Por Camilo Castelo Branco (1864)
Foi a carta com direcção a Braga. Era dia de feira quando ela chegou ao correio: estava ali o marido de Teodora vendendo cereais. Foi à lista postal ver se seu pai tinha carta de parentes do Brasil; e, como não se entendia bem com os nomes maiores de três sílabas, pediu que lhe lessem a lista inteira. Quando o obsequioso leitor chegou a Teodora Palmira Vilar de Sonsa, exclamou Eleutério:
- É a minha mulher! Há-de ser cana do livreiro.
Convém saber que a morgada se entendia directamente com os seus livreiros fornecedores.
Eleutério foi tirar a cana, e deu-lhe nos olhos, afora o lustre do sobrescrito, O lacre azul fechado com armas e, mais que tudo, a marca de Lisboa.
Não me atrevo a compor o solilóquio de Eleutério Romão. Sei que ele andava com a carta às voltas, entre mãos, e às vezes esfregava entre dois dedos o papel, como se pelo tacto pudesse inferir do conteúdo. Estava com ele o regedor da sua freguesia, o mesmo que lera a lista, e lhe lia na alma agora.
- Que estás a malucar, Eleutério? - disse ele. - A modo que esta cana te deu no goto!...
- A falar a verdade - respondeu o marido de Teodora -, esta letra não na conheço, nem estas armas reais!... Minha mulher não conhece ninguém em Lisboa, e estas letras, compadre, parece que rezam Lisboa.
- E como diz: Lisboa sem tirar nem pôr. E então?... achas que ela...
- Estão-me a dar guinadas de abrir isto!... Que dizes tu, compadre?
- Eu cá, se fosse comigo, já a cana estava aberta. Mulher minha a ter canas, sem eu saber de quem!...Deus me defenda!
Palavras mal eram ditas, que Eleutério quebrou o lacre, e passou a carta ao regedor, dizendo:
- Lê lá... ela é tamanha!, parece uma sentença!... Vamos ver isso, que eu já me não sinto escorreito.
O regedor tomou o manuscrito de oito páginas entre as mãos, pôs-se em atitude abrindo as pernas em circunflexo, tossiu, tomou fôlego, deu crena de saliva aos beiços, e leu engasgadamente: "De onde vem esta celestial harmonia, que a minha alma ouviu, quando o Céu me bafejava a infância, e as delícias todas da existência me eram pronunciadas nos sonhos?..."
O regedor revirou os olhos pasmados a Eleutério e disse:
- Tu percebes isto, compadre?
- Assim me Deus salve, que não percebi palavra-respondeu Eleutério Romão esbugalhando os olhos sobre a escrita cabalística.
- Português acho que é! - tornou o regedor, consultando a opinião do compadre. - Isso é, lá português é... Ora torna a dizer.
O leitor repetiu e disse.
- Fala aqui em alma, e sonhos, e delicias. Sabes que mais? Isto, seja lá o que for, não me cheira bem!... Aqui, Deus me perdoe, há maroteira daquela casta!... Deixa-me ver mais um bocado a ver se pesco alguma coisa.
E continuando, leu:
"Sonhos de anjo, alumiados pela imagem lúcida da filha da minha alma!, volvei, volvei, orvalhai a flor requeimada, dai uma lufada de Primavera ao meu coração regelado pelos frios desta infinda noite... Oh, minhas donairosíssimas quimeras!..."
- E agora entendeste? -voltou o regedor. - Eu estou como a Felícia de Abrantes, pior que dantes. Isto, se não é latim, é o diabo por ele!
- Queres tu que se pergunte a alguém?! - acudiu Eleutério. -A gente há-de achar quem lhe explique isto cá em Braga... Fala-se aí a um padre que eu conheço, ao capelão das Ursulinas.
- Dizes bem... Tu não hás-de ir para casa sem tirar isto a limpo... Queres tu ver que aí vem o homem que nos explica o negócio?
- perguntou o magistrado administrativo. - E meu compadre Fernão de Fonte Boa.
Era Fernão de Teive, conhecido por de Fonte Boa por ser lá o seu morgadio. Com o velho fidalgo vinha Mafalda, apoiada no braço dele com doentio aspecto.
O regedor descobriu de longe a cabeça e saiu ao encontro de Fernão, que o recebeu com o agrado dos antigos fidalgos.
- Que é feito de ti, compadre, que te não vejo há cem anos? - disse o velho.- Desde que te fizeram regedor, acho que não cuidas senão em fabricar deputados e comer os salpicões dos recrutas passados pela malha! Anda lá, meu homem, que em tempos melhores havias de ganhar o posto de capitão-mor, que jeito para comer os saudosos lombos tens tu. Então que é feito, rapaz!, quem é aqueloutro? Se me não engano, é o Eleutério do Romão.
- Para servir a V. Exª - disse Eleutério com três mesuras de cabeça exageradas. - Sou eu para servir a V. Exª.
Fernão inclinou um olhar irónico sobre o ombro da filha e disse com um tal represo frouxo de riso:
- Aqui tens o marido da morgadinha da Fervença.
Mafalda escassamente lançou um olhar ao sujeito e baixou os olhos com um gesto de notável comoção.
E o regedor, tirando a carta da algibeira, disse:
- Eu queria consultar o meu Ex.mo Compadre a troco de uma carta que nem eu nem meu compadre Eleutério entendemos. Agente, como o outro que diz, o que sabe é de lavoura, e mal assina o seu nome. O caso é este: aqui o compadre achou no correio esta carta prá mulher. Teve lá seus arrepios, e abriu-a. Começamos a ler, mas nem pra trás nem pra diante. As palavras parecem portuguesas, acho eu; mas nós não sabemos o que elas rezam. Se o Sr. Compadre fizesse o favor de ler isto...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.