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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Por que acha que não?... Uma senhora pobre, educada como fidalga, não exercitada em qualquer trabalho, de repente privada de meios, e indigente, que faria?

― Não sei... lá se avenha...

― Suponha o Sr. Fialho que D. Ângela de Noronha, em vez de trabalhar, porque não sabia, e em vez de mendigar, porque não podia, começou a vender-se porque era bonita!... Se assim acontecesse... Demorou-se, instantes, sufocado Francisco, e repetiu:

― Se assim acontecesse...

― O senhor parece que está a lagrimejar?!

― Estou, não há dúvida... porque me compadeço dessa pobre senhora...

― Compadece?... Então acha que é bonito uma mulher desonrar um homem de bem?

― Quem é o homem de bem?

― Sou eu...

― O Sr. Fialho?!

― Então vossa senhoria duvida?!

― Não duvido. Tenho a certeza de que o senhor é...

A cadeira de Francisco Costa tremia em vibrações. Ao brasileiro aumentou-se-lhe o espanto, quando viu o doutor erguer-se de salto e lançar mão do chapéu.

― Vai-se embora doutor?!... O senhor não vai bom!... Que é lá isso? Venha cá!

― Lembrei-me que tenho doentes, e a hora de os visitar já passou, mas volto logo – respondeu o médico, examinando o relógio, sem ver a hora.

― Nada... vossa senhoria sabe alguma coisa de minha mulher... Aqui há história...

― Sei!... – disse Francisco Costa, encarando-o de lado quando se retirava. – Sei que D. Ângela, até ao momento em que o senhor a expulsou de casa, foi pura e honrada esposa.

― Venha cá! Como sabe isso? – bradou Fialho sentando-se no leito.

O médico tinha saído.

― Aqui há mandinga, por mais que me digam! – monologava o brasileiro, apalpando ao mesmo tempo o fígado congestionado. – Quem diabo disse a este sujeito que a minha mulher estava honrada? É o primeiro homem que me diz isto!... Quero saber este negócio como é! À tarde vou mandá-lo chamar. Se ele puder provar que Ângela estava inocente, mando-a procurar, e dou-lhe uma boa mesada, e a quinta dos Choupos. Mas onde estará ela a esta hora!...

Meditou uma curta pausa e acrescentou:

― Ora bolas! Qual pura nem qual cabaça!... Se ela estivesse inocente, ia pela porta fora?!...

Hermenegildo sentia-se bem disposto para jantar; mas a galinha enjoava-o já. Pediu à Rosa Catraia que lhe levasse do seu jantar. Comeu uma farta gamelada de carne seca com feijão preto, bebeu à proporção vinho de Bordéus, adoçou os bócios com uma tigela de maracujá, e estendeu-se no flácido colchão para sestear.

Pouco depois rugia, apanhando os refegos do estômago que latejava, e contorcendo-se sobre o fígado. Era uma cólica.

Saíram os criados a procurar o doutor Costa. Encontraram-no, caminho já da casa de Hermenegildo Fialho.

― Estou a morrer, se me não acode! – exclamou o doente escabujando nos braços de Rosa Catraia.

O doutor receitou, ouvida a exposição da enfermeira. Um vomitório enérgico arrancou das cavernas daquela sentina a morte envolta em ondas de feijão preto.

Estava desafrontado, mas ardentemente febril.

O doutor examinou atento se as faculdades intelectivas do doente estavam de leve alteradas pelo acesso febril.

Aprazivelmente reconheceu a sanidade do espírito do homem, que lhe dizia com voz roufenha:

― Sempre vossa senhoria é um grande cirurgião! Palavra de honra, que eu estava a espichar desta!

Francisco Costa disse à concubina que saísse do quarto, e sentou-se à cabeceira do doente.

― Parece-lhe que estou pior, doutor? – disse assustado o brasileiro, traduzindo funestamente o aspecto severo e pensativo de Francisco.

― Não senhor. Está melhor. Poderá o Sr. Hermenegildo ler um papel que eu aqui tenho? ― Ler um papel?! Que papel é esse? Posso ler perfeitamente.

― Leia.

Fialho recebeu uma meia folha de papel selado, que continha o seguinte:

Declaro eu abaixo assinado Hermenegildo Fialho Barrosas, negociante que fui no Porto, e atualmente morador no Rio de Janeiro, que recebi do cirurgião Francisco José da Costa, residente na mesma cidade, a quantia de um conto, seiscentos e cinqüenta mil réis, fortes, que minha mulher D. Ângela de Noronha tinha emprestado a Joana Costa, irmã do dito cirurgião, e costureira residente no Porto, a fim de com esta quantia, recebida em diversas parcelas, o referido cirurgião poder continuar a completar a sua habilitação para curar. E, como isto é verdade, pedi ao dito Francisco José da Costa que este fizesse para eu assinar a presença de três testemunhas que são...

Aqui terminava a leitura.

Hermenegildo sentara-se espantado no leito, ao passo que Francisco tirava duma carteira um maço de notas, e lhe dizia serenamente:

(continua...)

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