Por Eça de Queirós (1888)
Villaça fôra consultado sobre a localidade propria para o laboratorio; e o procurador, muito lisongeado, jurou uma diligencia incançavel. Primeira cousa a saber, o nosso doutor tencionava fazer clinica?...
Carlos não decidira fazer exclusivamente clinica: mas desejava de certo dar consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como pratica. Então Villaça suggeriu que o consultorio estivesse separado do laboratorio.
- E a minha razão é esta: a vista de apparelhos, machinas, cousas, faz esmorecer os doentes...
- Tem você razão, Villaça! exclamou Affonso. Já meu pae dizia: poupe-se ao boi a vista do malho.
- Separados, separados, meu senhor, affirmou o procurador n'um tom profundo.
Carlos concordou. E Villaça bem depressa descobriu, para o laboratorio, um antigo armazem, vasto e retirado, ao fundo de um pateo, junto ao largo das Necessidades.
- E o consultorio, meu senhor, não é aqui, nem acolá; é no Rocio, alli em pleno Rocio!
Esta idéa do Villaça não era desinteressada. Grande enthusiasta da Fusão, membro do Centro progressista, Villaça Junior aspirava a ser vereador da camara, e mesmo em dias de satisfação superior (como quando o seu anniversario natalicio vinha annunciado no Illustrado, ou quando no Centro citava com applauso a Belgica) parecia-lhe que tantas aptidões mereciam do seu partido uma cadeira em S. Bento. Um consultorio gratuito, no Rocio, o consultorio do dr. Maia, «do seu Maia» reluziu-lhe logo vagamente como um elemento de influencia. E tanto se agitou, que d'ahi a dois dias tinha lá alugado um primeiro andar d'esquina.
Carlos mobilou-o com luxo. N'uma antecamara, guarnecida de banquetas de marroquim, devia estacionar, á franceza, um creado de libré. A sala de espera dos doentes alegrava com o seu papel verde de ramagens prateadas, as plantas em vasos de Rouen, quadros de muita côr, e ricas poltronas cercando a jardineira coberta de collecções do Charivari, de vistas estereoscopicas, d'albuns de actrizes semi-nuas; para tirar inteiramente o ar triste de consultorio até um piano mostrava o seu teclado branco.
O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quasi austero, todo em velludo verde-negro, com estantes de pau preto. Alguns amigos que começavam a cercar Carlos, Taveira, seu contemporaneo e agora visinho do Ramalhete, o Cruges, o marquez de Souzellas,
com quem percorrera a Italia - vieram vêr estas maravilhas. O Cruges correu uma escala no piano e achou-o abominavel; Taveira absorveu-se nas photographias d'actrizes; e a unica approvação franca veiu do marquez, que depois de contemplar o divan do gabinete, verdadeiro movel de serralho, vasto, voluptuoso, fôfo, experimentou-lhe a doçura das molas e disse, piscando o olho a Carlos:
- A calhar.
Não pareciam acreditar n'estes preparativos. E todavia eram sinceros. Carlos até fizera annunciar o consultorio nos jornaes; quando viu porem o seu nome em letras grossas, entre o de uma engommadeira á Boa Hora e um reclamo de casa de hospedes, - encarregou Villaça de retirar o annuncio.
Occupava-se então mais do laboratorio, que decidira installar no armazem, ás Necessidades. Todas as manhãs, antes de almoço, ia visitar as obras. Entrava-se por um grande pateo, onde uma bella sombra cobria um poço, e uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam ao muro. Carlos já decidira transformar aquelle espaço em fresco jardinete inglez; e a porta do casarão encantava-o, ogival e nobre, resto de fachada d'ermida, fazendo um accesso veneravel para o seu sanctuario de sciencia. Mas dentro os trabalhos arrastavam-se sem fim; sempre um vago martellar preguiçoso n'uma poeira alvadia; sempre as mesmas coifas de ferramentas jazendo nas mesmas camadas de aparas! Um carpinteiro esgouroviado e triste parecia estar alli, desde seculos, aplainando uma taboa
eterna com uma fadiga langorosa; e no telhado os trabalhadores que andavam alargando a claraboia, não cessavam de assobiar, no sol d'inverno, alguma lamuria de fado.
Carlos queixava-se ao sr. Vicente, o mestre d'obras, que lhe asseverava invariavelmente «como d'ahi a dois dias havia de s. ex.ª vêr a differença.» Era um homem de meia edade, risonho, de fallar doce, muito barbeado, muito lavado, que morava ao pé do Ramalhete, e tinha no bairro fama de republicano. Carlos, por sympathia, como visinho, apertava-lhe sempre a mão: e o sr. Vicente, considerando-o por isso um «avançado», um democrata, confiava-lhe as suas esperanças. O que elle desejava primeiro que tudo era um 93, como em França...
- O que, sangue? dizia Carlos, olhando a fresca, honrada e roliça face do demagogo. - Não, senhor, um navio, um simples navio...
- Um navio?
- Sim, senhor, um navio fretado á custa da nação, em que se mandasse pela barra fóra o rei, a familia real, a cambada dos ministros, dos politicos, dos deputados, dos intrigantes, etc. e etc.
Carlos sorria, ás vezes argumentava com elle.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.