Por Camilo Castelo Branco (1864)
Fernão de Teive ia a tomar a carta já aberta da mão do regedor, quando sentiu extraordinário peso no braço esquerdo, olhou em sobressalto e viu Mafalda a desmaiar, com o rosto banhado de suor. Chamou-o ela, expedindo uns agudos soluços, quis em vão pendurar-se do pescoço do pai. Tomou-a o velho nos braços com tremente ansiedade e transportou-a para dentro de uma loja, pedindo a brados um facultativo.
O regedor e Eleutério seguiram Fernão, aflitos do sucesso. Na mão do regedor estava ainda a carta. O velho, sem atinar com o motivo do acidente, olhou maquinalmente para o papel e teve um repelão intuitivo, sem ainda o compreender.
Tirou com desabrimento a carta da mão do compadre, examinou-a pela luneta, leu as primeiras linhas, desviou os olhos, meditou, lançou de arremesso o papel ao chão e disse:
- Deixem-me... não sei o que é... Vão embora...
Os homens iam a sair, quando ele os chamou com frenesi, pediu a carta e desfê-la em pedacinhos, exclamando:
- Isto não é nada, nada vale, podem ir com Deus.
Eleutério estava assombrado, e o compadre abria e fechava a boca em sinal do seu espanto e compaixão. Em boa-fé, o regedor acreditou atacado de demência o velho, ao ver a filha em transes de morte. Afastaram-se em consultas, dando cada qual a sua razão do caso, bem que Eleutério ia mediocremente satisfeito da rasgadura da carta.
Quando recobrou o alento, Mafalda levou as mãos ao rosto do pai e murmurou muito carinhosa:
- Perdoe-me, por quem é! Perdoe esta fraqueza da sua infeliz filha!
- Pobre anjo! - balbuciou o velho. - Que hás-de tu fazer-lhe? Deus mandou-te aquele desengano... Recebe-o tu, reportada e humilde, de suas divinas mãos. Precisavas disto, para enfim te convenceres.
Mafalda pediu ao pai que a levasse ao primeiro templo aberto. Ajoelhou ao altar do Senhor dos Aflitos, chorou, e viu as lágrimas do velho ajoelhado à beira dela. Ergueu-se com pacifico semblante e disse:
- Estou melhor, meu pai. Deus não falta aos infelizes sem culpa, nem mesmo aos culpados... Também orei pelo primo Afonso.
- Eu não orei - disse o pai -, mas rasguei o documento da sua infâmia.
XV
Afonso de Teive contava os dias, e, no último dia, a hora é instantes em que devia receber carta de Teodora. Esperou uma semana em alvoroço, e já ao décimo dia a malograda esperança o atormentava. A incerteza da recepção aliviava-o por momentos; outros, porém, sobrevinham em que ele se considerava desconsiderado pela caprichosa ou vingativa mulher. O mais graduado oráculo do seu conselho. D. José de Noronha, racionalmente opinava que a mulher autora de tais canas por força devia responder; e do silencio concluiu que se transviara a resposta enviada. Chegou a confirmação desta hipótese na seguinte pergunta de Teodora: Instantemente te rogo que no primeiro correio me digas se me escreveste.
Sobejam-me razões para conjecturá-lo. Estou em ânsias. Esta incerteza martirizame mais que o teu desprezo. Responde-me depressa. Dirige a tua resposta - pedida com lágrimas - para Barcelos. Calculo o dia em que ela deve ali estar. frei pessoa/mente recebê-la.
T. P.
Lida a pergunta, Afonso abancou para responder. Posta a primeira palavra, ergueuse de salto. Chamou o criado da cavalariça. Mandou pensar os cavalos para jornada longa. Sentou-se a escrever a D. José de Noronha. Cuidou seguidamente dos aprestos para a partida; e, duas horas antes da saída do correio, galopava na estrada do Porto. A meia jornada fraquearam os cavalos. Afonso fez remonta em Coimbra, sem discutir o preço de novas cavalgaduras, e chegou a Barcelos duas horas primeiro que o correio.
Quando apeou na estalagem de Barcelinhos, encostou a cabeça esvaída à borda de um leito e adormeceu. Rompia a manhã. A mim me contou ele que, dormindo uma hora, acordara transido do horror de um sonho. Vira Teodora em trajes de bacante, revolteando umas valsas lúbricas, e atirando-se ébria, e torpe de impudicícia, aos braços de um homem. Era um sonho; mas ao despertar, Afonso sentia abrir-se-lhe o coração a golpes de arrependimento. A prostração era invencível: adormeceu outra vez, e sonhou que via sua mãe agonizante nos braços de Mafalda. Acordou espavorido; ergueu-se arrancando a mãos frenéticas aquela imagem da fronte; o arrependimento era já lançada de remorso. Abriu o relógio: viu que era ainda tempo de fugir... Diz ele que fugiria...ai!, eu não creio que ele fugisse, não! Chamara o criado para arrear os cavalos... eis que, ao cimo da rua, soa tropel de ferraduras, e faz-se rápida paragem à porta, da estalagem.
Afonso descora, vai de encontro às vidraças, e vê apear a morgada. O quarto dele era contíguo à sala comum. Já Afonso lhe ouvira os passos escada acima, e logo a voz ordenando ao lacaio que amantasse os cavalos e fosse receber as suas ordens. Foi ele manso e manso espreitar pela fechadura. Respirava em arquejos ao avizinhar-se da porta. Curvou-se, inspirando sôfrego o ar que lhe saia a sacões do peito.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.