Por Eça de Queirós (1940)
Pensou-se ao princípio que o clima, a nostalgia, ou talvez o tédio o teriam morto; mas os anatomistas, que o abriram para o estudarem, mostraram que o mal que o destruiu tinha uma causa bem mais natural num macaco: dentro do estômago do ilustre Pongo acharam-se pregos, um pequeno canivete, rolhas, uma luneta, uma luva, um cabo de guarda-sol e outras curiosidades. Este avô da raça humana não tinha da escolha dos seus alimentos nem mais discernimento nem mais dignidade que um qualquer reles macaco de meia moeda o casal. Grande desilusão!
X
Londres, 21 de Dezembro [de 1877]
Londres foi ontem à noite agitada pelo espantoso boato de que a Inglaterra tinha comprado o Egipto!!! Nos teatros, nas ruas, nos clubes, nos restaurantes, dizia-se com uma satisfação um pouco estonteada: – Comprámos o Egipto! Demos um ror de milhões pelo Egipto!
Eu soube a notícia por um amigo meu, que à uma hora da noite se precipitou na minha sala; esguedelhado, com o laço da gravata branca para as costas, soprando como um monstro dos mares, atirou-se para uma poltrona ao pé do fogão e exclamou com palavras ofegantes:
– Acabou-se! Está terminada a crise! Acabámos agora mesmo de comprar o Egipto!...
Eu levantei a cabeça do meu trabalho e, dominando uma comoção violenta, perguntei com tranquilidade:
– Por quanto?
– Centenas de milhões. Um negócio óptimo. A questão do Oriente está acabada: agora que espatifem à vontade o Império Turco. Nós temos o que precisávamos – o Egipto e o canal de Suez! Constantinopla não nos serve para nada! E sem derramar uma gota de sangue!
Derramando, sim, ondas de ouro! Mas pouh!... O ouro sobra. Além disso, o rendimento do
Egipto em três ou quatro anos dá quinze por cento do capital empregado! E que golpe para a Rússia! Com o dinheiro que recebe, a Turquia paga a sua dívida, ganha crédito, equipa exércitos, continua a guerra e faz repassar o Danúbio aos Russos – a pontapés! Grande homem Lord Beaconsfield! Hem!?
Confesso francamente que dormi mal. Comprar o Egipto! O quê! A grande e bela terra dos faraós, dos Ptolomeus, dos sultões, de As Mil e Uma Noites; o Egipto de Sesóstris, de Cleópatra, e de Harun Al-Raschid; a terra monumental e hierática, o país do Nilo, das Pirâmides e dos templos maravilhosos; o vale onde está Tebas de cem portas e o Cairo de cem mesquitas; o terreno fecundo e inesgotável que alimentou o Império Romano; este país prodigioso onde a história é mais maravilhosa que a legenda, o quê! Esta nação-avó, mais antiga que Jeová, comprada, vilmente comprada como um chapéu do Roxo, ou um quarteirão de pêras da tia Vicência! É possível isto? Um sujeito de suíças e de polainas, chegando a Constantinopla e, depois de um olhar de conhecedor e de uma tossezinha de decisão, dizer sossegadamente, apontando para o Egipto:
– Isto: quanto?
– Tanto.
– Bem. Embrulhe e mande a casa!
Hão-de concordar que é forte. Que conquistassem, vá, que lhe dessem a honra de o invadir, de o assolar, de o acorrentar, compreende-se: é da tradição: o Egipto tem passado a sua existência a ser invadido: quem o quer, dá-lhe ao menos a satisfação de lutar por ele; mas comprá-lo! Dar por ele – não sangue, mas notas do Banco de Inglaterra! Chamá-lo a si e entregar um recibo... E verdadeiramente uma ideia de merceeiro! Mas que tem a sua grandeza, concordemos: uma transacção desta ordem eleva a compra e venda à altura da epopeia: e um balcão sobre o qual se regateiam destes negócios é tão poético como o campo de batalha de Tróia.
Hoje, porém, averigua-se que o boato era prematuro: alguns ainda insistem que se comprou, sim – não o Egipto, mas a ilha de Creta: a verdade, porém, é que as decisões do Governo, se estão já expressas em facto são ainda secretas – e eu apenas conto este incidente para dar a medida da excitação que existe em Londres.
Este excitement foi produzido pela convocação extraordinária do parlamento: os rumores mais fantásticos circularam logo, e os consolidados desceram três quartos por cento, o que, diga-se de passagem, custa aos possuidores de títulos a pequena soma de cinco milhões de libras esterlinas. A primeira ideia foi que o Governo ia declarar a guerra à Rússia e que reunia o parlamento para lhe pedir a aprovação constitucional desta aventura dramática: mas semelhante suposição era absurda: o Governo não pode senão expor às câmaras a gravidade da situação, apresentar a sua opinião, ver se o parlamento a aprova e perguntar-lhe se não seria conveniente colocar o exército e a armada à altura da crise. Em todo o caso as câmaras do comércio estão-se já apresentando ao Governo em favor de uma política pacífica e neutra, e nas principais cidades celebram-se meetings para lembrar a Lord Beaconsfield que o contribuinte inglês não tem a mínima intenção de pagar um xelim a mais para que o grão-turco continue a divertir-se nos langorosos ócios do serralho!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.