Por Camilo Castelo Branco (1864)
- A narrativa - redarguiu Afonso de Teive - vai perdendo a seriedade que demandava o caso. Cansaço ou enojo, dir-te-ei que me sinto já constrangido nestas memórias. Achome um pouco identificado com a minha vida passada; repassei o Letes interposto, e olho com saudades para as margens que deixei. Se, como diz o Dante, nada há aí mais triste que recordar na miséria os tempos felizes, é pelo menos nauseabundo recordar em tempos felizes vergonhosas misérias. Todavia, como já agora inexorável romancista, me não dispensam o remate deste longo prólogo do capítulo final do meu livro - livro que eu chamaria Amor de Salvação -, concluirei a história e irei depois purificar meus lábios no rosto de meus filhos.
"Teodora - continuou Afonso -, quando quis abrir os olhos, arrancou-se dos meus braços, exclamando: "Repele-me, que eu sou indigna de ti. Agora reconheço a minha miséria, agora que te vejo, ó anjo da minha infância, que eu deixei fugir para o seio da mulher digna, da mulher pura, da criatura perfeita para quem tu nasceste!"
- Há aí muito estilo - interrompi. - A mulher compunha! Vê-se que leu e aproveitou. O deputado de Braga é que tinha olho de D. João de Maraña para as mulheres de letras. E depois?
- Eu venci o espaço que ela deixara recuando e abracei-a. Neste movimento senti nas faces o contacto dos caracóis desfeitos. Osculei-a na fronte...
- Gosto - atalhei - do comedimento honesto da palavra... Osculei-a... Sim, senhor... Assim é que um pai de oito filhos conta a história dos seus beijos. E ela também te osculou?
- Sofregamente, doidamente, segurando-me a face pelos cabelos.
- Isso também é de rigor teatral. A mulher conhecia a cena! Perdoa as interrupções. De propósito as faço para te dar azo a inspirares fôlego novo, visto que já te afadiga o conto. E vai depois...
- Rebentou-me a bolhões do peito a eloquência da paixão. Era uma alma virgem que se abria. Abria-se um tesouro intacto de onde nem sequer tirara uma palavra para mentir a outra mulher. Ela entrecortava-me, sorvendo-me as expressões dos lábios, ou abafando-mas no seio palpitante e ardente como o arquejar estuoso do vulcão. Este lance febril, de minutos no viver de meu espirito, absorvera uma hora, segundo a vida do tempo...
- E depois - acudi eu - começaram a tratar de assuntos circunspectos com discreta serenidade.
- Contou-me ela que o marido, com ar de tirano tolo...
- A frase é dela, tirano tolo? - perguntei.
- É. Desgostar-me-ia o tom zombeteiro com que ela me falava do pobre homem, se eu não estivesse...
- Corrompido - conclui. - Querias dizer isto?
- Era isso verdadeiramente. Dizia, pois, ela que o marido lhe falava em correspondências de Lisboa, mordendo o beiço, ou esgaravatando nos pavilhões dos ouvidos, costume dele, quando os ciúmes lhe faziam prurido nas orelhas.
- Disse-to assim ela? - interrompi com a mais ingénua irritação.
- Disse-mo assim, com pouca diferença, meses depois, quando eu estava mais corrompido que ela para provocá-la às originalidades da sua veia sarcástica: do que me confesso em opróbrio meu. Delineámos o nosso futuro. Foi ela quem o programou.
Iríamos para longe. Propôs Lisboa, ou Madrid, ou Paris. Quis Lisboa, no intento de requerer divórcio. A fuga teria execução antes de oito dias. Eu ficaria em Barcelos, disfarçado, oculto durante o dia. A meia-noite apearia a um oitavo de légua de Tibães.
Teodora estaria no seu gabinete de estudo, e as vidraças coariam a luz da sua lâmpada, companheira das lucubrações intelectuais, insuspeitas ao marido. Referendado o programa e rubricado com um ósculo (repara que me não descomponho) ouvi estropeada de cavalo na rua. Momentos depois...
- Querem ver que chega Eleutério! - atalhei com alvoroço e alegria párvoa, se não cruel.
- Eleutério Romão dos Santos, em pessoa, tropeando nas escadas que subiam para a sala, onde nós estávamos tranquilos como Paulo e Virgínia (perdoai-me, santas almas, a comparação!) nos rochedos da Ilha de França! Agora tu, Calíope, ensina-me a contar o sucesso estranho!... Eleutério viu ainda o desencadearam-se os braços de Teodora do meu pescoço. Parou, estacou, empederniu-se, estupidificou-se no limiar da porta.
- E Teodora? Narra-me da esposa surpreendida; que fez ela? - perguntei com inquieto empenho.
- Teodora, pendidos os braços, fitou Eleutério com sobranceria, deu dois passos, postou-se diante de mim e disse, voltada para o marido: "Que me quer? A minha alma é livre."
- Esperava outra coisa eu! Isto parece-me estupidamente imoral. É caso novo é feio esse! E tu, que fizeste tu?
- Nada.
- Dos três é quem andaste melhor. Parabéns! E ele, o marido, que fez depois? Que respondeu à Pantasileia?
- Respondeu que lhe ia dar cabo da casta, e tirou uma luzente podoa de dois gumes do bolso interior da judia.
- Uma podoa! Outra novidade! E arremeteu com ela?
- Quando ele sacou do ferro, passei para a frente de Teodora.
- Desarmado?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.