Por Eça de Queirós (1940)
Somente há uma certa entidade que se opõe a esta amável combinação e que se chama a França republicana: é quase nada: são apenas dez milhões de eleitores. Esta entidade tem a loucura de querer que a França não pertença a um grupo equívoco de batinas, e de saias, mas que se pertença a si mesma. Esta entidade é portanto considerada – no Palácio do Eliseu – como perfeitamente plebeia, impertinente, grosseira e perigosa para os interesses dos bispos e das duquesas.
Que se há-de fazer portanto a esta entidade? Esmagá-la. Como? Dar-lhe um nome feio, chamar-lhe radical, atribuir-lhe intenções criminosas e usar por isso todos os meios de a repelir – pelas eleições ao princípio, pelos tiros depois. Tentou-se primeiro a eleição: a intriga falhou: a entidade temida, a França republicana, voltou mais ameaçadora e mais forte. Que resta portanto? Tentar o tiro. E vamos ter tiros, verão.
Aqui ninguém duvida que o marechal vai obter uma segunda dissolução; a câmara dos deputados é natural recusar-se a obedecer, e constitui-se em convenção: o marechal manda contra a câmara alguns regimentos: que fará então o povo? Que farão então os soldados?
Esta última questão é grave: qual será a atitude do exército? Terá a obediência passiva e estúpida dos primeiros tempos do império – ou mais educado, mais saido do seio do povo, tendo simpatias republicanas, recusar-se-á a tentar a destruição da república? Esta é a questão: todas as tentativas de compromisso são efémeras: são episódios: o fundo da discussão é este – a França republicana quer que o marechal saia e o marechal não quer sair. Não quer sair porque se acha bem: a marechala quer fazer aos reis e aos príncipes as honras da Exposição: os padres que o cercam não querem que o triunfo da república inaugure uma política antipapal; o visconde de Harcourt, alma danada (ao que dizem) desta intriga, não quer perder os salões do Eliseu, onde triunfa e onde é leão; o duque de Broglie não quer abdicar da sua influência, oculta ou clara, no Governo da França: ninguém quer sair, todos se acham confortáveis no poder. E, como não podem coabitar com a república, hão-de fazer tudo para que a república saia. Para isso contam com uma espingarda: resta saber se a espingarda lhes rebentará nas mãos.
Os negócios da Turquia vão mal. Os generais a que o sultão concedera o título sonoro de Vitoriosos – começam regularmente a ser vencidos. Muktar Paxá, na Ásia, viu o seu exército destruído; e Osman Paxá, na Europa, teve de entregar Plevna, render-se sem condições, depois de uma luta heróica em que ele foi gravemente ferido. Faltam detalhes deste desastre, mas as suas consequências são terríveis: os Russos podem agora arremessar contra Suleiman, ou contra Mehemet-Ali, o grosso dos exércitos que cercavam Plevna. E aqueles generais acham-se diante dos números superiores de tropas exaltadas pela vitória, com boas comunicações asseguradas, e tendo ganho, numa campanha de cinco ou seis meses, uma experiência militar onde os erros se tornam mais raros. Plevna fez, no entanto, uma defesa admirável: parece que (ao contrário do que diziam os jornais amigos da Turquia, afirmando que as provisões abundavam dentro da cidade) o exército de Osman Paxá morria de fome: o primeiro grito dos soldados rendidos foi pedir pão! Compreende-se que Osman Paxá quisesse fazer uma surtida desesperada: e colhido pela frente e pela retaguarda, sucumbisse numa luta desigual. Quase cem mil homens cercavam Plevna: os reforços aglomerados ultimamente elevavam este número a cento e cinquenta mil. Osman Paxá não devia ter mais do que trinta e cinco a quarenta mil soldados, que as privações, a fome, o desalento, tornavam de pouco uso perante forças bem providas. Agora o caminho para Andrinopla está aberto, ou, pelo menos, os exércitos turcos em campanha não são bastante fortes para se oporem ao grosso do exército russo, logo que ele tenha esse objectivo. Andrinopla pode oferecer uma resistência prolongada: mas os Russos não se demorariam nas operações difíceis de um cerco de Inverno, nem quereriam renovar os assaltos mortíferos que dizimaram as suas forças nas primeiras tentativas contra Plevna: e, portanto, o mais natural é que deixem diante de Andrinopla uma força de observação, que torneiem a cidade e se dirijam a Constantinopla. E aí é que começa uma nova fase da guerra: ou campanha diplomática, ou conflito geral, ou então, a paz! É agora que se vai ver quais são as verdadeiras intenções da Rússia. Se fez a guerra com um fim puramente cristão e libertador, está já, pelas vitórias ganhas, no direito de propor a paz, impondo à Turquia condições que garantam a felicidade das populações eslavas: se porém a virem avançar para Constantinopla, então ela descobre a garra conquistadora, e resta saber o que dirão a Inglaterra e a Áustria.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.