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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Torne a ler, se quiser, Sr. Fialho; mas não me faça perguntas; porque tudo que tenho a responder-lhe está aí. Eu sou o irmão da viúva honrada que ia a sua casa. Fui um moço pobre que a Sr.ª D. Ângela conheceu bom e digno de ser estimado na mocidade de ambos. Recebi dessa virtuosa senhora a esmola da minha formatura, ignorando a quem a devia. Agora posso pagá-la; e a vossa senhoria, que diz ter sido roubado por sua esposa, é a quem de direito me cumpre pagar. Falta a indicação das testemunhas. Permita-me que eu chame três dos seus vizinhos, aos quais o Sr. Fialho lerá esta quitação, e perante os quais me fará a mercê de assinar, contada a quantia que deixo para ser examinada.

― Mas explique-me isto! – bradava o enfermo.

― Está explicado, senhor!

― Então minha mulher estava inocente? Porque o não disse ela? Porque não contou ela a história que o doutor me contou agora?

― Não sei. Confiaria pouco na sua generosidade, senhor. Seria surpreendida de modo que não pudesse justificar-se. Enfim, não sei, nem posso demorar-me. Vou chamar as testemunhas.

― Mas eu não quero este dinheiro! – clamou Hermenegildo.

― Rasgue as notas depois de ter assinado o recibo.

E desceu precipitadamente as escadas, subindo-as logo com as três testemunhas.

Fialho não pode ler a quitação, de inquieta e aflita que se lhe espojava a alma, como enojada do corpo. Costa pediu a uma das testemunhas que lesse e a outra que contasse as notas. Depois, chegou a pena ao doente, que assinou com a mão convulsa.

As testemunhas saíram.

― Se vê que eu morro – tartamudeou Hermenegildo – diga-mo, que quero fazer testamento, e deixar alguma coisa a minha mulher, se ela ainda for viva.

― Não sei se morre, Sr. Fialho. Ângela de Noronha, se vive, não aceitará a sua herança...

― Por quê? Então não há de aceitar?

― Ângela de Noronha, se viver, terá metade do meu pão. O que D. Ângela aceitaria de seu marido está aqui... É este papel que a salvará da infâmia que o senhor lhe associou à pobreza, para que o mundo nem misericórdia houvesse dela. Se a infeliz tiver caído à última desonra, Sr. Fialho, em tal caso eu irei ainda procurá-la de abismo em abismo, e dizer-lhe que fiz o que pude em desafronta do seu nome. Adeus.

Francisco Costa saiu enxugando as lágrimas.

A cara de Hermenegildo apenas ressumava o suor mal enxuto das agonias da cólica, sobre o amarelidão nauseabunda da icterícia.

XXI MORRE HERMENEGILDO

Esta é de cabo de esquadra! – dizia ele, horas depois, aos amigos que o confortavam. – E quem deu direito a minha mulher de emprestar sem minha ordem 1.650$000 réis ao irmão da costureira? Que me importa a mim que ele fosse boa pessoa ou que fosse um pandilha sem beira nem leira?

― Você tem razão – dizia-lhe um primo carnal de Atanásio. – Lá pr’ó caso de sua mulher andar mal, andou; e, se era honrada, não o parecia. Por exemplo: eu vou em casa da mulher dum sujeito, e peço-lhe dinheiro. Ela mo empresta, e se esconde do marido; que hei de dizer eu? Sim, tem razão você de não dar a orelha, Sr. Fialho.

Estas cláusulas pareceram irrespondíveis ao doente. E, de feito, a natureza tinha esclarecido esta família dos Atanásios com grandes lumes de razão natural.

Por feição que Hermenegildo ratificou não só os seus anteriores juízos sobre os irregulares costumes de Ângela, mas também entrou-se da desconfiança de ter apanhado, quando menos o esperava, o amante dela. Quer-nos parecer que aquela perversíssima alma raciocinasse atuada por influências de fígado e outras entranhas que principiavam a engurgitar-se.

O restante do dia passou-o pouco febril, e por isso mesmo com certa energia de espírito que destampava em esfuziadas de protérvias contra a esposa, sem ressalvar a probidade do cirurgião.

De noite exasperaram-se-lhe as dores hepáticas, as aflições do estômago, a dispnéia, e o queimar de febre. Ao romper do dia, pediu a brados que lhe chamassem o doutor Costa.

Informou-se Francisco com o portador sobre o estado do doente, e despediu-o.

Daí a pouco, outro notável médico enviado por Francisco Costa, desculpando o colega, oferecia os seus serviços.

A doença progrediu sem intermitências de repouso nos cinco dias seguintes.

Hermenegildo pegou a dar gritos que o doutor o mandara envenenar na tisana da quina. Os médicos, chamados um de pós outro, iam cedendo o passo ao último, indignados da aleivosia com que o estúpido enfermo caluniava o ilustre caráter de Francisco Costa e o do seu substituto.

(continua...)

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