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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Barrolo concordou, com alarido. Também não compreendia a teima de Gonçalo em ser deputado! Que maçada! Eram logo as intrigas, e as desandas nos jornais, e os enxovalhos. E sobretudo aturar os eleitores.

- Eu, nem que me nomeassem depois Governador Civil, com um título e uma grã-cruz a tiracolo,como o Freixomil!

Gonçalo escutara, num silêncio risonho e superior, enrolando laboriosamente um cigarro com o tabaco do Barrolo:

- Vocês não compreendem... Vocês não conhecem a organização de Portugal. Perguntem aí aoGouveia... Portugal é uma fazenda, uma bela fazenda, possuída por uma parceria. Como vocês sabem há parcerias comerciais e parcerias rurais. Esta de Lisboa é uma parceria política, que governa a herdade chamada Portugal... Nós os Portugueses pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milhões que trabalham na fazenda, ou vivem nela a olhar, como o Barrolo, e que pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a parceria, que recebem e que governam. Ora eu, por gosto, por necessidade, por hábito de família, desejo mandar na fazenda. Mas, para entrar na parceria política, o cidadão português precisa uma habilitação - ser deputado. Exatamente como, quando pretende entrar na Magistratura, necessita uma habilitação - ser bacharel. Por isso procuro começar como Deputado para acabar como parceiro e governar... Não é verdade, João Gouveia?

O Administrador voltara à bandeja das sangrias, de que saboreava outro copo, agora lentamente, aos goles.

- Sim, com efeito, essa é a carreira... Candidato, Deputado, Político, Conselheiro, Ministro,Mandarim. É a carreira... E melhor que a de África. Por fim na Arcada, em Lisboa, também cresce cacau e há mais sombra!

Barrolo no entanto abraçara o ombro possante do Titó, com quem mergulhou no vão da janela, numa confraternidade de idéias, gracejando:

- Pois eu, sem ser dos tais parceiros, também mando nos bocados de Portugal que mais me interessam porque me pertencem!... E sempre queria ver que esse S. Fulgêncio, ou o Braz Victorino, ou lá os políticos do Terreiro do Paço, se metessem a dispor nas minhas terras, na Ribeirinha ou na Murtosa... Era a tiro!

Encostado à vidraça, Titó coçava a barba, impressionado:

- Pois sim, Barrolo! Mas você na Ribeirinha e na Murtosa tem de pagar as contribuições que eles mandarem. E nesses concelhos tem de agüentar as autoridades que eles nomearem. E goza para lá de estradas se eles lhas fizerem. E vende o carro de pão e a pipa de vinho com mais ou menos proveito, segundo as leis que eles votarem... E assim tudo. O Gonçalo não deixa de acertar. É o diabo! Quem manda é quem lucra... Olhe! o maroto do meu senhorio em VilaClara, agora para o S. Miguel, aumenta a renda da casa em que eu moro, um cochicho que ninguém quer, porque mataram lá o carrasco, que ainda lá aparece... E o Cavaleiro, esse, como parceiro, vive de graça neste belo palácio de S. Domingos, com cocheira, com jardim, com horta...

Barrolo atirou um chut, de mão espalmada, abafando o vozeirão do Titó, com medo que as regalias do Cavaleiro, assim proclamadas, renovassem as fúrias de Gonçalo. Mas o Fidalgo não percebera, atento ao João Gouveia, que, enterrado no canapé depois da sangria, novamente contava o seu assombro, ao encontrar no chafariz, em Vila-Clara, o rapazola do Gago com o recado da grande festa na Torre:

- E cheguei a desconfiar que realmente você desse festa, quando bateram as nove, depois asnove e meia, e o Titó sem chegar para a ceia da D. Casimira!... Bem, pensei, também recebeu recado e abalou para a Torre! Por fim, apenas ele apareceu, de carapuço e de jaqueta, percebi que fora troça do Sr. D. Gonçalo...

Então o Fidalgo pasmou com uma inesperada, estranha suspeita:

- De carapuço e jaqueta? O Titó andava nessa noite de carapuço e de jaqueta?...

Mas bruscamente Barrolo, da funda janela, lançou para dentro, para a sala, um brado de pavor:

- Oh! rapazes! Santo Deus! Aí vêm as Lousadas! João Gouveia saltou do canapé, como numperigo, reabotoando arrebatadamente a sobrecasaca; Gonçalo, atarantado, esbarrou com o Titó e o Barrolo que recuavam, no terror de serem apercebidos através dos vidros largos; até Padre Soeiro, prudente, abandonou o seu recanto onde corria os óculos pela Gazeta do Porto. E todos, dentre a fenda das cortinas, como soldados na fresta de uma cidadela, espreitavam o largo, que o sol das quatro horas dourava por sobre os telhados musgosos da Cordoaria. Do lado da rua das Pegas, as duas Lousadas, muito esgalgadas, muito sacudidas, ambas com manteletes curtos de seda preta e vidrilhos, ambas com guarda-sóis de xadrezinho desbotado, avançavam, estirando pelo largo empedrado duas sombras agudas.

(continua...)

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