Por Eça de Queirós (1878)
Foi encher o regador, e enquanto a água da torneira cantava no fundo da lata:
- E diz que lhe faça amanhã ao almoço um bocado de presunto frito, do salgado. Quer picantes!
E com muito escárnio:
- Sempre a gente vê coisas! Quer picantes!
À meia-noite a casa estava adormecida e apagada. Fora, o céu enegrecera mais; relampejou, e um trovão seco estalou, rolou.
Luísa abriu os olhos estremunhada; começara a cair uma chuva grossa e sonora; a trovoada arrastava-se, ao longe. Esteve um momento escutando as goteiras que cantavam sobre o lajedo; a alcova abafava, descobriu-se; o sono tinha fugido, e de costas, o olhar fixo na vaga claridade que vinha de fora da lamparina, seguia o tique-taque do relógio. Espreguiçou-se, e uma certa idéia, uma certa visão foi-se formando no seu cérebro, completando-se tão nítida, quase tão visível, que se revirou na cama devagar, estirou os braços, lançou-os em roda do travesseiro, adiantando os beiços secos - para beijar uns cabelos negros onde reluziam fios brancos.
Sebastião tinha dormido mal. Acordou às seis horas e desceu ao quintal em chinelas. Uma porta envidraçada da sala de jantar abria para um terraçozinho, largo apenas para três cadeiras de ferro pintado e alguns vasos de cravos; dali, quatro degraus de pedra desciam para o quintal; era uma horta ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de flores, saladas muito regadas, pés de roseiras junto dos muros, um poço e um tanque debaixo de uma parreirita, e árvores; terminava por um outro terraço assombreado de uma tília, com um parapeito para uma rua baixa e solitária; defronte corria um muro de quintal muito caiado. Era um sitio recolhido, de uma paz aldeã. Muitas vezes Sebastião, de madrugada, ia para ali fumar o seu cigarro.
Era uma manhã deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o céu arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas e, aqui e além, uma nuvenzinha algodoada, molemente enrolada, cor de leite; a folhagem tinha verde lavado a água do tanque uma cristalinidade fria; pássaros chilreavam de leve com vôos rápidos.
Sebastião estava debruçado para a rua, quando a ponteira de uma bengala, passos vagarosos cortaram o silêncio fresco. Era um vizinho de Jorge, o Cunha Rosado, o doente de intestinos; arrastava-se, curvado, abafado num cachenê e num paletó cor de pinhão, com a barba grisalha desmazelada, a crescer.
- Já a pé vizinho! - disse Sebastião.
O outro parou, ergueu a cabeça lentamente.
- Oh, Sebastião! - disse com uma voz plangente. - Ando a passear os meus leites, homem!
- A pé?
- Ao princípio ia na burrita até fora de portas, mas diz que me fazia bem o passeiozito a pé...
Encolheu os ombros com um gesto triste de dúvida, de desconsolação.
- E como vai isso? - perguntou Sebastião, muito debruçado para a rua, com afeto.
O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beiços brancos:
- A desfazer-se!
Sebastião tossiu, embaraçado, sem achar uma consolação.
- Mas o doente, com as duas mãos apoiados à bengala, uma súbita radiação de interesse noolhar amortecido:
- Ó Sebastião, um rapaz alto, que eu tenho visto todos estes dias entrar pala casa do Jorge, é oBasílio de Brito, pois não é? O primo da mulher? O filho do João de Brito?
- É, sim, por quê?
O Cunha fez: "Ah! Ah!" com uma grande satisfação.
- Bem dizia eu! - exclamou. - Bem dizia eu! E aquela teimosa que não! Que não!...
E então explicou com uma tagarelice súbita, e cansaços de voz:
- O meu quarto é para a rua, e todos os dias, como eu estou quase sempre pela janela paraespairecer... tenho visto aquele rapaz, a modo estrangeirado, entrar para lá... todos os dias! "Este é o Basílio de Brito!" disse eu. Mas a minha mulher que não! Que não!... Que diabo, homem! Eu tinha quase a certeza... Não conheço eu outra coisa!... Até ele esteve para casar com a D. Luísa. Oh! Eu sei essa história na ponta dos dedos... Morava ela na Rua da Madalena!
Sebastião disse vagamente:
- Pois é, é o Brito...
- Bem dizia eu!
Ficou um momento imóvel, fitando o chão, e refazendo uma voz dolente:
- Pois, vou-me arrastando até casa.
Suspirou. E arregalando os olhos:
- Quem me dera a sua saúde, Sebastião!
E dizendo adeus, com um gesto da mão calçada de luva de casimira escura, afastou-se, curvado, rente do muro, conchegando com o braço ao ventre, o seu largo paletó cor de pinhão.
Sebastião entrou preocupado. Todo o mundo começava a reparar, hem! Pudera! Um rapaz novo, janota, vir todos os dias de trem, estar duas, três horas! Uma vizinhança tão chegada, tão maligna!...
Ao começo da tarde saiu. Teve vontade de procurar Luísa; mas sem saber por quê, sentia um grande acanhamento; como que receava encontrá-la diferente ou com outra expressão... E subia a rua devagar, sob o seu guarda-sol, hesitando, quando um cupê que descia a trote largo veio parar à porta de Luísa.
Um sujeito saltou rapidamente, atirou o charuto, entrou. Era alto, com um bigode levantado, trazia uma flor, no peito; devia ser o primo Basílio, pensou. O cocheiro limpou o suor da testa, e, cruzando as pernas, pôs-se a enrolar o cigarro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.