Por Eça de Queirós (1900)
Beliscava a orelha. Aconselhava ruidosamente Barrolo e Gonçalo a passarem na Vendinha, para provar a pinga celeste.
Até aqui o Sr. Padre Soeiro lhe atiçava uma caneca valente, apesar do Pecado!
Mas João Gouveia entrou, encalmado, empoeirado, com um vinco vermelho na testa, do chapéu e do calor - e abotoado na sobrecasaca preta, de calças pretas, de luvas pretas. Sem fôlego, apertou silenciosamente pela sala as mãos amigas que o acolhiam. E desabou sobre o canapé, implorando ao amigo Barrolo a caridade duma bebidinha fresca!
- Estive para entrar no café Mônaco. Mas refleti que nesta grandiosa casa dos Barrolos asbebidas são de mais confiança.
- Ainda bem! Você que quer? Orchata? Sangria? Limonada?
- Sangria.
E, limpando o pescoço e a testa, amaldiçoou o indecente calor de Oliveira:
- Mas há gente que gosta! Lá o meu chefe, o Sr. Governador Civil, escolhe sempre a hora docalor para passear a cavalo. Ainda hoje... Na repartição até o meio-dia; depois, cavalo à porta; e larga até a estrada de Ramilde, que é uma África... Não sei como lhe não fervem os miolos!
- Oh! - acudiu Gonçalo - é muito simples. Se ele os não tem!
O Administrador saudou gravemente:
- Já cá faltava com a sua ferroadazinha o Sr. Gonçalo Mendes Ramires! Não comecemos, não comecemos... Este seu cunhado, Barrolo, é bicho indomesticável! Sempre reponta!
O bom Barrolo gaguejou, constrangido, que Gonçalinho em Política não dispensava a piada...
- Pois olhe! - declarou o Administrador, sacudindo o dedo para Gonçalo. - Esse Sr. André Cavaleiro, que não tem miolos, ainda esta manhã na Repartição gabou com imensa simpatia os miolos do Sr. Gonçalo Mendes Ramires!...
E Gonçalo, muito sério:
- Também não faltava mais nada! Para esse Governador Civil ser perfeitamente absurdo só lherestava que me considerasse um asno!
- Perdão! - gritou o Administrador, que se erguera, desabotoando logo a sobrecasaca, paracomodidade da contenda.
Barrolo acudiu, aflito, carregando nos ombros do Gouveia - para o sossegar e o repor no canapé:
- Não, meninos, não! Política, não! E então essa maçada do Cavaleiro... Vamos ao que importa.Você janta conosco, João Gouveia?
- Não, obrigado. Já prometi jantar com o Cavaleiro. Temos lá o Inácio Vilhena. Vai ler um artigoque escreveu para o Boletim de Guimarães sobre umas fôrmas de fabricar ossos de mártires, descobertas nas obras do convento de S. Bento. Estou com curiosidade... E a Sra. D. Graça, bem? Quem eu não avistava havia meses era o Sr. Padre Soeiro. Nunca aparece agora pela Torre!... Mas sempre rijo, sempre viçoso. Oh, Sr. Padre Soeiro, qual é o seu segredo para toda essa meninice?
Do seu canto, o capelão sorriu timidamente. O segredo? Poupar a Vida - não a consumindo nem com ambições nem com decepções. Ora para ele, louvado Deus, a vida corria muito simples e muito pequenina. E fora o seu reumatismo...
Depois, corando de acanhamento, através das sentenças evangélicas que lhe escapavam:
- Mas mesmo o reumatismo não é mal perdido. Deus, que o manda, sabe por que o manda...Sofrer edifica. Porque enfim o que nós sofremos nos leva a pensar no que os outros sofrem...
- Pois olhe - volveu com alegre incredulidade o Administrador -, eu, quando tenho os meusataques de garganta, não penso na garganta dos outros! Penso só na minha que me dá bastante cuidado. E agora a vou regalar naquela bela sangria...
O escudeiro vergava, com a luzente bandeja de prata, carregada de copos de sangria onde boiavam rodelinhas de limão. E todos se tentaram, todos beberam, até Padre Soeiro, para mostrar ao Sr. Antônio Vilalobos que não desdenhava o vinho, dádiva amável de Deus - pois como ensina Tibulo com verdade, apesar de gentílico, vinus facit dites animos, mollia corda dat, enrija a alma e adoça o coração.
João Gouveia, depois dum suspiro consolado, pousou na bandeja o copo que esvaziara dum trago e interpelou Gonçalo:
- Vamos a saber! Então noutro dia que história fantástica foi essa duma festa na Torre, comsenhoras, com a D. Ana Lucena?... Eu não acreditei quando o pequeno do Gago me encontrou, me deu o recado. Depois...
Mas dentre as cortinas da janela, onde acabava a sangria, Titó novamente ribombou, interpelando também o Fidalgo:
- Ó sô Gonçalo! E o que me contou há pouco o Barrolo?... Que andavas com idéias de abalar para a África?
Ao espanto de João Gouveia quase se misturou terror. Para a África?... O quê? Com um emprego para a África?...
- Não! plantar cocos! plantar cacau! plantar café! - exclamava o Barrolo, com divertidaspalmadas na coxa.
Pois Titó aprovava a idéia! Também ele, se arranjasse um capital, dez ou quinze contos, tentava a África, a traficar com o preto... E também se fosse mais pequeno, mais seco. Que homens do seu corpanzil, necessitando muito comezaina e muita vinhaça, não agüentam a África, rebentam!
- O Gonçalo sim! É chupado, é rijo; não carrega na aguardente; está na conta para Africanista...E sempre te digo! Carreira bem mais decente que essa outra por que tens mania, de deputado! Para quê? Para palmilhar na Arcada, para bajular Conselheiros.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.