Por Camilo Castelo Branco (1864)
Viu-a. Estava com o braço esquerdo encostado à mesa central da sala, e a face reclinada para a mão. Com a direita chibatava, como alheada do que fazia, o pó acamado no roçagante vestido de casimira verde-escuro. Verde era o véu do chapéu, que, momentos depois, ela tirou com rápido movimento e rojou ao longo da mesa. Levou ambas as mãos às fontes, afastando os anéis dos cabelos, que se encaracolavam rosto abaixo até às espáduas. Demorou-se momentos naquela postura. Ergueu-se impaciente e passeou de um a outro lado da casa, vibrando o chicote, e tirando com força pelo trancelim de ouro do relógio. Volveu a sentar-se, com o rosto voltado em cheio contra a porta, de onde Afonso a observava. "Poucos traços lhe vi então das feições menineiras com que a deixara", me disse ele. "Da menina admirável o que ela ainda tinha era o ar angélico; mas a beleza da mulher deslumbrava as reminiscências da criança."
Venceu Afonso os ímpetos que o empuxavam para abrir a porta. Esperou, sem saber o quê; esperava o desencantamento, esperava o dom da palavra retraído ao coração.
Entrou um lacaio, que ela mandou logo ao correio com um bilhete ali escrito a lápis. Desde este momento, Afonso já sabia o que esperava: queria vê-la aflita com a falta da carta. No intervalo, Teodora chamou o criado da hospedaria e pediu café, O criado, ouvidas as ordens, dirigiu-se ao quarto de Afonso; este viu-o e afastou-se.
Aberta a porta subtilmente, perguntou o criado se Sua Excelência queria almoçar. Afonso respondeu com um aceno negativo. Fechada a porta, perguntou Teodora:
- Quem é que está naquele quarto?
- Não sei, fidalga - respondeu o moço. Afonso repôs-se à fechadura.
Chegou o lacaio.
- Trazes? - exclamou ela como assustada.
- Não há, minha senhora.
- Não?! -bradou ela batendo o pé. - É impossível! É impossível! Deve lá estar uma carta!...
- Saberá V. Exª que eu lia lista primeiro, depois fui dentro perguntar ao homem que dá as canas - disse o lacaio, e saiu.
- Inferno! - clamou ela estortegando os dedos que estalavam nas articulações. - Maldita eu seja, que tão aviltada me tomei!
Sentou-se a arfar e a chorar, e logo depois levantou os pulsos comprimindo as fontes.
Pôs depois as mão enclavinhadas junto dos lábios, encostou a barba ao pólex da mão esquerda, abaixou a cabeça e meditou.
Entrava o criado com a bandeja. Teodora, estremecendo como atemorizada, relanceou os olhos sobre o criado e disse-lhe com desabrimento:
- Deixa ficar. Cá me sirvo, O lacaio que almoce e aparelhe.
Neste momento, Afonso abriu a porta e disse com a voz convulsa:
- Um passageiro pede uma chávena do café de V. Exª.
O leitor já sabe, por todos os romances, por todos os dramas e por todos os actos da vida real, semelhantes, muito ou pouco, a este, o que Teodora fez. Um ah! ou dois é o nariz de cera para todas as surpresas. fabricadas desde Homero, ou mais de longe.
Adão, quando viu Eva, devia dizer-lhe Ah! A Eva, quando viu a serpente, se não fugiu, eu vou jurar, sem menoscabo do historiador Moisés, que, mais ou menos nervosa, exclamou: Ah! A interjeição é coeva do homem, que nasceu cheio de espantos.
Espanto, porém, igual ao da morgada, se o houve, foi o meu, quando Afonso me disse que Teodora não expediu do seio interjeição nenhuma, nem ah! sequer.
- Pois quê?! -perguntei eu com a respiração abafada. - Que disse ela?!
- Levantou as mãos, ajuntou-as sobre o seio postas em oração; depois, caiu em joelhos, ia cair, quando eu, ajoelhado também, a recebi, a desfalecer.
- Não disse nada, portanto!... E desfaleceu sinceramente?
- Fazes-me essa pergunta como quem conheceu a mulher...
- respondeu Afonso. - Asseveras-me que te estou contando factos ignorados?
- Pois eu podia saber o que se passou na estalagem de Barcelinhos?! - repliquei. - Eu ignoro dessa mulher tudo, menos o que toda a gente sabia. Vi Palmira em Lisboa contigo... mas, se tu crês que um homem, acostumado a fazer romances, é uma espécie de naturalista, que só com um osso recompõe um animal desconhecido, admite-me que eu tenha adivinhado a alma inteira de Teodora com os poucos, mas característicos, traços que me deste do seu carácter. Autorizado, pois, pela tua pergunta, afoito-me a dizer que o desmaio da amazona foi menos de teatral, porque nem sequer foi precedido da inevitável interjeição. Assim que me disseste, Afonso, que ela não desentranhou do intimo seio um estrídulo ah!, entendi que Teodora era mais artificial que o próprio artificio, mais teatral que o mesmo teatro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.