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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Terribilíssimas foram então as horas solitárias do infeliz. Até àquele dia, Mariana, benquista do carcereiro e protegida pela amiga de D. Rita Preciosa, tinha franca entrada no cárcere a toda a hora do dia, e raras horas deixava sozinho o preso. Costurava enquanto ele escrevia, ou cuidava do amanho e limpeza do quarto. Se Simão estava no leito doente ou prostrado, Mariana, que tivera alguns princípios de escrita, sentava-se à banca, e escrevia cem vezes o nome de Simão, que muitas vezes as lágrimas deliam. E isto assim, durante sete meses, sem nunca ouvir nem proferir a palavra amor. Isto assim, depois das vigílias noturnas, ora em preces, ora em trabalho, ora no caminho de sua casa, onde ia visitar o pai a desoras.

Nunca mais o preso, na perspectiva da forca, viu entrar aquela doce criatura o limiar da ferrada porta, que lhe graduava o ar, medido e calculado para que as inteiras horas da asfixia as gozasse o cordel do patíbulo. Nunca mais!

E, quando ele evocava a imagem de Teresa, um capricho dos olhos quebrantados lhe afigurava a visão de Mariana ao par da outra. E lacrimosas via as duas. Saltava então do leito, fincava os dedos nos espessos ferros da janela, e pensava em partir o crânio contra as grades.

Não o sustinha a esperança na terra, nem no céu. Raio de luz divina jamais penetrou no seu ergástulo. O anjo da piedade encarnada naquela criatura celestial que enlouquecera, ou voltara para o céu com o espírito dela. O que o salvara do suicídio não era, pois, esperanças em Deus, nem nos homens; era este pensamento: "Afinal, cobarde! Que bravura é morrer quando não há esperança da vida?! A forca é um triunfo quando se encontra ao cabo do caminho da honra

CAPÍTULO XIII

— E Teresa?

Perguntam a tempo, minha senhoras, e não me hei de queixar se me argüírem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menosporte.

Esquecido, não. Muito há que me reluz e voeja, alada como o ideal querubim dos santos, nesta minha quase escuridade, aquela ave do céu, como a pedir-me que lhe cubra de flores o restilho de sangue que ela deixou na terra. Mais lágrimas que sangue deixaste, ó filha da amargura! Flores são tuas lágrimas, e do céu me diz se os perfumes delas não valem mais aos pés do teu Deus que as preces de muita devota que morre santificada pelo mundo, e cujo cheiro de santidade não passa do olfato hipócrita ou estúpido dos mortais.

Teresa Clementina bem a viam transportada da escadaria do templo onde caíra, à liteira que a conduziu ao Porto. Recobrando o alento, viu defronte de si uma criada, que lhe dizia banais e frias expressões de alívio. Se alguma criada de seu pai lhe era amiga, decerto não aquela, acintemente escolhida pelo velho. Nem ao menos a confiança para tal expansão em gritos restava à afligida menina! Mas um raio de piedade ferira o peito da mulher até àquela hora desafeta a sua ama.

Perguntava-se a si mesma Teresa se aquela horrorosa situação seria um sonho! Sentia-se de novo falecer de forças, e voltava à vida, sacudida pela consciência da sua desgraça. Condoeu-se a criada, e incitou-a a respirar, chorando com ela, e dizendo-lhe:

— Pode falar, menina, que ninguém nos segue.

— Ninguém?!

— As suas primas ficaram: apenas vêm os dois lacaios.

— E meu pai não?

— Não, fidalga... Pode chorar e falar à sua vontade.

— E eu vou para o Porto?

— Vamos, sim minha senhora.

— E tu viste tudo como foi, Constança?

— Desgraçadamente vi...

— Como foi? Conta-me tudo.

— A menina bem sabe que seu primo morreu.

— Morreu?! Vi-o cair quase nos meus pés; mas...

— Morreu logo, e depois quiseram os criados, à voz de seu pai, prender o senhor Simão; mas ele com outra pistola...

— E fugiu? — atalhou Teresa, com veemente alegria.

— Afinal foi ele que se deu à prisão. — Está preso?!

E, sufocada pelos soluços, com o rosto no lenço, não ouvia as palavras confortadoras de Constança.

Serenado algum tanto o violento acesso de gemidos e choro, Teresa sugeriu à criada o louco plano de a deixar fugir da primeira estalagem onde pousassem para ela ir a Viseu dar o último adeus a Simão.

A criada a custo a despersuadiu do intento, pintando-lhe os novos perigos que ia acumular à desgraça do seu amante, e animando-a com a esperança de livrar-se Simão do crime, com a influência do pai, apesar da perseguição do fidalgo.

Calaram lentamente estas razões no espírito de Teresa. Chorosa, ansiada e a reveses desfalecida, foi Teresa vencendo a distância que a separava de Monchique, onde chegou ao quinto dia de jornada.

A prelada já estava sabedora dos sucessos, por emissários que se adiantaram ao moroso caminhar da liteira.

Foi Teresa recebida com brandura por sua tia, posto que as recomendações de Tadeu de Albuquerque eram clausura rigorosa e absoluta privação de meios de escrever a quem quer que fosse.

(continua...)

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