Por Camilo Castelo Branco (1862)
Simão Botelho vira imperturbável chegar o dia do julgamento. Sentou-se no banco dos homicidas sem patrono nem testemunhas de defesa. As perguntas respondeu com o mesmo ânimo frio daquelas respostas ao interrogatório do juízo. Obrigado a explicar a causa do crime, deu-a com toda a lealdade, sem articular o nome de Teresa Clementina de Albuquerque. Quando o advogado da acusação proferiu aquele nome, Simão Botelho ergueu-se de golpe, e exclamou:
— Que vem aqui fazer o nome de uma senhora a este antro de infâmia e sangue? Que miserável acusador está ai, que não sabe, com a confissão do réu, provar a necessidade do carrasco sem enlamear a reputação duma mulher? A minha acusação está feita: eu a fiz. Agora a lei que fale, e cale-se o vilão que não sabe acusar sem infamar.
O juiz impôs-lhe silêncio. Simão sentou-se, murmurando:
— Miseráveis todos!
Ouviu o réu a sentença de morte natural para sempre na forca, arvorada no local do delito. E ao mesmo tempo saíram dentre a multidão uns gritos dilacerantes. Simão voltou a face para as turbas, e disse:
— Ides ter um belo espetáculo, senhores! A forca é a única festa do povo! Levai dai essa pobre mulher que chora: essa é a criatura única para quem o meu suplício não será um passatempo,
Mariana foi transportada em braços à sua casinha, na vizinhança da cadeia. Os robustos braços que a levam eram os de seu pai, Simão Botelho, quando, em toda a agilidade e força dos dezoito anos, ia do tribunal ao cárcere, ouviu algumas vozes que se alteravam deste modo:
— Quanto vai ele a padecer?
— É bem feito! Vai pagar pelos inocentes que o pai mandou enforcar.
— Queria apanhar a morgada à força de balas!
— Não que estes fidalgos cuidam que não é mais senão matar!...
— Matasse ele um pobre. e tu verias como ele estava em casal — Também é verdade!
— E como ele vai de cara no ar!
— Deixa ir, que não tarda quem lha faça cair ao chão!...
— Dizem que o carrasco já vem pelo caminho.
— Já chegou de noite, e trazia dois cutelos numa coifa.
— Tu viste-o?
— Não; mas disse a minha comadre que lho dissera a vizinha do cunhado da irmã, que o carrasco está escondido numa enxovia.
— Tu hás de levar os pequenos a ver o padecente?
— Pudera não! Estes exemplos não se devem perder.
— Eu cá de mim já vi enforcar três, que me lembre, todos por matadores.
— Por isso tu, há dois anos, não atiraste com a vida do Amaro Lampreia a casa do diabo!...
— Assim foi; mas, se eu o não matasse, matava-me ele.
— Então de que voga o exemplo?!
— Eu sei cá de que voga? O frei Anselmo dos franciscanos é que prega aos país que levem os filhos a verem os enforcados.
— Isso há de ser para o não esfolarem a ele, quando ele nos esfola com os peditórios.
Tão desassombrado ia o espírito de Simão, que algumas vezes esvoaçou nos lábios um sorriso, desafiado pela filosofia do povo, à cerca da forca,
Recolhido ao seu quarto. foi intimado para apelar, dentro do prazo legal. Respondeu que não apelava, que estava contente da sua sorte, e de boas avanças com a justiça.
Perguntou por Mariana, e o carcereiro lhe disse que a mandava chamar. Veio João da Cruz, e a chorar se lastimou de perder a filha, porque a via delirante a falar em forca e a pedir que a matassem primeiro. Agudíssíma foi então a dor do acadêmico ao compreender, como se instantaneamente lhe fulgurasse a verdade, que Mariana o amava até o extremo de morrer. Por momentos se lhe esvaiu do coração a imagem de Teresa, se é possível assim pensá-lo. Vê-la-ia porventura como um anjo redimido em serena contemplação do seu criador; e veria Mariana como o símbolo da tortura, morrer a pedaços, sem instantes de amor remunerado que lhe dessem a glória do martírio. Uma, morrendo amada; outra, agonizando, sem ter ouvido a palavra "amor" dos lábios que escassamente balbuciavam frias palavras de gratidão.
E chorou então aquele homem de ferro. Chorou lágrimas que valiam bem as amarguras de Mariana.
— Cuide de sua filha, senhor Cruz! — disse Simão com fervente súplica ao ferrador — Deixe-me a mim, que estou vigoroso e bom. Vá consolar essa criatura, que nasceu debaixo da minha má estrela. Tire-a de Viseu; leve-a para sua casa. Salve-a, para que neste mundo fiquem duas irmãs que me chorem. Os favores que me tem feito, já agora dispensa-os a brevidade da minha vida. Daqui a dias mandam-me recolher ao oratório; bom será sua filha ignore.
De volta, João da Cruz achou a filha prostrada na pavimento, ferida no rosto, chorando e rindo, demente em suma. Levou-a amarrada para sua casa, e deixou a cargo de outra pessoa a sustentação do condenado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.