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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Depois dos anos de Gracinha, uma tarde, pelas três horas, Gonçalo, recolhendo com Padre Soeiro duma visita à Biblioteca do Paço do Bispo, sentiu logo da antecâmara o vozeirão do Titó, que rolava na sala azul em trovão lento. Franziu vivamente o reposteiro - e sacudiu o punho para o imenso homem que enchia um dos cadeirões dourados, estirando por sobre as flores do tapete umas botas novas de grossas tachas reluzentes:

- Oh infame!... Então noutro dia assim me larga, sem escrúpulo, depois de eu lhe preparar umcabrito estupendo, assado num espeto de cerejeira? E para quê?... Para uma orgia reles, com bolinhos de bacalhau e bichinhas de rabear!

Titó não desmanchou a sua conchegada beatitude:

- Impossibilíssimo. De tarde encontrei o João Gouveia no Chafariz. E só então nos lembramosde que eram os anos da D. Casimira. Dia sagrado!

Aquelas ceias de Vila-Clara, as tresnoitadas "pândegas" com violão, impressionavam sempre Barrolo, que as apetecia. E com o olho aguçado, do canto da mesa onde esfarelava cuidadosamente pacotes de tabaco dentro de uma terrina do Japão:

- Quem é a D. Casimira? Vocês em Vila-Clara descobrem uns tipos... Conta lá!

- Um monstro! - declarou Gonçalo. Uma matronaça bojuda como uma pipa, com um pêlonojento no queixo. Vive ao pé do Cemitério, num cacifro que tresanda a petróleo, onde este senhor e as autoridades vão jogar o quino, e derriçar com umas sirigaitas de casabeque vermelho e de farripas... Nem se pode decentemente contar diante do Sr. Padre Soeiro!

O capelão, que sem rumor se esbatera numa sombra discreta, entre os franjados cetins duma cortina e um pesado contador da Índia, moveu os ombros num consentimento risonho, como acostumado a todas as fealdades do Pecado. E, com pachorra, o Titó emendava o esboço burlesco do Fidalgo:

- A D. Casimira é gorda, mas muito asseada. Até me pediu para eu lhe comprar hoje, na cidade,uma bacia nova de assento. A casa não cheira a petróleo e fica por trás do convento de Santa Teresa. As sirigaitas são simplesmente as sobrinhas, duas raparigas alegres que gostam de rir e de troçar... E o Sr. Padre Soeiro podia, sem medo...

- Bem, bem! - atalhou Gonçalo. - Gente deliciosa! Deixemos a D. Casimira, que tem bacia novapara os seus semicúpios... Vamos à outra infâmia do Sr. Antônio Vilalobos!

Mas Barrolo insistia, curioso:

- Não, não, conta lá, Titó... Noite de anos, patuscada rija, hem?

- Ceia pacata - contou o Titó com a seriedade que lhe merecia a festa das suas amigas. - A D.Casimira tinha uma bela frangalhada com ervilhas. O João Gouveia trouxe do Gago uma travessa de bolos de bacalhau que calharam... Depois, fogo de vistas na horta. O Videirinha tocou, as pequenas cantaram... Não se passou mal.

Gonçalo esperava - irresistivelmente interessado pela ceia das Casimiras:

- Acabou, bem?... Agora a outra infâmia, mais grave! Então o Sr. Antônio Vilalobos é íntimo doSanches Lucena, freqüenta todas as semanas a Feitosa, toma chá e torradas com a bela D.

Ana, e esconde tenebrosamente dos seus amigos estes privilégios gloriosos?...

- Sem contar - gritou o Barrolo deliciosamente divertido - que lhe passeia à trela os cãezinhosfelpudos!

- Sem contar que lhe passeia à trela os cãezinhos felpudos! - ecoou cavamente Gonçalo. Responda, meu ilustre amigo!

O Titó remexeu o vasto corpo dentro do cadeirão, recolheu as botas de tachas luzentes, afagou lentamente a face barbuda, que uma vermelhidão aquecera. E depois de encarar Gonçalo, intensamente, com um esforço de sagacidade que mais o afogueou:

- Tu já alguma vez, por curiosidade, me perguntaste se eu conhecia o Sanches Lucena? Nunca me perguntaste...

O Fidalgo protestou. Não! Mas constantemente na Assembléia, no Gago, na Torre, eles berravam, em questões de Política, o nome do Sanches Lucena! Nada mais natural, até mais prudente, do que aludir o Sr. Titó à sua intimidade ilustre! Ao menos para evitar que ele, ou os amigos, diante do Sr. Titó que comia as torradas da Feitosa, tratassem o Sanches Lucena como um trapo!

O Titó despegou do cadeirão. E afundando as mãos nos bolsos da quinzena de alpaca, sacudindo desinteressadamente os ombros:

- Cada um tem sobre o Sanches a sua opinião... Eu apenas o conheço há quatro ou cincomeses, mas acho que é sério, que sabe as coisas... Agora, lá nas Câmaras...

Gonçalo, indignado, bradava que se não discutiam os méritos do Sr. Sanches Lucena - mas os segredos do Sr. Titó Vilalobos! E o escudeiro novo, avançando as suíças ruivas por uma fenda do reposteiro, anunciou que o Sr. Administrador de Vila-Clara procurava S. Exa....

Barrolo largou logo a terrina de tabaco:

- O Sr. João Gouveia! Que entre! Bravo! Temos cá toda a rapaziada de Vila-Clara!

E Titó, da janela onde se refugiara, lançou o vozeirão, mais troante, abafando a importuna conversa do Sanches e da Feitosa:

- Viemos ambos! Por sinal numa traquitana infame... Até se nos desferrou uma das pilecas etivemos de parar na Vendinha. Não se perdeu tempo, que há agora lá um vinhinho branco que é daqui da ponta fina!...

(continua...)

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