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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Esse foi o período esplêndido e soberbamente divertido do seu tédio. Jacinto encontrara enfim na vida uma ocupação grata – mal dizer da Vida! E para que pudesse maldizer em todas as suas formas, as mais ricas, as mais intelectuais, as mais puras, sobrecarregou a sua vida própria de novo luxo, de interesses novos de espírito, e até de fervores humanitários, e até de curiosidades supernaturais.

O 202, nesse Inverno, refulgiu de magnificência. Foi então que ele iniciou em Paris, repetindo Heliogábalo, os Festins de Cor contados na HISTÓRIA AUGUSTA: e ofereceu às suas amigas esse sublime jantar cor-de-rosa, em que tudo era róseo, as paredes, os móveis, as luzes, as louças, os cristais, os gelados, os Champanhes, e até (pôr uma invenção da Alta Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros serviam, empoados de pó rosado, com librés da cor de rosa, enquanto do teto, dum velário de seda rosada, caíam pétalas frescas de rosas... A Cidade, deslumbrada, clamou: - “Bravo, Jacinto!” E o meu Príncipe, ao rematar a festa fulgurante, plantou diante de mim as mãos nas ilhargas e gritou triunfalmente: - “Hem? Que maçada!...”

Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospício no campo, entre jardins, para velhinhos desamparados, outro para crianças débeis à beira do Mediterrâneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindu de Mayolle penetrou no Teosofismo: e montou tremendas experiências para verificar a misteriosa exteriorização da motilidade. Depois, desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegráficos do Times, para que no seu gabinete, como num coração, palpitasse toda a Vida Social da Europa.

E a cada um destes esforços da elegância, do humanitarismo, da sociabilidade, e da inteligência indagadora, voltara para mim, de braços alegres, com um grito vitorioso: - “Vês tu, Zé Fernandes? Uma maçada!” – Arrebatava então o seu Eclesiastes, o seu Schopenhauer, e, estendido no sofá, saboreava voluptuosamente a concordância da Doutrina e da Experiência. Possuía uma Fé – o Pessimismo; era um apóstolo rico e esforçado; e tudo tentava, com suntuosidade, para provar a verdade da sua Fé! Muito gozou nesse ano o meu desgraçado Príncipe!

No começo do Inverno, porém, notei com inquietação que Jacinto já não folheava o Eclesiastes, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem Teosofismos, nem os seus Hospícios, nem os fios do Times, pareciam interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstrações gloriosas da sua Crença. E a sua abominável função de novo se limitou a bocejar, a passar os dedos moles sobre a face pendida, palpando a caveira. Incessantemente aludia à morte como a uma libertação. Uma tarde mesmo, no melancólico crepúsculo da Biblioteca, antes de refulgirem as luzes, consideravelmente me aterrou, falando num regelado de mortes rápidas, sem dor, pelo choque duma vasta pilha elétrica ou pela violência compassiva do ácido cianídrico. Diabo! O Pessimismo, que aparecera na Inteligência do meu Príncipe como um conceito elegante – atacara bruscamente a Vontade!

Todo o seu movimento então foi o dum boi inconsciente que marcha sob a canga e o aguilhão. Já não esperava da Vida contentamento – nem mesmo se lastimava que ela lhe trouxesse tédio ou pena. “Tudo é indiferente, Zé Fernandes!” E tão indiferentemente sairia à sua janela para receber uma Coroa Imperial oferecida pôr um Povo – como se estenderia numa poltrona rota para emudecer e jazer. Sendo tudo inútil, e não conduzindo senão a maior desilusão, que podia importar a mais rutilante atividade ou a mais desgostada inércia? O seu gesto constante, que me irritava, era encolher os ombros. Perante duas idéias, dois caminhos, dois pratos, encolhia os ombros! Que importava?... E no mínimo ato, raspar um fósforo ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade tão desconsolada que todo ele parecia ligado, desde os dedos até à alma, pelas voltas apertadas duma corda que se não via e que o travava.

Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus anos, a 10 de Janeiro. Cedo, de manhã, recebera, com uma carta de Madame de Trèves, um açafate de camélias, azaléas, orquídeas e lírios-do-vale. E foi este mimo que lhe recordou a data considerável. Soprou sobre as pétalas o fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escárnio:

-Então há trinta e quatro anos eu ando nesta maçada?

E como eu propunha que telefonássemos aos amigos para beberem no 202 o Champanhe do “Natalício” – ele recusou, com o nariz enojado.

-Ó! Não! Que horrível seca!... – E bradou mesmo para o Grilo: - Eu hoje não estou em Paris para ninguém. Abalei para o campo, abalei para Marselha... Morri!

(continua...)

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