Por Eça de Queirós (1870)
De repente os arbustos estremeceram, as altas ervas curva ram-se, sentiu-se um bafoquente, um cheiro de sangue, e o tigre veio cair, com um rugido, diante dos caçadores, no meio da clareira, estacado e imóvel.
Era muito comprido, de pernas curtas e espessas, a cabeça ós sea, os olhos fulvos,ferozes, num movimento perpétuo e convulsivo; e a língua vermelha como sangue coalhado, pendia-lhe fora da boca.Um momento o tigre arrastou-se, batendo os ilhais com a cau da. Depois , com um gemido profundo, saltou. Mas os cães, arre messando-se, tinham-no prendido no ar, pelas orelhas, pela pele espessa do pescoço, pelas pernas, vestindo-o de mordeduras, ras gando-o, rugindo, cobrindo-o todo. Alguns ficaram logo despeda çados. E no instante em que a fera, tendo cuspido todos os cães, ficou só, magnífica e de cabeça alta, o brâmane fez um sinal.Duas balas partiram. O tigre rugiu, rolou-se freneticamente no chão. Estava ferido.
Imediatamente ergueu-se, arremessou-se sobre os homens. Todos tinham o tridente eos punhais enristados, o ventre da fera veio rasgar-se nas lâminas agudas. Prendera, porém, ummalaio entre as ganas, e rasgava-lhe o peito. À uma to dos enterravam as facas no corpo do animal, e ele, sucumbindo sob o peso, sob as feridas, varado por uma bala, debatia-se aindaferozmente, esmigalhando na agonia os membros do pobre malaio.
— Nada de bala! Nada de bala! — gritava o brâmane. Eu estava fascinado. Cármen convulsivamente apertada a mim, com os olhoschamejantes, vibrando por todo o corpo, dava gritos surdos de excitação. O tigre ficara estendido, escorrendo sangue. Eu devorava-o com a vista, seguia-lhe a mais pequenacontracção dos músculos. Vi-o arquear-se de repente, e com um pulo vertiginoso arremessar-se sobre mim e sobre Cármen. Com uma determinação súbita, disparei um tiro do meu revólver no ouvido do cavalo que montávamos. O animal caiu sobre os joelhos, nósrolámos no chão. O tigre levava um pulo elevado, roçou pelas nossas cabeças, foi cair a distância, revolvendo-se na terra. Er gui-me, arrojei-me a ele, cravando-lhe o punhal entre aspatas dianteiras com um movimento rápido, que lhe foi ao coração. O ti gre ficou morto. Abaixei-me, e com uma faca malaia em forma de serra cortei-lhe uma pata, e apresentei-a a Cármen.- Hurra — gritaram todos, e o eco deste grito estendeu-se pe la floresta.
Cármen tinha-se aproximado do tigre morto, acariciava-lhe a pele aveludada, tocavalhe com as pontas dos dedos no sangue que escorria.- Hurra! Hurra! — continuavam gritando os caçadores.
Cármen, então, arremessando-se aos meus braços, beijou-me na testa com entusiasmo,dizendo alto: — Salvou-me a vida! Devo-lhe a vida!... E mais baixo, murmurou-me ao ouvido:- Amo-te.
A tarde caía. Sentíamos os braços fracos, e grande sede. Come çámos a dirigir-nos paraCalcutá. Descansámos numa plantação de índigo. E ao começar da noite, com archotes acesos e cantando, partimos alegremente para a cidade, pela floresta, num caminho conhecido e seguro. As luzes davam à ramagem atitudes fantás ticas; pássaros acordandoesvoaçavam; e sentia-se o fugir dos chacais. Era como a volta de uma caçada bárbara, das velhas le gendas da Índia. Cármen tinha aberto as cortinas do palanquim. Eu montava, aolado dela, o cavalo do malaio morto. Ela inclinou-se para mim e com a voz abafada:
— Juro-te — disse-me — que te amo, como só no nosso país se ama. Juro-te que em todas as circunstâncias, sempre darei a mi nha vida pela tua, quererei os teus perigos, serei a tuacriatura, e só te peço uma coisa.
— O quê?- E que de vez em quando, quando não tiveres melhor que fa zer, te lembres um pouco de mim.
— O momento, o sitio, os perfumes acres, as fantásticas sombras da floresta, a luz dosarchotes, a beleza maravilhosa e fatal de Cármen, os tiros, os sons das trompas, os relinchos dos cavalos, os gritos dos chacais, tudo me tinha perturbado, exaltado, e esque cendo o sensoe a lógica, disse-lhe:
— Juro-te que te amo, que sempre te serei leal, e que no dia em que vires que te esqueço, quero que me mates! Ele segurou a mão que lhe estendi, e com uma carícia humil de, com um gesto de fera que rasteja, curvou-se toda na grade do palanquim, e beijou-me os dedos. A noite, no entanto, enchia-se de enormes estrelas cintilan tes..»
V
Ao terceiro dia de viagem do Ceilão, um dia antes de avistar mos Malta, um oficial inglês, ao almoço, lembrou que naquele dia fazia 28 anos o príncipe de Gales. Quase todosos oficiais que estavam abordo conheciam o príncipe, estimavam o seu carácter, o seu temperamento eminentemente byroniano. Resolveram, com a ce dência do comandante, celebrar a data e valsar à noite, na tolda, à luz de um punch colossal.O jantar foi já ruidoso; o champanhe resplandeceu como opa la liquida nas taças facetadas; a pesada pale ale espumou; o xerez ferveu na soda water. Cármen, pela suabeleza e pela estranha verve da sua agitação, foi a alegria daquele pesado e longo banquetede anos reais.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.