Por Eça de Queirós (1887)
E agarrei o capacete, abalei, esgarçando, quase no meu furor o pano preto franjado de ouro. Paramos numa cela ladrilhada onde cheirava mal. E ai bruscamente foi entre Pote e a nédia matrona Uma bulha ferina sobre a paga daquela radiante festa do Oriente; ela reclamava mais sete piastras de ouro; Pote, de bigode eriçado, cuspia-lhe injúrias em árabe, rudes e chocando-se como calhaus se despenham num vale. E saímos daquele lugar de deleite perseguidos pelos gritos de Fatmé, que se babava de furor, agitava os braços marcados da peste e nos amaldiçoava, e a nossos pais, e aos ossos de nossos avós, e a terra que nos gerara, e o pão que comíamos, e as sombras que nos cobrissem! Depois na rua negra dous cães seguiram-nos muito tempo, ladrando lugubremente.
Entrei no Hotel do Mediterrâneo, afogado em saudades da minha terra risonha; os gozos de que me via privado nesta lôbrega, inimiga Sião, faziam-me ansiar mais inflamadamente pelos que me daria a fácil, amorável Lisboa, quando, morta a Titi, eu herdasse a bolsa sonora de seda verde!... La não encontraria, nos corredores adormecidos, uma bota severa e bestial! lá nenhum corpo bárbaro fugiria, com lágrimas, à carícia dos meus dedos. Dourado pelo ouro da Titi, o meu amor não seria jamais ultrajado, nem a minha concupiscência jamais repelida. Ah! meu Deus! Assim eu lograsse, pela minha santidade, cativar a Titi!... E logo, abancando, escrevi à hedionda senhora esta carta terníssima:
"Querida Titi do meu coração! Cada vez me sinto com mais virtude. E atribuo-a ao agrado com que o Senhor está vendo esta minha visita ao seu santo túmulo. De dia e de noite passo o tempo a meditar a sua divina paixão e a pensar na Titi. Agora mesmo venho da Via-Dolorosa. Ai, que enternecedora que estava! E uma rua tão benta, tão benta, que até tenho escrúpulo de a pisar com os botins; e noutro dia não me contive; agachei-me, beijei-lhe as ricas pedrinhas! Esta noite passei-a quase toda a rezar à Senhora do Patrocínio, que todo o mundo aqui em Jerusalém respeita muitíssimo. Tem um altar muito lindo; ainda que a este respeito bem razão tinha a minha boa tia (como tem razão em tudo), quando dizia que lá para festas e procissões não há como os nossos portugueses. Pois esta noite, assim que ajoelhei diante da capela da Senhora, depois de seis salve-rainhas, voltei-me para a bela imagem e disse-lhe: - Ai, quem me dera saber como está a minha tia Patrocínio! - E quer a Titi acreditar? Pois olhe, a Senhora, com a sua divina boca, disse-me palavras textuais, que até, para não me esquecerem, as escrevi no punho da camisa: - A minha querida afilhada vai bem, Raposo, e espera fazer-te feliz! E isto não é milagre extraordinário, porque me contam aqui todas as famílias respeitáveis com quem vou tomar chá, que a Senhora e seu divino Filho dirigem sempre algumas palavras bonitas a quem os vem visitar. Saberá que já lhe obtive certas relíquias: uma palhinha do presépio, e uma tabuinha aplainada por São José. O meu companheiro alemão, que, como mencionei à Titi na minha carta de Alexandria, é de muita religião e muito sábio, consultou os livros que traz e afirmou-me que a tabuinha era das mesmas que, segundo está provado, São José costumava aplainar nas horas vagas. Em quanto à grande relíquia, aquela que lhe quero levar para a curar de todos os seus males e dar a salvação à sua alma e pagar-lhe assim tudo o que lhe devo, essa espero em breve obtê-la. Mas por ora não posso dizer nada... Recados aos nossos amigos, em quem penso muito e por quem tenho rezado constantemente; sobretudo ao nosso virtuoso Casimiro. E a Titi deite a sua bênção ao seu sobrinho fiel e que muito a venera e está chupadinho de saudades e deseja a sua saúde - Teodorico. – P.S. Ai, Titi, que asco que me fez hoje a casa de Pilatos! Até lhe escarrei! E cá disse à Santa Verônica que a Titi tinha muita devoção com ela. Pareceu-me que a senhora santa ficou muito regalada... E o que eu digo aqui a todos estes eclesiásticos e aos patriarcas: é necessário conhecer-se a Titi, para se saber o que é virtude!"
Antes de me despir, fui escutar, colada a orelha ao tabique de ramagens. A inglesa dormia serena, insensível: eu resmunguei, brandindo para lá o punho fechado:
- Besta!
Depois abri o guarda-roupa, tirei o dileto embrulho da camisinha da Mary; depus nele o meu beijo repenicado e grato.
Cedo, ao alvorar do outro dia, partimos para o devoto Jordão.
Fastidiosa, modorrenta, foi a nossa marcha entre as colinas de Judá! Elas sucedem-se, lívidas, redondas como crânios, ressequidas, escalvadas por um vento de maldição; só a espaços nalguma encosta rasteja um tojo escasso, que na vibração inexorável da luz parece de longe um bolar de velhice e de abandono. O chão faísca, cor de cal. O silêncio radiante entristece como o que cai da abóbada de um jazigo. No fulgor duro do céu rondava em torno a nós, lento e negro, um abutre... Ao declinar do sol erguemos as nossas tendas nas ruínas de Jericó.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.