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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Isto está escrito – apontou Ângela, e continuou lendo: Entre ti e Deus poderá existir outro elo, minha querida amiga; mas eu não o conheço. Se um dia o conhecer, então esquecer-te-ei. O homem, que te chama sua, é apenas a lama que se apegou ao brilhante caído no tremendal. Eu serei sempre, na tua memória, o aro de ferro onde realçaria o teu brilho. A sociedade enxovalhou-te, impeliu-te, a golpes da miséria, à degradação dos corpos escravos do ouro; mas eu sei que a tua alma se vai alçando mais para a sua origem purificada por agonias superiores às minhas. A mim resta-me a independência para chorar; e tu não tens sequer esse desafogo, minha pobre Ângela! Eu sou mais feliz, e não queria sê-lo...

Estas leituras e os comentos de Joana despontaram as puas do amor-próprio. A satisfação renasceu.

Neste tempo, noticiaram as gazetas portuenses que o general Noronha voltara de novo a Paris, e recolhera a Portugal sem esperanças de cura, sendo um dos seus flageladores padecimentos uma quase cegueira, que lhe tornava horrorosa a existência no seu solitário palacete de Ponte.

Ângela sentiu-se transida de compaixão de seu pai, que ela tinha conhecido onze anos antes ainda vigoroso, posto que encanecido. Escreveu-lhe. De sua vida nada lhe contava. Oferecia-lhe o seu braço para amparo, os seus olhos para ver por eles, o seu coração de filha para urna das lágrimas espremidas pela saudade e memórias dos seus afetos de moço feliz, com todas as alegrias do mundo a cortejá-lo O general ouviu ler a carta ao seu mordomo, e disse:

― Cuidei que era morta... Morta está decerto...

E não respondeu.

Aquela carta redobrou-lhe o tormento da memória ao ancião. Maria d’Antas relampagueava-lhe amiúde diante dos olhos de alma; e ele circunvagava os do rosto para afastar a imagem formidável com a diversão de outras; mas... não via! Apenas tinha olhos para chorar.

― Por que não chama vossa excelência para si sua filha? – dizia-lhe um dia o mordomo, com a liberdade de quarenta anos de servo.

― E quem te disse que ela é minha filha?

O mordomo calava-se

― Quem te disse que ela era minha filha? – insistia o general esbugalhando os olhos cinzentos e nublosos.

― Pensei, senhor...

― Parece-se comigo?

― Não, senhor, é o rosto de sua mãe.

― Muito parecido? Já me não recordo de Ângela...

― Tal qual. Quando aqui esteve, há sete anos, era como a fidalga d’Antas quando... morreu. ― Vai-te... deixa-me... – rugiu o cego, gesticulando vertiginosamente.

XX

O DOENTE E O DOUTOR

Em fins de 1848 perfazia dois anos e meio que Francisco José da Costa demorava no Rio, gozando os proventos de seus muitos trabalhos e créditos. As remessas de dinheiro feitas à irmã denunciavam o propósito de voltar proximamente à pátria. Uma instante recomendação fazia ele: era a compra da casinha de Viana, que Francisco ainda via luzente e doirada das ilusões de sua mocidade. Talvez que ali vá acabar os meus dias – escrevia ele. – Tenho posses para mais; no entanto, as minhas esperanças não vão mais longe; e as tuas, pobre Joana, são ver-me resignado na tristeza.

Era, pois, em novembro de 1848.

O doutor Costa, como no Rio o honorificavam, foi chamado para visitar um enfermo já seu conhecido e de muita consideração.

Era Hermenegildo Fialho de Barrosas – o roliço devasso que ele não tornara a ver desde o almoço de Petrópolis. Encontrou-o doente do fígado: desconfiou da enfermidade naquele clima, e no afogo do verão.

O acerto do tratamento desfez os mais graves sintomas: receava, não obstante, o facultativo que o doente recaísse por demasias de gulodice em que a enfermeira se mostrava complacente amiga, e lambaz quinheira.

Hermenegildo não dispensava duas visita diárias, pagando-as com generosidade, porque, dizia ele:

― Sou muito rico, conto mais de duzentos contos, não tenho herdeiros. Tinha uma irmã, que já morreu há três meses, com paixão de me ver sair de Portugal para nunca mais. Não poupe o meu dinheiro, Sr. Costa; e de cada vez que vier conte com uma nota de cem mil réis. O que eu quero é saúde para gastar o que tenho; que já não sou capaz disso.

― Então vossa senhoria não teve filhos de sua senhora? – perguntou o doutor.

― Nada, não tive, nem tenho de ninguém. Não sou de casta.

― Mas sua senhora, se não houve divórcio nem escritura especial, deve partilhar da sua herança, penso eu.

― Isso é cá uma história que eu contarei ao meu amigo doutor Costa. Minha mulher... minha ou lá do diabo de quem é, não há de receber uma pataca, se eu for adiante dela. Quando me apartei, desfiz-me de tudo; isto é, dispus a minha fortuna de jeito e com tais artes que ela não acha coisa a que deite as unhas.

― E tem ela recursos de que viva, depois que vossa senhoria a deixou?

― Não sei, nem quero saber. Dizem que o pai é rico; mas ele faz tanto caso dela como eu.

― Desculpe-me fazer-lhe uma pergunta...

― Pergunte o que quiser; que eu já não me importa falar nisto. Deitei o coração ao largo, e, como o outro que diz, leve o diabo paixões e mais quem com elas medra. Gosto do cavaco. Que queria o Sr. doutor saber?

(continua...)

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