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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Se teve razões para privar inteiramente de recursos sua senhora. Às vezes acontece um homem, na sua posição de atraiçoado pela esposa, cavar mais fundos abismos à sua honra, atirando a culpada ao meio da sociedade, como que diz: “Aí vai uma mulher que eu podia salvar da extrema miséria... Levem-na à última paragem do vício!”

― Não que eu quis salvá-la – acudiu o doente – mas ela não quis. Dava-lhe que comer num convento, e a doida saiu pela porta fora, descompondo os meus amigos.

― E foi viver com o amante, ou esse mesmo a abandonou?

― Isso não sei. Eu o amante não lho conheci, nem sei quem fosse.

― Não sabe?! Então com que provas se julgou traído?... Desculpe...

― As provas foi ela gastar dinheiro grosso sem dizer no quê: disse que o dera, e acabou-se. Pois a quem dava ela o dinheiro?

― Era velha sua mulher?

― Nada: era uma rapariga bonita, bonita duma vez. Não tinha de seu; apaixonei-me pelo palmo da cara, e casei. Vossa senhoria, que é do Porto, nunca ouviu nomear um general chamado Noronha?

― Noronha?! – exclamou Francisco José da Costa, cravando os olhos pávidos no brasileiro.

― Sim, um general Noronha, que vivia em Ponte do Lima... Minha mulher era filha dele... ― Como se chama essa senhora? – interrompeu o facultativo respirando dificilmente.

― Ângela.

Francisco Costa, espaço de três minutos, ficou num espasmo e torpor de pensamento e ação. Aos olhos do brasileiro aquele ar espantado significava estar o doutor recordando-se de ter conhecido o general ou a filha.

― Talvez que o Sr. doutor visse alguma vez minha mulher no Porto... – prosseguiu Hermenegildo. – Eu morava na Rua do Bispo, numa casa de azulejo de quatro andares... Vossa senhoria está incomodado? – disse o doente, notando extraordinária mudança no rosto do médico. – Parece que está a enfiar!...

― Não, senhor. Estou bom... estava a ouvi-lo, e a lembrar-me... que não me é estranho o nome do general e da filha... Donde era sua senhora?

― De Viana, cuido eu.

― Mas eu tinha ouvido contar que uma filha do general Noronha casara na província do Minho...

― Foi comigo; eu estava então na minha quinta dos Choupos. Lá é que foi dar a tal senhora porque era amiga de minha irmã, que tinha estado no mesmo convento com ela, e eu fiz a grande burricada de casar, sem pedir informações a ninguém.

― E depois mudaram para o Porto? Em que ano?

― Em 1840.

― E foi no Porto que o Sr. Fialho teve razões para suspeitar da lealdade de sua senhora?

― Sim, senhor.

― Mas já me disse que não conhecia o amante, nem tinha a certeza de que ela o tivesse...

― Lá conhecê-lo, não conheci; mas a quem dava ela o dinheiro? A minha casa não ia homem de suspeita. Ela não se visitava com fôlego vivo. Mulheres destas de mexericos não me punham lá o pé das escadas acima, a não ser a costureira, de longe a longe. Não sei; o que sei é que descobri que ela vendia os brilhantes duma pulseira que lhe dei, e distribuía o dinheiro.

― Quantia grande?

― Que eu saiba 1.650$000 réis. Não era pelo dinheiro, que isto cá a mim não me fazia mossa; a minha questão era saber a quem deu ela este capital. Isso é que nem Deus nem o diabo foram capazes de lhe tirar do bucho.

Deteve-se Francisco a pensar naquela quantia de dinheiro, confrontando-a com outra que recebera durante o tempo da sua formatura. O homem tinha momentos de cuidar-se alucinado ou adormecido. Às vezes, a ânsia com que perguntava e o alvoroço com que ouvia as respostas, inclinavam-no sobre a cara do enfermo, que tinha razão de se espantar da torva inquietação do doutor.

― Queira dizer-me... – voltou Francisco, e susteve-se embaraçado com a torrente de perguntas que lhe soçobravam o espírito.

― O quê? – perguntou Hermenegildo, que parecia folgar nestas confidências com o seu médico. ― Já me disse que a sua casa ia apenas uma costureira...

― É verdade...

― E essa costureira...

Susteve-se outra vez o interrogador, receando demasiar-se em averiguações que deviam parecer desnecessárias ao marido de Ângela.

― Da costureira não desconfiava eu, nem me importava que ela lá fosse; mas olhe que não deixei de indagar da vida dela.

― E soube alguma coisa?

― Soube que era uma viúva honrada e que vivia com um irmão. Chamava-se ela Joana, e por sinal que não era má fatia! – acrescentou ele, piscando o olho direito e trejeitando um careta de sibarita.

O facultativo calava-se a intervalos grandes. Dir-se-ia que o nojo crescendo, subindo e empolando-se do peito acima, lhe impedia a fala.

De súbito, perguntou com a fronte avincada.

― E para onde foi a Sr.ª D. Ângela?

― Não sei: os meus amigos ainda a viram sair com a criada pela rua acima, tomar para o largo do Laranjal, e não souberam mais nada. Eu, passadas duas semanas, fiz-me de vela para aqui.

― Mas não pode o Sr. Fialho conjecturar onde ela iria ter?

― Quem sabe lá?!

― Ela saiu sem dinheiro?

― Acho que sim. não me faltou nada de casa. Tinha lá umas jóias, que eram da mãe, e deixou-as. ― Então saiu em circunstâncias de pedir esmola?

― Esmola?... Acho que não...

(continua...)

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