Por Eça de Queirós (1870)
Houve toasts, à rainha e aos príncipes ingleses, ao lorde-almirante, à companhia P. and O.; e um inglês rico fez um speech aos estrangeiros: The count and countess of W. — Peço um toast — disse Cármen, de repente.Os copos tiniram, estalaram as rolhas.
— A caçada do tigre! Aos palanquins de cortinas brancas! Aos caçadores que salvam as damas que têm à garupa!A maior parte não compreendeu, alguns riram, mas como o toast era excêntrico, foiescoltado de aplausos.
— Oh! shocking! — disse ao meu lado uma velha irlandesa, que tinha pelo amplo ventredo Purser uma fascinação concentrada.
— Not at all, Madam! — disse eu. — É apenas o sangue meri dional. Aquela viveza,aqueles olhos luzentes, é o sangue meridio nal: se ela agora quebrasse todas as garrafas de encontro ao tecto da sala, era o sangue meridional...
A inglesa escutava, como quem se instrui.- ...Se ela tomasse de repente a roda do leme e arremessas se o paquete contra um rochedo, era o sangue meridional; se ela ou sasse arrancar com mãos ímpias os seus óculos, milady...
— Ouh! — gritou ela. — ...era ainda o sangue meridional!- Oh! Very shocking the sangue meridional! Os oficiais ingleses, esses, estavam entusiasmados com Cár men.No entanto, as senhoras tinham-se erguido; e em volta do con de juntara-se um grupo de bebedores convictos e sérios. Serviu-se o conhaque e os álcoois. Cármen ficara entre os homens, bebendo licor, rindo e fumando cigarrettes.A condessa subira pelo braço de Captain Rytmel.
D. Nicazio, esse, comia impassivelmente o seu queijo adorna--do de mostarda, desalada, de vinagre, de sal, de rábanos e de um leve pó apimentado de Ceilão. Não sei como, falou-se de mulheres, e de caracteres femininos. — Eu — disse logo Cármen — compreendo a gravidade devo ta das misses: comosenhoras inglesas é sua educação; nasceram para serem hirtas, louras, frias e leitoras da Revista de Edimbur go. Estão na verdade do seu carácter: um pouco menos vivas seriam de biscuit, um pouco mais seriam shockings. Mas o que eu detesto, são as canduras alemães, osmodos virginais de criaturas que, pelo seu clima, pelo sol do seu país, pertencem ao que a vivacidade tem de mais petulante. Uma espanhola, uma italiana, uma portuguesa, caindo no missismo e dando-se ares vaporosos, hipócritas e beatos, serve sempre para esconder umamante, quando não serve para esconder dois.
Aquelas palavras eram, evidentemente, uma alusão sangui nolenta às maneirasreservadas da condessa, que, sendo loura, discreta, suave, contrastava poderosamente com aquela trigueira e ruidosa espanhola.
— Perdão, sen~ora — disse-lhe eu em espanhol -, hoje as verdadeiras maneiras não são o salero, são a gravidade. O salero pode ser bom no teatro, na zarzuela, nos corpos de baile, nas gravuras de uma viagem à Espanha, mas é de todo o ponto inconve niente numa sala.Ela empalideceu levemente, e fitou-me:
— Caballero — perguntou -, és usted pedante de rhetorica? Eu ri-me, estendi-lhe a mão, e tudo acabou com um novo toast. Mr. Cokney, queescutava a espanhola, tinha atendido às nos sas palavras, tinha achado um som pitoresco e estranho naquele dizer — pedante de rhetorica, e exclamava para os outros ingleses, rindo:- Oh yes, Pedant de Rhetoriç it is very phantastic!Entretanto, a noite caía. Eu senti-me pesado, recolhi à cabina, adormeci ligeiramente.
Pelas nove horas subi à tolda. Fiquei sur preendido.Não havia luar, nem estrelas, nem vento. Ao fim da tolda ar dia opunch. Era enorme, a sua chama larga, azulada, fantástica, subia, palpitava, fazia sobre o navio toda a sorte dereflexos e de sombras. Dos lugares escuros safam risadas de flirtations. Havia uma flauta euma rabeca. E já um ou outro par valsava em roda da clarabóia da tolda.
A mastreação do navio, tocada em grandes linhas azuladas pe la luz do punch, fazialembrar um galeão de legenda, o paquete de Satã. Algumas senhoras estavam vestidas de branco, e quando no círculo da valsa passavam sob a zona da luz, e eram envolvidas numa claridade fosfórica, os vestidos brancos tomavamtons espectrais, os cabelos louros luziam comum encanto morto, havia em tu do aquilo como uns longes de dança macabra...Cármen estava possuída da mesma agitação da chama do punch, travava do braço aum, valsava com outro, escarnecia, tinha réplicas, batia o leque. D. Nicazio, esse ressonava perto da amurada. De vez em quando entornavam-lhe punch pela boca: ele abria uma frestado olho:
— Thank you, caballeros — e adormecia.- Onde está Captain Rytmel? — disse de repente Cármen. -Tragam-no... Quero valsar com ele.
Rytmel conversava com a condessa sossegadamente, longe da luz.- Rytmel! Rytmel! — chamaram várias vozes.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.