Por Eça de Queirós (1940)
O acontecimento mais notável da última quinzena, em Londres, foi o casamento do duque de Norfolk, o primeiro fidalgo de Inglaterra, conde-marechal do reino, chefe do partido católico. Toda a alta aristocracia papista assistiu à cerimónia, que foi celebrada na capela dos padres do Oratório, em Brompton, com um esplendor romano. A noiva é Lady Flora Hastings, filha da condessa de London, novamente convertida ao catolicismo; os presentes que recebeu são de uma prodigalidade e de um luxo incomparáveis: entre a profusão de jóias, colares de diamantes, colecções de rubis sem igual, adereços de safiras que levaram anos a coleccionar, montes de pérolas inigualáveis, apareceram dois presentes notáveis: um é uma relíquia de um santo, 5. Tomás de Aquino, creio eu; outro é um colar de diamantes e rubis que pertencia a Maria Stuart, e que entrará por herança nas jóias da Casa de Norfolk. A rainha que, nestes casamentos aristocráticos, faz, segundo a antiga tradição, um presente à noiva, desta vez absteve-se. Daqui, grande escândalo. Ordinariamente o presente da rainha é um rico xaile de caxemira: e são tantos os que distribui que parece que em Windsor ou no Palácio de S. James deve haver armazéns subterrâneos atulhados daquele vistoso artigo. Os jornais alegres perguntam todos, com grandes facécias, porque é que no casamento do primeiro nobre de Inglaterra, de um parente de reis, que na corte tem lugar antes dos príncipes, sua majestade não deu ao menos o xaile. Que dê o xaile! Que não se fique com o xaile! – grita a imprensa satírica. Porque é um erro continental supor que a rainha de Inglaterra é cercada de uma tal veneração que a pilhéria não se atreva a transpor as portas do paço. Não: a rainha, como outra qualquer mortal, é (quando isso é justo) criticada, epigramatizada e caricaturada; e nesta ocasião a ocorrência do xaile tem sido objecto da muito grossa jovialidade saxónia.
A verdade é que a rainha ofendeu todo o partido católico; diz-se que a razão da sua abstenção foi o ser Lady Flora uma nova convertida e o detestar a rainha as novas convertidas. Admite as antigas famílias católicas, mas as conversões recentes são-lhe particularmente antipáticas.
Uma condessa muito ilustre e ainda mais bonita, casada com um católico, mostrava tendência ultimamente de «passar para Roma», como aqui se diz. A rainha, na última recepção, chamoua e disse-lhe simplesmente:
– Não há nada pior para uma senhora que abandonar a religião de seus pais.
Foi o bastante: a pobre condessa perdeu toda a veleidade de beijar a chinela do papa; ficou-se no protestantismo por ordem superior. Acho este caso delicioso. Uma devota – morrendo do desejo de ouvir uma boa missa cantada ou de seguir o mês de
Maria – é obrigada a contentar-se com a seca leitura da Bíblia para não desagradarás reais pessoas.
A propósito da religião, ouço dizer, mas não o garanto, que o príncipe Leopoldo, o filho mais novo da rainha, se vai fazer padre. Este moço, de uma natureza e de um temperamento diferente dos irmãos, letrado, um pouco poeta, místico e extremamente doente – daria talvez, nos tempos passados, um daqueles príncipes que edificavam um mosteiro e, na falta de um reino temporal, ali ficavam governando um pequeno povo de monges, escreviam um tratado sobre um meio de expurgar o Demónio e obtinham, pela sua parentela real, uma canonização em Roma.
As façanhas da força muscular repetem-se sob as formas mais inesperadas; depois dos sujeitos que nadam vinte léguas em doze horas; depois dos indivíduos que caminham em volta de um circo quinhentas milhas em três dias, temos agora um novo herói: o homem que valsa seis horas consecutivas. Este maganão é débil, esguio, alourado, frisado, com uns olhinhos vivos, ademanes nervosos e uma voz de grilo. Das seis da tarde à meia-noite, valsa, valsa, valsa, sem respirar mais alto, sem suar, sem se lhe desmanchar o frisado, cansando vinte, trinta, quarenta pares e bebendo, sempre a valsar, caldos pelo bico de um bule. É sublime e odioso. Na primeira hora, o espectáculo é trivial e pouco elegante porque o homem valsa pior que qualquer dançarino; na segunda hora, o facto começa a surpreender; na terceira hora, principia-se a achar extraordinário e não se vêem pelos cantos da sala, senão mulheres extenuadas que o maganão esfalfou, valsando, valsando; na quarta hora, o caso torna-se fenomenal, a cabeça anda à roda; na quinta hora, começa-se a ter ódio àquela personagem, que, com um sorriso ameno, gira, torneia, perpassa, delira, sempre à roda, sempre à roda; na sexta hora, a gente começa a ter vontade de matar o mariola: felizmente há policias; mas a impressão é terrível, e vem-se para a rua meio louco, sentindo as casas, os candeeiros, as carruagens, valsar, valsar com um sorriso doce e cabelos frisados. E um espectáculo medonho!
Agora uma notícia triste: o nosso amigo Pongo morreu, o ilustre gorilha. Foram chamados os médicos mais ilustres, mas os seus dias estavam contados pelas Parcas que se ocupam dos macacos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.