Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Os olhos de Cristóvão estavam cheios de lágrimas. Por vezes, cavando a terra, dizia baixo: “Oh terra, dá depressa o pão! Oh terra, tem piedade!” E então os seus golpes de enxada tornavam-se mais doces, quase tímidos, como se receasse magoar aquela que implorava. Quando se distribuía o pão, ele tomava apenas uma côdea, e fazia partes iguais que dava às escondidas às crianças. Todos os olhos das mães se voltavam para ele. Os homens murmuravam pensativamente: “Tu és o melhor...” De noite ele seguia o bando dos cavadores, que iam dormir em largos alpendres, à orla da floresta. Mas raros eram os que se atiravam para cima dos molhos de palha. Uma grande velha, descarnada e esguedelhada, cujos olhos rebrilhavam como brasas, vinha rondar em torno dos casebres apoiada a uma forte vassoura. Ao encarar a sua sombra negra passando no luar, os homens soltavam um suspiro, outros murmuravam: “É a sina!” As mulheres, à pressa, adormentavam as crianças, procuravam entre a palha vassouras, ou pequenas cabaças, ou um pedaço de véu branco. E todos, uns depois dos outros, em silêncio, desapareciam sob o arvoredo. Uma noite uma forte criatura, de olhos ardentes, disse a Cristóvão: “Vem”. E ele, na sua simplicidade, tomou o bordão e partiu. Por toda a floresta, por baixo de toda a folha, se sentia o roçar de gente que caminhava em silêncio. Por vezes um grito prolongado cortava o grande silêncio. E, mais rápidas, as formas perpassavam sob a folhagem que rumorejava. Assim, Cristóvão chegou a uma clareira, cercada de velhos e altos carvalhos, onde a Lua mal penetrava. Uma multidão já a atulhava, trazendo candeias, ou alguma tocha fumarenta que bailava entre os ramos. Uma vasta mesa de pedra alvejava no meio, e um raio de luar, caindo em cima, alumiava um alguidar de ferro, junto com uma tripeça, coberta por uma pele de chibo. Uma impaciência parecia agitar toda aquela negra turba, onde por vezes um olhar reluzia, como o de uma fera na espessura. Uma voz, ao longe, gania: “Voa, voa!” E, umas após outras, vozes lamentosas e dolentes murmuravam:

“Voa!”

Então a grande velha descarnada avançou, escarranchada sobre a vassoura. Outra correu atrás dela, com os grossos cabelos ao vento; e outra ainda – até que uma longa cauda de mulheres esguedelhadas, com o peito nu, grande cendal branco voando ao vento, começou a girar em torno da mesa, lamentável com um mover de braços abertos semelhantes a um bater de asas cansadas. Deram assim uma volta lenta – até que, parando diante da tripeça vazia, a grande velha estacou, e erguendo os braços lançou uma invocação:

S. Marcos te amarque,

S. Manços te amanse,

A Graça te fique,

A Hóstia te pique!

Sempre que me vires

Em mim te remires,

E quanto me não vires

Contra mim suspires!

E soturnamente toda a turba gemeu, com a cadência de um martelo que cai na bigorna:

S. Marcos te amarque,

S. Manços te amanse!

Subitamente a grande fila de mulheres largou numa correria, onde os cabelos se misturavam, as saias meio rotas se espedaçavam, clamando, uivando. desesperadamente:

Sempre que me vires

Em mim te remires,

Quando me não vires

Contra mim suspires.

Cada vez mais rápida girava a grande ronda, com pulos enormes, que atiravam as fraldas brancas pela cabeça, misturavam as grenhas, faziam entrechocar no ar as vassouras e rocas . Já de entre a turba, que olhava em volta, partiam grandes brados.

Aqui e além um braço erguia-se, sacudindo furiosamente uma tocha. Pulos furiosos mostravam uma saia esvoaçando no ar. Havia uivos de lobisomens. E entre as pernas de Cristóvão, aterrado, grandes figuras, como cães, fugiam com as mãos galopando na terra. Mas mais alta que todos os clamores, uma buzina de corno ressoou. Então houve um silêncio tão grande, que se sentia as folhas mover-se ao vento lento da noite.

De novo a grande velha estava diante da tripeça, agitando a sua grande vassoura. E, lentamente, baixo, numa súplica humilde, começou:

Eu te encanto e recanto

E ainda te sobrecanto,

E por um sino-saimão

Metido num coração,

E por fel d’excomungado,

E por bode pintado,

E pela asa do morcego,

E pelo seixo do rego

E pelo sangue do drago,

E por tudo o que te trago,

Vem!

Um imenso apelo ressoou: “Vem!” Todos os braços se erguiam desesperadamente para a tripeça vazia. E a velha, como possuída do delírio, bradava em apelos agudos que varavam o ar:

— Vem contra o Senhor! Vem contra o Bispo! Vem contra o Letrado! Vem contra o Rico!

E cada vez a turba clamava mais ansiosamente: “Vem! Vem!”

Uma grande restolhada cortou a espessura – e soprou sobre a mesa, escarranchado, apareceu um homem enorme, de longa barba preta, todo coberto de pelo preto, que o assemelhava a um bode. Uma aclamação soou, um delírio arrebatou a todos. As mulheres pulavam, os homens sacudiam os barretes – enquanto a criatura negra, imóvel, dardejava em silêncio os seus olhos coruscantes. Depois, quando se fez de novo um silêncio, a criatura, estendendo o pé, gritou numa voz rouca:

— Adorai!

Todos lhe beijaram o pé, que desaparecia sob os felpos longos do pelo.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3435363738...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →