Por Eça de Queirós (1912)
Mas então um homem, envolto num grande lençol branco arranjado como uma dalmática de bispo, e com uma mitra negra na cabeça, veio caminhando a coxear para o altar, a ler um livro que segurava nas mãos. Cristóvão conhecia-o. Era o coxo que trabalhava ao lado dele, rosnando palavras ininteligíveis.
Tendo o posto o livro sobre o altar, o homem abriu os braços, e começou a celebração de um rito, que, com horror, parecia a Cristóvão, semelhante à missa de sua aldeia. Curvado sobre o livro, com a mãos postas, ele resmungava uma leitura; erguendo os braços, saudava a criatura felpuda; e quando, voltando-se para a turba, lançava uma benção, todos se curvavam, e risos bestiais estalavam com amargura. Imóvel, a criatura, com as mãos pousadas nos joelhos, recebia o culto, Um acólito, lindo como um pajem, misturava um líquido negro num vaso. E dos grandes carvalhos em redor caía uma sombra negra, que a Lua, aqui e ali, cortava de manchas lívidas.
Como na missa, uma campainha ressoou. O homem mitrado encheu o vaso, fez uma invocação, derramou um gota sobre os pés juntos da criatura negra, bebeu o resto – e tendo limpado os beiços à ponta de sua dalmática, subiu a uma tripeça, e ficou recolhido, como um pregador que vai lançar o seu texto. Um silêncio caiu, tão fundo, que se sentia o rumor das folhas. Um raio de Lua batia a face barbuda do coxo, que começou a pregar.
Erguendo os braços, perguntou onde se encontraria a felicidade para o pobre? A
terra era para ele um lugar de desolação. E desde que nascia até que o levavam para a vala, ele não fazia mais que gemer na escravidão. Da alvorada à noite, trabalhava. E
para quem ia todo o fruto do seu trabalho? Para o Senhor, para o Bispo, para o Intendente que vinha com os arqueiros. Para que o Senhor tivesse armas, ele não tinha lume, e tremia de frio. Para que o Bispo tivesse banquete, ele não tinha pão, e empalidecia de fome. Para que o Intendente vivesse em casas cobertas, ele vivia em tocas que as suas mãos cavavam na terra.
E era só necessidades que sofria? Não. Era espancado, arremessado para o fundo das prisões, morria ente os tormentos... Se a sua mulher era bela, vinham homens de armas que a levavam. Se a sua cabra dava bom leite, vinha o senescal do convento que a confiscava. Tinha que pagar para nascer, tinha de pagar para morrer. Nos homens, para ele, não havia piedade. E havia-a porventura no Céu? O Céu mandava as fomes, mandava as pestes. Quem salvaria o pobre?... Amo forte, que o protegesse, só lhe restava Aquele que vive debaixo da terra e que tem todos os poderes. Ele reunia os seus filhos, ali, onde eram livres e onde não chegava a lança do Senhor, nem o báculo do Abade. Ele ensinava os remédios que livram a peste. Ele fazia achar os tesouros. Ele fazia reflorir a terra. Ele dava do seu corpo o comer aos que têm fome, do seu sangue a beber aos que têm sede. Glória a ele nas trevas! E a multidão gritava: “Glória a ele nas trevas!” Então, saltando da tripeça, o coxo gritou:
— É a hora! Vinde comer e beber, amai a quem vos ame, e sede homens livres no fundo da noite livre!...
Subitamente, dois homens apareceram, trazendo um grande carneiro assado que, com facas, começaram a retalhar. Outros colocaram na mesa de pedra uma pipa de vinho. Com um clamor bestial, toda a turba se arremessou para o feiticeiro. A criatura negra bradava; “Comei do meu corpo, bebei do meu sangue!” Os pedaços sangrentos da rês desapareciam nas bocas vorazes. Em malgas de louça, em vasos de buxo, o vinho negro espumava. Alguns fugiam com sua ração para a devorar em silêncio. Outros lutavam entre si, como cães disputando um osso. As mulheres empinavam as malgas de vinho, que lhes escorria nos peitos. Havia outros que, na alegria do comer, dançavam, brandindo um osso esburgado. Sob a mesa, havia braços descarnados lutando pelos restos. Já uma embriaguez aquecia as almas. Gritos roucos partiam das bocas das mulheres. E de pé, o grande bruxo, intimava a Lua a que se escondesse, para que os homens fossem mais livres, no fundo da noite livre. Cristóvão, imóvel, olhava, encostado a um tronco, a cabeça escondida na ramagem ligeira. Por vezes, um pastor, agarrando uma das mulheres, arrebatava-a para a escuridão. Gemidos de pecado contente soavam na negra espessura. As feiticeiras rasgavam os últimos trapos, e nuas, hediondas, galopavam escarranchadas sobre as vassouras. A grande mulher trigueira arrebatou e enlaçou Cristóvão, com olhos que o devoravam, murmurando: “Vem!”
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.