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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Fatmé saiu, recuando; o festivo Pote reclinou-se entre nós, abrindo a sua bolsa perfumada de tabaco de Alepo. Então, uma portinha branca, sumida no muro caiado, rangeu a um canto, de leve; e uma figura entrou, velada, vaga, vaporosa. Amplos calções turcos de seda carmesim tufavam com languidez, desde a sua cinta ondeante até aos tornozelos, onde franziam, fixos por uma liga de ouro; os seus pezinhos mal pousavam, alvos e alados, nos chinelos de marroquim amarelo; e através do véu de gaze que lhe enrodilhava a cabeça, o peito e os braços - brilhavam recamos de ouro, centelhas de jóias, e as duas estrelas negras dos seus olhos. Espreguicei-me, túmido de desejo.

Por trás dela Fatmé, com a ponta dos dedos, ergueu-lhe o véu devagar, devagar e dentre a nuvem de gaze surgiu um carão cor de gesso, escaveirado e narigudo, com um olho vesgo, e dentes podres que negrejavam no langor néscio do sorriso... Pote pulou do divã, injuriando Fatmé, ela gritava por Alá, batendo nos seios, que soavam molemente como odres mal cheios.

E desapareceram, assanhados, levados numa rajada de ira. A circassiana, requebrando-se, com o seu sorriso pútrido, veio estender-nos a mão suja, a pedir "presentinhos" num tom rouco de aguardente. Repeli-a com nojo. Ela coçou um braço, depois a ilharga; apanhou tranqüilamente o seu véu e saiu arrastando as chinelas.

- Oh, Topsius! - rosnei eu. - Isto parece-me uma grande infâmia!

O sábio fez considerações sobre a voluptuosidade. Ela é sempre enganadora. Debaixo do sorriso luminoso está o dente cariado. Dos beijos humanos só resta o amargor. Quando o corpo se extasia, a alma entristece...

- Qual alma! Não há alma! O que há é um eminentíssimo desaforo! Na Rua do Arco-do-Bandeira, esta Fatmé tinha já dous murros na bochecha... Irra!

Sentia-me feroz, com desejos de escavacar o bandolim... Mas Pote reapareceu, cofiando os bigodões dizendo que por mais nove piastras de ouro, Fatmé consentia em mostrar a sua secreta maravilha, uma virgem das margens do Nilo, da alta Núbia, bela como a noite mais bela do Oriente. E ele vira-a, afiançava-a, valia o tributo de uma fértil província.

Frágil e liberal, cedi. Uma a uma, as nove piastras de ouro tiniram na mão gordufa de Fatmé.

De novo a porta caiada rangeu, ficou cerrada - e, sobre o tom alvaiado, destacou, na sua nudez cor de bronze, uma esplêndida fêmea, feita como uma Vênus. Durante um momento parou, muda, assustada pela luz e pelos homens, roçando os joelhos lentamente. Uma tanga branca cobria-lhe os flancos possantes e ágeis; os cabelos hirsutos, lustrosos de óleo, com cequins de ouro entrelaçados, caíam-lhe sobre o dorso, como uma juba selvagem; um fio solto de contas de vidro azul enroscava-se-lhe em torno do pescoço e vinha escorregar por entre o rego dos seios rijos, perfeitos e de ébano. De repente saltou convulsamente, repicando a língua, uma ululação desolada: Lu! lu! lu! lu! lu! Atirou-se de bruços para o divã; e estirada, na atitude de uma esfinge, ficou dardejando sobre nós, séria e imóvel, os seus grandes olhos tenebrosos.

- Hem? - dizia Pote, acotovelando-me. - Veja-lhe o corpo... Olhe os braços! Olhe a espinha como arqueia! E uma pantera!

E Fatmé, de olhos em alvo, chilreava beijos na ponta dos dedos exprimindo os deleites transcendentes que devia dar o amor daquela núbia... Certo, pela persistência do seu olhar, que as minhas barbas fortes a tinham cativado, desenrosquei-me do divã, fui-me acercando, devagar, como para uma presa certa. Os seus olhos alargavam-se, inquietos e faiscantes. Gentilmente, chamando-lhe "minha lindinha", acariciei-lhe o ombro frio; e logo ao contato da minha pele branca a núbia recuou, arrepiada, com um grito abafado de gazela ferida. Não gostei. Mas quis ser amável. Disse-lhe paternalmente:

- Ah! se tu conhecesses a minha pátria!... E olha que sou capaz de te levar! Em Lisboa é que é!

Vai-se ao Dafundo, ceia-se no Silva... Isto aqui é uma choldra! E as raparigas como tu são bem tratadas; dá-se-lhes consideração, os jornais falam delas, casam com proprietários...

Murmurava-lhe ainda outras cousas profundas e doces. Ela não compreendia o meu falar; e nos seus olhos esgazeados flutuava a longa saudade da sua aldeia da Núbia, dos rebanhos de búfalos que dormem à sombra das tamareiras, do grande rio que corre eterno e sereno entre as ruínas das religiões e os túmulos das dinastias...

Imaginando então despertar o seu coração com a chama do eu, puxei-a para mim, lascivamente. Ela fugiu; encolheu-se toda a um canto, a tremer; e deixando cair a cabeça entre as mãos, começou a chorar, longamente.

- Olha que maçada! - gritei, embaçado.

(continua...)

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