Por Eça de Queirós (1900)
Enternecido, quase com uma lágrima a bailar nos mansos olhos miúdos, que mais negrejavam entre a frescura rósea da face roliça e a cabecinha branca como algodão - Padre Soeiro sorria, fechando as mãos sobre o peito da batina de alpaca, donde surgia a ponta de um lenço de quadrados vermelhos. E não lhe escasseara certamente o desejo de ir à Torre. Mas aquele trabalhinho na Biblioteca do Paço do Bispo... Depois o seu reumatismozito... Enfim a Sra. D. Graça sempre esperando S. Exa., um dia, outro dia...
- Bem, bem! - acudiu alegremente Gonçalo, contanto que o coração não se esquecesse da
Torre...
- Ah! esse! - murmurou Padre Soeiro com comovida gravidade.
E pelo corredor de paredes azuis, adornadas com gravuras coloridas das batalhas de Napoleão, Gonçalo resumiu as novidades da Torre:
- Como o Padre Soeiro sabe, rebentou aquele escândalo do Relho... E ainda bem, porque concluí um negócio esplêndido. Imagine! Arrendei há dias a quinta ao Pereira Brasileiro, ao Pereira da Riosa, por um conto cento e cinqüenta mil réis...
O capelão suspendeu a pitada, que colhera numa caixa de prata dourada, pasmado para o Fidalgo:
- Ora aí está como as coisas se inventam! Pois por cá constou que V Exa. tratara com o JoséCasco, o José Casco dos Bravais. Até no domingo, ao almoço, a Sra. D. Graça...
- Sim - interrompeu o Fidalgo com uma fugidia cor na face fina.
- Efetivamente o Casco veio à Torre, conversamos. Primeiramente quis, depois não quis.Aquelas coisas do Casco! Enfim, uma maçada... Não ficou nada decidido. E quando o Pereira, uma bela manhã, me apareceu com a proposta, eu, inteiramente desligado, aceitei, e com que alvoroço!... Imagine! Um aumento soberbo de renda, o Pereira como rendeiro... O Padre Soeiro conhece bem o Pereira...
- Homem entendido - concordou o capelão coçando embaraçadamente o queixo. - Não hádúvida. E homem de bem... Depois não havendo palavra dada ao Cas...
- Pois o Pereira para a semana vem à cidade - atalhou apressadamente Gonçalo. - O PadreSoeiro previne o Tabelião Guedes, e assinamos essa bela escritura. São as condições costumadas. Creio que há uma reserva a respeito da hortaliça e do porco... Enfim o Padre Soeiro deve receber carta do Pereira.
E imediatamente, descendo a escada, passando o lenço perfumado pelo bigode, gracejou com o capelão sobre o famoso Fado dos Ramires em que ele colaborava com o Videirinha. Oh! Padre Soeiro fornecera lendas sublimes! Mas aquela de Santa Aldonça, realmente, fora ataviada com exageração... Quatro Reis a levarem a Santa aos ombros!
- São Reis demais, Padre Soeiro!
O bom capelão protestou, logo interessado e sério, no amor daquela obra que glorificava a Casa:
- Ora essa! Com perdão de V. Exa.... Perfeitissimamente exato. Lá o conta o Padre Guedes do Amaral, nas suas Damas da Corte do Céu, livro precioso, livro raríssimo, que o Sr. José Barrolo tem na Livraria. Não especifica os Reis, mas diz quatro... "Aos ombros de quatro Reis e com acompanhamento de muitos Condes." Mas o nosso José Videira declarou que não podia meter os condes por causa da rima.
O Fidalgo ria, dependurando num cabide, ao fundo da escada, o chapéu de palha com que descera:
- Por causa da rima, pobres condes... Mas o fado está lindo. Eu trago uma cópia para a Gracinha cantar ao piano... E agora outra coisa, Padre Soeiro. O que se conta por aí do Governador Civil, desse Sr. André Cavaleiro?...
O capelão encolheu os ombros, desdobrando cautelosamente o seu vasto lenço de quadrados vermelhos:
- Eu, como V. Exa. sabe, não entendo de Política. Depois também não freqüento os cafés, ossítios onde se questiona Política... Mas parece que gostam.
No corredor um escudeiro gordo, de opulentas suíças ruivas, que Gonçalo não conhecia, badalou a sineta do almoço. Gonçalo reparou, avisou o homem que a Sra. D. Maria da Graça andava para o fundo do jardim...
- Entrou agora, Sr. D. Gonçalo! - acudiu o escudeiro. - E até manda perguntar se V. Exa. desejapara o almoço vinho verde de Amarante, de Vidainhos.
Sim, com certeza, vinho de Vidainhos. Depois sorrindo:
- Oh Padre Soeiro, previna este escudeiro novo que eu não tenho Dom. Sou simplesmente Gonçalo, graças a Deus!
O capelão murmurou que todavia, em documentos da Primeira Dinastia, apareciam Ramires com Dom. E, como Gonçalo parara diante do reposteiro corrido da sala, logo o bom velho se curvou, com as suas escrupulosas, reverentes cerimônias, para o Fidalgo passar.
- Então, Padre Soeiro, por quem é!
Mas ele, com apegado respeito:
- Depois de V. Exa., meu senhor...
Gonçalo afastou o reposteiro, empurrou docemente o capelão:
- Padre Soeiro, já nos documentos da Primeira Dinastia se estabeleceu que os Santos nuncaandam atrás dos Pecadores!
- V. Exa. manda, e sempre com que graça!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.