos desejosos; falou-lhe do calor, de uma zarzuela que vira na véspera, de velhos amigos que encontrara, e disse-lhe apenas que tinha sonhado com ela.
O quê? Que estavam longe, numa terra distante, que devia ser a Itália, tantas as estátuas que havia nas praças, tantas as fontes sonoras que cantavam nas bacias de mármore; era num jardim antigo, sobre um terraço clássico; flores raras transbordavam de vasos florentinos; pousando sobre as balaustradas esculpidas, pavões abriam as caudas; e ela arrastava devagar sobre as lajes quadradas a cauda longa do seu vestido de veludo azul. De resto, dizia, era um terraço como de São Donato, a vila do Príncipe Demidoff - porque lembrava sempre as suas intimidades ilustres, e não se descuidava de fazer reluzir a glória das suas viagens.
E ela, tinha sonhado?
Luísa corou. - Não, tinha tido muito medo da trovoada. Tinha ouvido a trovoada, ele?
- Estava a cear no Grêmio, quando trovejou.
- Costumas cear?
Ele teve um sorriso infeliz. - Cear! Se se podia chamar cear ir ao Grêmio rilhar um bife córneo e tragar um Colares peçonhento!
E fitando-a:
- Por tua causa, ingrata!
- Por sua causa?
- Por quem, então? Por que vim eu a Lisboa? Por que deixei Paris?
- Por causa dos teus negócios...
Ele encarou-a severamente:
- Obrigado - disse, curvando-se até ao chão.
E a grandes passadas pela sala soprava violentamente o fumo do seu charuto.
Veio sentar-se bruscamente ao pé dela. - Não, realmente era injusta. Se em Lisboa, era por ela. Só por ela!
Fez uma voz meiga; perguntou-lhe se lhe tinha realmente um bocadinho de amor muito pequenino, assim... - Mostrava o comprimento da unha.
Riram.
- Assim, talvez.
E o peito de Luísa arfava.
Ele então examinou-lhe as unhas; admirou-lhas e aconselhou-lhe o verniz que usam as cocotes, que lhes dá um lustre polido; ia-se apossando da sua mão, pôs-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou o dedo mínimo, jurou que era muito doce; arranjou-lhe com um contato muito tímido uns fios de cabelos que se tinham soltado - e, disse, tinha um pedido a fazer-lhe!
Olhava-a com uma suplicação.
- Que é?
- É que venhas comigo ao campo. Deve estar lindo no campo!
Ela não respondeu; dava pancadinhas leves nas pregas moles do roupão.
- É muito simples - acrescentou ele. - Tu vais-me encontrar a qualquer parte, longe daqui, estáclaro. Eu estou à espera de ti com uma carruagem, tu saltas para dentro e fouette, cocher!
Luísa hesitava.
- Não digas que não.
- Mas onde?
- Onde tu quiseres. A Paço de Arcos, a Loures, a Queluz. Dize que sim.A sua voz era muito urgente; quase ajoelhara.
- Que tem? É um passeio de amigos, de irmãos.
- Não! Isso não!
Basílio zangou-se, chamou-lhe beata. Quis sair. Ela veio tirar-lhe o chapéu da mão, muito meiga, quase vencida.
- Talvez, veremos - dizia.
- Dize que sim! - insistia. - Sê boa rapariga!
- Pois sim, amanhã veremos; amanhã falaremos.
Mas no dia seguinte, muito habilmente, Basílio não falou no passeio, nem no campo. Não falou também do seu amor, nem dos seus desejos. Parecia muito alegre, muito superficial; tinha-lhe trazido o romance de Belot, À Mulher de Fogo. E sentando-se ao piano, disse-lhe canções de café-concerto, muito picantes; imitava a rouquidão acre e canalha das cantoras; fê-la rir.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.