Por Camilo Castelo Branco (1882)
– Aqui veio um rapazola da Póvoa pedir-me uma cadeira há coisa de meia hora para um fidalgo que tinha vindo com ele. Perguntei-lhe quem era o fidalgo. Diz que não sabe. Esta canalha em vendo um bigorrilhas de casaco chama-lhe fidalgo.
– Venha já daí comigo. Por quem é, não se demore... O abade, lembra-se de ver el-rei em Braga há treze anos?
– Ora se lembro!... Beijei-lhe a mão três vezes.
– E, se o vir agora, conhece-o?
– Parece-me que sim – o padre limpava à pressa os beiços amarelos dos ovos do arroz-doce. – Mas isso que quer dizer? Você está doido, ou temos carraspana, amigo Nunes?
– Homem! venha comigo, e depois chame-me doido ou borrachão, lá como quiser; mas não se demore que eu estou em brasas vivas.
– Aí vou, aí vou, não se atrigue. Vai uma pinga do choco?
– Venha de lá isso. – Bebeu de um trago, e pediu outro: – Agora, à saúde de el-Rei! à saúde daquele que talvez esteja bem perto de nós! a cem passos!
– Toque! – exclamou o abade.
Pelo caminho, disse-lhe o Nunes que era preciso o maior disfarce, não olhar muito de frente para ele, e só deviam falar-lhe se a ocasião viesse muito a jeito.
– Você está a sonhar, homem!
Quando entraram à eira, já tinia começado a festa. Veríssimo estava em pé, com a mão direita apoiada nas costas da cadeira. De um e de outro lado remexia-se a turba, muitas raparigas a rirem dos actores vestidos de mulheres, e uns rapazes com chalaças de uma graça aparvalhada, muito local, a que os do palco respondiam à letra com manguitos, e os que faziam de mulheres batiam palmadas no traseiro, voltando-o para o público. Cães ladravam às figuras; os rapazes davam-lhes pauladas e eles ganiam. As velhas mandavam calar o gentio para poderem perceber as faias: – Canalha brava, calaide-vos aí! – Uma balbúrdia que parecia um teatro de cidade de primeira ordem. O tio Gonçalves, o dono da eira, dizia que estavam todos bêbedos, e voltava-se para o desconhecido, como a pedir desculpa.
– É Entrudo – dizia – é Entrudo, senhor!
Quando apareceu o padre na cancela da eira, houve silêncio com algumas fungadelas de riso das cachopas, e recomeçou a comédia em obséquio ao abade e à Arte ultrajada pela hilaridade bruta da plateia. Notaram alguns velhos sisudos que o forasteiro das grandes barbas se mantivera muito sério durante a troça da canalha. Assim o dizia o Gonçalves ao abade, perguntando-lhe se conhecia aquele senhor.
– Não conheço – e acotovelava o Nunes, segredando-lhe com o disfarce:
– Você adivinhou. É ele.
– Que me diz, abade?
– É ele.
O Veríssimo dera três passos para acender um cigarro no de um músico que estava sentado num bombo.
– E ele! – repetiu o abade. – Você não o viu coxear?
– Fale baixo, fale baixo, e não olhe muito para ele, que eu já o vi deitar-nos os olhos – acautelou o Nunes.
– Também eu...
Estalou neste momento uma gargalhada geral. Veríssimo também se riu, e deu palmas.
– Olha! olha! a dar palmas! – notou o abade com transporte. Aquilo sensibilizou-o até às lágrimas! O Sr. D. Miguel I a dar palmas às figuras do Médico Fingido, na eira do Gonçalves, em São Gens de Calvos! Tocante!
A risada geral, as palmas e os apupos não eram figorosamente uma ovação ao autor do entremez nem aos curiosos. Eis o caso. Na cena I o Astolfo pede carinhosamente à filha que coma alguma coisa. Matilde diz que não pode, que não está em si; que lhe acuda, que lhe acuda, porque um suor frio lhe faz perder os sentidos.
O gargajola esperava ser amparado pelo outro, em harmonia com a rubrica que diz: Finge desmaio, e Astolfo a sustém nos braços. Mas ou porque se antecipasse a desmaiar, ou porque Astolfo se demorasse a ampará-la, Matilde escorregou de costas sobre o barro ainda fresco do palco; e, no acto de se erguer debaixo dos apupos da multidão, arregaçaram-se-lhe as saias e saiotes até à cintura. Ora a Matilde não usava calcinhas. Um escândalo. Veríssimo Borges não pôde sustentar a gravidade competente à sua pessoa. A natureza rebentou por de fora numas casquinadas convulsas que poderiam custar-lhe uma mocada, se a deflagração do riso não fosse geral. Matilde fugiu do palco, enfiou pelo palheiro e não voltou à cena. O ensaiador, o trolha, saiu ao terreiro a explicar ao público a suspensão do entremez nestas palavras:
– Aquele alma do Diabo despiu a farpela, e diz que raios o parta, se cá tornar. Vocês pode ir à sua vida que não há hoje treato.
Começou a debandar o auditório em grande algazarra. Veríssimo parecia esperar que o galã, o Relhas Júnior, se despisse para se retirar. O Gonçalves perguntava-lhe:
– E que tal esteve a chalaça, senhor? Má mês pr'ó home, que se mais tivesse mais punha ó léu! – e voltando-se para o abade, que, a pedido do Nunes, guardava respeitosa distância: – Ó Senhor Abade! coisa assim não consta! Eu, se me sucedesse uma daquelas, metia a cabeça num fole.
– São acasos – disse Veríssimo com indulgência. – Não se lembrou que estava vestido de senhora.
O abade ganhou ânimo, abeirou-se do Gonçalves, cumprimentando o outro cerimoniosamente, e disse:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.